Noite dos Enredos anima os sambistas nesta sexta-feiraÉrica Martin / Agência O Dia
Durante a noite, as 12 agremiações do Grupo Especial sobem ao palco para apresentar ao público detalhes dos enredos que levarão para a Marquês de Sapucaí. A abertura fica por conta do grupo feminino Samba Que Elas Querem. A festa ainda conta com a participação de sambistas e personalidades ligadas ao carnaval, em apresentações que antecipam um pouco do espetáculo preparado para a Avenida.
Tradicional no calendário carnavalesco até o início dos anos 2000, quando era voltada aos convidados das escolas, a Noite dos Enredos voltou a ser realizada em formato aberto ao público em 2025 e, desde então, passou a integrar o calendário oficial da Cidade do Samba.
"O enredo da Viradouro vai falar sobre os griôs, a gente faz uma grande homenagem à contação de histórias. O enredo nasce de um questionamento: por que as escolas de samba contamos histórias de enredo todos os anos? Por que esse costume de contar enredos? Vamos exaltar exatamente esse costume", destacou.
"A 'Memória do Rei e o sumiço de Dona Júlia' amplia o olhar sobre as tradições dos maracatus de baque virado, revelando-as como espaços para a manutenção de ritos associados à coroação dos reis do Congo e às devoções particulares marcadas por aspectos espirituais, nem sempre tão bem difundidos, como o culto aos eguns e o encantamento dos objetos", afirmou.
A União de Maricá, estreante no Grupo Especial, também participa do espetáculo. O carnavalesco Edson Pereira explicou que o desfile homenageia Darcy Ribeiro, percorrendo diferentes momentos da vida e do pensamento do antropólogo e escritor.
"O desfile percorre suas diferentes 'peles', sempre guiado pela sua utopia. A narrativa atravessa o menino sonhador de Montes Claros, os povos originários, a educação, a cultura popular e os grandes projetos idealizados por Darcy, mostrando como todas essas dimensões se unem em um mesmo sonho de país. No fim, faremos uma grande Kuarup, ritual sagrado dos povos do Alto Xingu que celebra a memória e eterniza grandes lideranças. Darcy escolheu Maricá para encerrar a sua vida, finalizar o livro 'O Povo Brasileiro' e nós o escolhemos para esse momento tão marcante que é a estreia no Grupo Especial", afirmou.
Na Estação Primeira de Mangueira, o foco é a força feminina representada por Oyá. O carnavalesco Sidnei França destacou que a escola pretende apresentar diferentes dimensões da divindade.
"A Mangueira terá como tema 'Oyá Por Nós', quando celebrará na Marquês de Sapucaí a potência dessa poderosa energia feminina, a senhora dos ventos, raios e tempestades. A apresentação desse enredo percorre desde os fundamentos mitológicos, através de itans e orikis que disseminam e perpetuam a força desse orixá, passando pelas práticas religiosas do candomblé até a força de Oyá presente nas ruas, incentivando mulheres que nelas se inspiram na batalha diária", disse.
A Unidos de Vila Isabel leva para a Sapucaí uma adaptação do romance "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior. Segundo o pesquisador Vinícius Natal, o enredo discute a relação do povo brasileiro com a terra.
"O enredo da Vila é 'Torto Arado - Sobre a terra há de viver sempre o mais forte', falando sobre o livro 'Torto Arado', escrito por Itamar Vieira Junior. Na verdade, é uma adaptação do livro para o formato de enredo, onde a gente narra a saga de uma família que é narrada por uma entidade encantada, a Santa Rita Pescadeira. A gente narra a saga dessa família na luta pela terra na região da Chapada Diamantina. É um livro que fala sobre como a questão da terra é importante para o Brasil e é fundamental a gente mergulhar nessa dimensão para compreendermos mais quem nós somos", afirmou.
"Vamos contar uma história de reencontro, retornar às origens para construir um futuro de liberdade, paz, prosperidade… É a história do povo Tabon, que é pouco conhecida, mas muito interessante. A comunidade Tabon vive em Gana até os dias de hoje. Africanos escravizados no Brasil, após conquistarem a liberdade, retornaram para o continente africano. Eles voltam para a terra de origem, mas também levaram muito do que aprenderam aqui. Nosso enredo conta a história dessa comunidade e de como ela foi importante no processo de desenvolvimento e independência dos países africanos, especialmente Gana", explicou.
O Paraíso do Tuiuti apresenta um enredo sobre sambista, mãe de santo e curandeira Tia Ciata. Para Claudio Russo, compositor e autor da obra, a personagem permanece atual por sua influência na cultura brasileira.
"Estamos falando de uma mulher protagonista de uma comunidade preta, pobre e segregada, mas extremamente forte. A cada momento do estudo apareciam novos feitos e novas dimensões dessa história. Mesmo tendo nascido em 1854 e partido há mais de 100 anos, Tia Ciata continua contemporânea. Está presente em cada mulher que sustenta sua família, que leva educação, cultura e arte para os filhos e também para toda a comunidade. No desfile do Tuiuti, Tia Ciata estará representada em cada mulher preta da escola", afirmou.

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