Luiza Possi Divulgação

Rio - Após mais de duas décadas cantando o amor na MPB e no pop, Luiza Possi vive um momento de transformação na carreira. A artista lançou o single "Estou Apaixonado", ao lado de Péricles, que abre o projeto do álbum "É Só o Amor", trabalho que marca o encerramento de um ciclo de 25 anos. Em entrevista ao MEIA HORA, a cantora falou sobre o novo projeto, relembrou momentos marcantes da trajetória e explicou como a conversão ao cristianismo influenciou a decisão de migrar para a música gospel, anunciada nesta última semana. Confira!
- Esse álbum marca o início de uma nova trajetória. Como foi o processo de criação desse trabalho e o que você quis expressar com ele?

Esse álbum marca um início, mas também uma conclusão. Estamos há cerca de um ano e meio gravando esse trabalho. A produção é do Vini Nalon e o projeto tem várias curiosidades interessantes. Além da participação do Péricles em 'Estou Apaixonado', uma música nostálgica eternizada por João Paulo & Daniel, o álbum tem participações especiais. Em uma das faixas, o baterista que já tocou com Michael Jackson e Taylor Swift gravou com a gente.

Também incluí uma música chamada 'Além do Arco-Íris', que gravei para a novela 'Chocolate com Pimenta' há 23 anos e que nunca entrou em nenhum álbum. Ela nem está nas plataformas digitais. De certa forma, é uma reparação com a minha própria carreira. Gravamos ainda as cordas com a Filarmônica da Rússia, o que deu um peso muito bonito ao arranjo. Foi emocionante reencontrar a atriz Mariana Ximenes e contar para ela sobre essa música, já que ela interpretava a Ana Francisca na novela.

Esse álbum reúne várias dessas histórias e fala muito sobre o amor. Pode parecer um tema repetido, mas falar de amor em um momento em que vemos tanta intolerância, guerras e agressividade nas redes é quase um ato de resistência. É o amor romântico, o amor de mãe, o amor entre amigos. São muitos tipos de amor que fazem parte da minha vida.

- Seu novo álbum tem a participação do Péricles na faixa 'Estou Apaixonado'. Como aconteceu essa aproximação?

Tenho uma relação de proximidade grande com o Péricles há muitos anos. Muita gente me vê como cantora de MPB, mas gosto muito de pagode e samba. Meu pai (Líber Gadelha) foi um dos grandes produtores de samba do Brasil. O Péricles tem muito respeito pela minha história e pela história do meu pai. Inclusive, já compus uma música para ele, chamada 'Feito Pra Durar', que deu nome ao disco dele e marcou o início da carreira solo. 
Fui convidada para cantar 'Estou Apaixonado', em espanhol, na novela "Família é Tudo" (2024), escrita pelo Daniel Ortiz. Quando postei nas redes sociais, o Péricles comentou dizendo que tinha se emocionado e que eu deveria gravar mais músicas naquele estilo. Aquilo despertou em mim a vontade de fazer um álbum de amor que emocionasse as pessoas. A primeira pessoa que pensei para cantar comigo foi o Péricles. Foi um momento de carinho, admiração e homenagem muito importante para mim.

- O álbum foi anunciado como o último da sua fase no pop e na MPB. Que sentimentos surgem ao encerrar esse ciclo de 25 anos?

Gosto de pensar que esse álbum encerra uma fase, mas não gosto muito da ideia de 'último'. Não sei quantos anos ainda vou viver ou o que vou querer fazer daqui a 30 ou 40 anos. Prefiro pensar em estações da vida. É, sim, uma estação que estou encerrando. Tenho muito orgulho da minha carreira e da trajetória que construí. Ao mesmo tempo, a minha caminhada com Deus e a decisão de cantar para Ele não entram em conflito com o que fiz até aqui. Não existe nenhuma música na minha discografia que desabone essa fé. Existe a dor de encerrar um ciclo, mas também a delícia de começar algo novo. Esse frio na barriga sempre traz novas experiências, novas pessoas e novas histórias. Estou vivendo esse momento um dia de cada vez.

- No manifesto do álbum você diz que essa mudança não é uma ruptura, mas uma continuação. Como chegou a essa compreensão?

Porque sempre cantei sobre amor. Este álbum continua falando de amor, e os próximos também falarão. A diferença é que agora estou falando do amor espiritual, do amor por Cristo, do amor por Deus. Sempre fui um pouco monotemática nesse sentido: falar de amor por diferentes prismas. Por isso vejo essa mudança como continuidade. O louvor foi a porta de entrada para a minha caminhada com Jesus. Ele já faz parte da minha rotina, da minha casa, da rotina dos meus filhos. É algo que naturalmente transborda para o público.
Já tinha experimentado cantar louvor nas redes sociais e senti que isso ecoava muito nas pessoas. Recebi testemunhos muito bonitos. Então tudo foi apontando para esse caminho. Mas é importante dizer que essa transição vem sendo pensada há dois anos. Não é algo impulsivo. Aos 41 anos, a gente pensa muito antes de tomar decisões. Esse período está sendo vivido com muita conversa, planejamento e honestidade com o público.

- Você contou que se converteu ao cristianismo em 2024. Como aconteceu esse processo?

Foi através do louvor. Ele abriu portas para que eu conhecesse mais o evangelho, até ter um encontro real com Jesus. Existe um louvor que diz: “Uma vez que coloquei meus olhos em Ti, nada mais me satisfaz”. Essa frase me toca profundamente, porque depois desse encontro você não consegue mais ser a mesma pessoa. É importante dizer que me converti ao cristianismo, não a dogmas específicos de uma religião. Foi um encontro com o evangelho de Jesus.

- Em que momento essa transformação passou a influenciar sua trajetória artística?

A boca fala do que o coração está cheio. Eu sempre tive liberdade artística para cantar o que realmente faz sentido para mim. Nunca escolhi repertório baseado em moda ou no que estava fazendo sucesso. Acho que isso é parte do motivo de eu ter conseguido manter respeito e relevância na carreira. Já cantei o amor romântico, o amor sofrido, o amor materno — inclusive tenho músicas sobre isso. Agora esse amor espiritual pulsa muito dentro de mim. Eu canto louvor no carro, em casa, nos shows. Meus filhos também cantam. Era inevitável que isso se refletisse na minha música.

- Como você imagina que os fãs vão receber essa nova fase?

Acho que o maior impacto foi quando eu me converti. Isso já foi um grande momento de surpresa para muitas pessoas. A vida é feita de ciclos. Algumas pessoas seguem com você por muito tempo, outras descobrem novos caminhos e interesses. Isso é natural. Tenho uma relação muito próxima com meus fãs. Conheço muitos pelo nome, acompanhei a vida de vários deles ao longo dos anos. Existe um carinho muito grande entre nós. Talvez algumas pessoas se afastem musicalmente, mas o afeto permanece.

- Você se preocupa em agradar o público?

Acho que seria hipócrita dizer que não queremos agradar. Claro que queremos que as pessoas gostem do que fazemos. Mas também nunca fiz escolhas baseadas apenas no que poderia virar sucesso. Já recusei projetos e contratos porque não representavam a minha verdade artística. Se depois de 25 anos de carreira ainda existe interesse no meu trabalho, acredito que isso aconteceu justamente porque sempre fui fiel ao que acredito.

- Como você imagina sua identidade artística dentro da música gospel e que mensagem pretende passar para as pessoas?

Sempre gostei muito do gospel das igrejas americanas do Brooklyn. Tenho referências como Aretha Franklin, CeCe Winans e Whitney Houston. O projeto que estou preparando já está bem encaminhado, mas ainda não posso revelar muitos detalhes. Posso dizer que será algo bastante disruptivo dentro da música cristã. Sobre a mensagem, não pretendo falar de grandes teologias. Tenho apenas dois anos de caminhada espiritual. O que vou cantar é aquilo que vivi com Deus: de onde Ele me tirou, como aconteceu esse encontro e porque escolhi seguir esse caminho. Será uma mensagem de fé, de esperança e de confiança em Deus.

- Já há datas definidas para os shows de despedida?

Ainda estamos definindo a agenda, mas já temos um show confirmado em São Paulo, no The Cavern, no dia 6 de junho.