Michel MelamedAndre Mantelli / Divulgação

Rio - Escrito, dirigido e musicado por Michel Melamed, o espetáculo "O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado", em cartaz no Sesc Copacabana até o dia 24 de maio, aposta em uma mistura de humor, música à capela e crítica ao sistema de produção artística contemporâneo. A montagem acompanha uma funcionária de um fictício Setor de Registro e Produção de Obras Artísticas, onde projetos precisam ser aprovados para existir. Incapaz de desenvolver algo próprio, ela passa a rejeitar ideias alheias até criar sua "Obra de Arte Total", construída a partir da colagem de tudo aquilo que foi recusado.

Em cena, Melamed divide a produção com Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky. "Um elenco espetacular! Tentacular! Moiras! Inez, Simone, Thalma e Yasmin: divinas, emocionantes, ultra-talentosas… As quatro cavaleiras do apocalipse, as quatro estações… Sorte e coragem estar ao lado destas mulheres!", celebra o diretor.

Segundo Melamed, a ideia nasceu a partir do próprio processo criativo e da inquietação constante em torno da criação artística. "Surgiu, como usualmente, desse encontro com a página em branco e então se deixar levar, para em seguida escrever mil vezes... Por outro lado, posso jurar que a criatividade é a coisa mais importante da vida, imaginar alternativas é desafio diário para todo mundo", explica. Para ele, o tema atravessa toda a sua trajetória. "Acho mesmo que todos os meus trabalhos falam disso".

Na peça, a crítica à burocratização da arte e às dificuldades enfrentadas pelos artistas aparece em tom ácido, mas sem abandonar o humor. Melamed acredita que o problema não está na ausência de ideias, mas na dificuldade de tirá-las do papel.
"Os artistas produzem o tempo todo! A pressão maior que sentimos é de não poder realizar o tempo todo, transformar mais ideias em realidade. Porque os modelos de produção e financiamento são poucos, limitados, enfim, é inviável o desenvolvimento de um trabalho continuado… Isso sim é que esgota, mas a saúde dos artistas", declara. 
Na carreira, Michel já assinou trabalhos como o livro e espetáculo "Regurgitofagia", além das séries exibidas pela Globo "Capitu" (2008), e "Afinal, O Que Querem As Mulheres" (2010). No Canal Brasil, esteve à frente dos programas "Bipolar Show" (2015), e do recente "Polipolar Show" (2025).
Para ele, transitar entre diferentes linguagens artísticas sempre foi parte essencial do seu processo criativo. "Desde o meu primeiro trabalho é assim, a ideia de recusar fronteiras", afirmou. "E acho uma estratégia deliciosa para surpreender o espectador, um convite para imaginar junto, pensar sobre os sentidos do que se vê… E, principalmente, do que não é visível."
Melamed também reconhece que muitas das discussões levantadas pelo espetáculo dialogam com sua experiência profissional. "Vivo atravessando esse atravessamento… A cada novo projeto volta-se à estaca zero, projetos, editais, patrocínios… Por mim, faria uma peça atrás da outra", conta. O artista ainda destaca a importância da democratização do acesso à cultura. "O que acho alarmante é a arte ser parte indissociável do processo educacional, mas sua produção e consumo ainda não ser acessível, farta e variada".
Projetos novos a caminho
Além da peça, Michel Melamed adianta que já prepara novos trabalhos para os próximos meses, incluindo uma série para streaming. O artista também revela interesse em retornar às novelas. Seu último trabalho no formato foi em "Além do Tempo", exibida em 2015. "Adoraria. Fiz uma só, não dá ainda pra dizer que sinto falta, mas gostei demais da gincana", brincou o marido de Leticia Colin. Ao falar sobre os sonhos profissionais que ainda deseja realizar, Melamed resume: "As dezenas de projetos que me olham tão carinhosamente do fundo do computador".
Serviço
'O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado'
Até 24 de maio; quintas e sextas-feiras, às 20h; sábados e domingos, às 18h
Local: Sesc Copacabana - Arena
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 - Copacabana
Ingressos: a partir de R$ 15