Giovanna Lancellotti fala sobre jornada da personagem Kamila em Dona de MimDivulgação/Saullo Moreira
Giovanna Lancellotti comenta impacto do abuso de Kamila em 'Dona de Mim': 'Muita gente se sentiu acolhida'
Atriz fala sobre enredo da personagem, nova fase após casamento e relação com o Carnaval
Rio - De volta às novelas em um dos papéis mais sensíveis de sua carreira, Giovanna Lancellotti emociona e diverte o público ao interpretar Kamila em "Dona de Mim", novela das 19h da TV Globo. A costureira da fábrica Boaz se tornou uma das figuras mais queridas do folhetim de Rosane Svartman ao transitar entre leveza, impulsividade e temas densos como solidão materna e abuso sexual.
Kami criou Dedé (Lorenzo Reis), sozinha, quando Ryan (L7nnon), pai do menino, foi preso. Para Giovanna, essa foi uma das partes mais delicadas de representar na trama. "Foi e está sendo um desafio muito interessante e transformador. A maternidade solo é um ato de coragem diária, e trazer isso pra tela com delicadeza, mas também com força, tem sido uma experiência bem marcante na minha trajetória artística", relata.
A atriz conta que se inspirou em relatos reais e em muita observação para construir a personagem. "A Kami representa tantas mulheres brasileiras que sustentam suas casas sozinhas, emocional e financeiramente, que eu sentia uma responsabilidade enorme em fazer isso com verdade. Construí muito a partir de relatos que ouvi e da minha própria observação do mundo."
Mesmo anos depois da prisão de Ryan, a ferida do abandono segue interferindo nas escolhas da funcionária da fábrica Boaz. "Ela aprendeu a se proteger. O abandono, mesmo que não intencional, deixou nela uma cicatriz que definiu muito da forma como ela se relaciona. Ela é amorosa, mas desconfiada; forte, mas sempre alerta. Trabalhei essa dualidade desde o início: a menina que foi ferida e a mulher que tenta seguir em frente apesar disso", explica Lancellotti.
Muitos sentimentos reaparecem quando Ryan deixa a cadeia e surpreende os moradores de São Cristóvão na festa junina do bairro. A artista acredita que a reaproximação bagunçou a estabilidade emocional que ela acredita ter conquistado. "A presença dele traz à tona tanto o amor quanto a dor que ela guardou. Kami vive um caos interno muito honesto e humano. Na vida real, muita gente também passa por esse movimento. Quando reencontra alguém que marcou profundamente sua história, muitas camadas se mexem."
Uma das sequências mais fortes da novela acontece quanto Kamila é abusada ao sair da Boaz após várias perseguições online de um stalker. A cena gerou grande repercussão e exigiu um cuidado extremo de Lancellotti e da equipe do folhetim.
"Fizemos com todo o cuidado do mundo - preparação, estudo e concentração, além de muita troca com a equipe e a direção. Eu queria transmitir o horror da situação sem cair no exagero, na caricatura. O retorno do público mostrou que fizemos da maneira certa. Muita gente se sentiu acolhida, respeitada e representada, e isso pra mim vale todo o esforço emocional que a cena pediu", analisa a artista.
Em "Dona de Mim" o abuso marca uma virada decisiva para Kami, que enfrenta o trauma, decide prestar queixa e passa a lutar ativamente por justiça. "Isso não apaga o trauma, mas é um passo fundamental para romper o ciclo de violência. Quando uma personagem toma essa decisão, muitas mulheres se veem ali. A arte tem esse poder: às vezes uma trama desperta coragem em alguém que estava paralisada pelo medo."
Tentando reconstruir a vida, a mãe de Dedé fica noiva de Marlon (Humberto Morais). A relação acabou afetada pela diferença de visões sobre o crime do qual ela foi vítima. "Ele queria proteger, mas de uma forma que não correspondia ao que a Kami precisava. Ela escolhe a própria saúde emocional, e isso é tão moderno, tão feminino, tão necessário. Às vezes o amor existe, mas não é suficiente", diz.
A vida amorosa da amiga de Leo (Clara Moneke) e Pam (Haonê Thinar), então, ganha um novo capítulo. Ela reata o antigo relacionamento com Ryan ao notar a mudança de comportamento dele - depois de deixar a vida do crime - e é pedida em casamento pelo rapper. Giovanna comenta que essa maturidade é o que motiva a torcida pelo final feliz do casal. "É uma química que nasceu naturalmente e o público abraçou de um jeito muito carinhoso. Ao mesmo tempo, as pessoas torcem porque entendem que esse relacionamento é cheio de nuances. Não é um conto de fadas, é amor com história, dor e superação", opina.
Com a novela abordando temas como violência contra a mulher, stalking e busca por justiça, Kami virou símbolo de força. A atriz recebe diariamente mensagens de telespectadoras que se reconheceram na jornada da personagem. "Dizem que se sentiram compreendidas ou que finalmente procuraram ajuda após ver a trajetória da Kami. Isso dá outro sentido ao trabalho. A gente faz novela para entreter, claro, mas quando ela consegue tocar em feridas sociais e provocar movimento, é muito poderoso".
Vida Pessoal
Fora da ficção, Giovanna viveu um momento mais que especial. Ela oficializou a união com Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), em cerimônia aos pés do Cristo Redentor e outra em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, cidade onde a atriz foi criada.
"Eu sempre quis que o meu casamento tivesse significado e teve em cada detalhe. Estar com o Gabriel tem sido uma parceria leve, bonita, cheia de respeito. A vida de casada, pra mim, é isso: construir junto, somar, rir muito e continuar sendo individualidades que se escolhem todo dia", afirma.
Sobre a atenção em torno do casamento, Giovanna destaca que encontrou uma maneira saudável de lidar com a exposição. "Nem tudo precisa ser compartilhado, e isso nos traz paz. Ao mesmo tempo, entendemos o carinho do público, e é gostoso dividir momentos especiais. Mas sempre com limites claros, a nossa vida íntima é nossa."
A união com o filho de Anísio Abraão David, presidente de honra da Beija-Flor de Nilópolis, rendeu para a atriz o apelido de 'primeira-dama do Carnaval', algo que ela encara com leveza. "A Beija-Flor é uma escola que me acolheu de braços abertos e eu tenho um carinho enorme por todos ali. O protagonismo é da escola, da comunidade e do Carnaval. Se me chamam assim por carinho, eu recebo com amor, mas sem esquecer que o Carnaval é coletivo e gigantesco, muito maior do que qualquer rótulo", esclarece.







