Margareth Menezes levanta a bandeira do pop de raízes afro no álbum novo, 'Autêntica'

Cantora baiana recorda época em que substituiu Gilberto Gil num festival de rock e ganhou de vez o público brasileiro

Por RICARDO SCHOTT

Margareth Menezes
Margareth Menezes -

Rio - "Quando ouço Margareth Menezes, tenho uma experiência coletiva do que é a alegria", afirmou ninguém menos que a ativista negra norte-americana Angela Davis, em palestra recente no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Lançando novo disco, 'Autêntica', com músicas combativas como 'Querera' e 'Minha Diva, Minha Mãe', Margareth - que já tem carreira internacional real desde os anos 1990 - recebeu com surpresa e felicidade a declaração de Angela.

"Sabe quando você não imagina que uma pessoa conheça o trabalho da gente?", diz Margareth, citada por Angela ao lado de Clara Nunes e Elza Soares como vozes brasileiras negras que importam. "Eu não conhecia a Angela pessoalmente, apenas de nome. E conheço também a luta dela contra o racismo, a discriminação. Foi muito gratificante. Também recebi uma comenda do prefeito de Nova Jersey (Estados Unidos) pelo reconhecimento ao meu trabalho e foi tudo bem próximo, uma coincidência pela qual só tenho que agradecer a Deus".

O repertório do álbum mistura canções autorais e presentes de autores amigos. E como costuma acontecer na obra de Margareth, está repleto de letras fortes - como a feminista 'Mulher da Minha Vida' de Gabriel Moura e André Lima, de versos como "não sou um avião pra você me pegar/não sou um sanduíche pra você comer (...) o meu lugar é onde eu quiser". E a autoral 'Vento Sã', que fala em "não ao tiro de fuzil, sim à caneta na mão".

"Pensamos na visão feminina, na visão da mulher negra. Falamos também do sagrado feminino, da minha ancestralidade. Meus discos têm essa inquietude. E focamos num lado afropop, urbano. Falamos de religiosidade afro-brasileira, de amor, mas sem deixar de lado essa faceta pop e negra", conta ela. Por sinal, afropop é uma tecla na qual ela prefere bater no momento, como uma maneira diferente de apresentar a ancestralidade negra na música e na cultura.

"As pessoas ouvem o pop-rock e não ouvem afropop. É uma questão de preconceito, mesmo. O nome afropop agora consegue entar nas plataformas digitais (Spotify, Dezzer, etc). Os jovens negros têm ancestralidade, mas são urbanos. Quando o artista é americaho, ele canta afrobeat. E nós, aqui no Brasil, não podemos ficar só num pacotinho de música regional", acredita ela, cujo ambiente artístico ainda inclui o Carnaval. "Ele é uma grande vitrine. Veja o que as escolas de samba fazem a cada ano, os blocos. Os enredos estão cada vez mais questionadores".

Participações

No disco novo, Margareth convidou nomes como Ahmed Soultan, artista franco-marroquino que gravou com ela uma versão em inglês de seu hit 'Elegibô' (com o nome 'Peaceful Heart'). Das novas gerações da MPB, a baiana Luedji Luna contribui com 'Mãe Preta', parceria sua com Ravi Ladin. E tem ainda Nabiyah Be, atriz e cantora baiana que esteve no elenco do filme 'Pantera Negra' e é filha do cantor de reggae Jimmy Cliff, e que fez uma parceria com Margareth em 'Querera'. "Eu a conheço desde quando ela era criança, ela me chama de madrinha musical. A letra é uma reflexão", conta.

Gil

Margareth Menezes estava prestes a ser descoberta pelo músico americano David Byrne e a iniciar carreira internacional quando, em 1990, recebeu uma missão daquelas: substituir Gilberto Gil, cujo filho Pedro morrera num acidente de automóvel, no festival Hollywood Rock. Muitos futuros fãs dela a conheceram no palco do festival.

"Eu tinha o mesmo empresário de Gil na época e ele me sugeriu. Minha preocupação maior era com o Gil, mas não dava para entrar negativa no palco. Quando fui cair na real, fiquei em pânico, muda", recorda. "Na época, não havia internet, então muitas pessoas só viram que Gil não iria se apresentar na hora do show. Mas foi positivo, não jogaram nada em mim", brinca. "E ainda fui entrevistada pelo 'Fantástico', e para uma das primeiras reportagens da MTV brasileira".

Mãe

Margareth teve uma enorme perda em 2018: sua mãe, Diva, morreu em setembro do ano passado, em decorrência de falência múltipla dos órgãos após 25 dias de internação. É ela a musa da canção 'Minha Diva, Minha Mãe'. "Eu estava fora do Brasil quando soube. Não achava que ela iria morrer, ela estava hospitalizada e estava reagindo. Quando veio a notícia, foi um enorme sofrimento. Minha mãe era muito amorosa e muito solícita. Ensinou a mim e a meus irmãos um senso enorme de respeito ao próximo", diz.

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Margareth Menezes Divulgação/José de Holanda
Margareth Menezes Divulgação/José de Holanda
Capa do novo disco de Margareth Menezes, 'Autêntica' Divulgação

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