O perigo silencioso da exposição solar que a gente normalizouReprodução/Internet

Olá, meninas!
O verão está aí entre nós e, junto com ele, aquele combo que a gente ama: sol, calor, praia… mas também um alerta importante que muita gente ainda insiste em ignorar. Todo ano é a mesma coisa: o câncer de pele segue avançando de forma silenciosa, mesmo sendo o tipo de câncer mais comum no Brasil.
Pra você ter ideia, ele representa cerca de 30% a 33% de todos os diagnósticos oncológicos do país. Em 2025, o INCA estimou mais de 220 mil novos casos por ano — a maioria do tipo não melanoma, mas com uma parcela que inclui o melanoma, a forma mais agressiva da doença.

E sabe o que é mais preocupante? Mesmo com informação disponível e formas simples de prevenção, muita gente ainda subestima o risco. Parte disso vem dessa nossa cultura que idolatra o bronzeado a qualquer custo.
E, mais recentemente, das redes sociais, onde nem sempre quem fala alto fala certo. Tem muito influenciador confundindo alcance com autoridade científica — e quem paga o preço é a pele da gente.

O oncologista Rodrigo Perez Pereira, líder nacional da especialidade pele da Oncoclínicas, explica isso de forma bem direta: “vivemos em um país de altíssima exposição solar, mas ainda com baixa percepção de risco. O dano provocado pela radiação ultravioleta é cumulativo e silencioso, e sua consequência mais grave é justamente o câncer de pele, totalmente ligado a hábitos que poderiam ser prevenidos”.

Hoje, as redes sociais ditam tendências, inclusive quando o assunto é saúde. No universo da dermatologia, isso virou um terreno perigoso. Circulam muitos conteúdos questionando o uso do protetor solar, especialmente os filtros químicos, como se eles fossem vilões. Esse tipo de informação se espalha rápido e confunde quem só quer se cuidar.

Pra piorar, pesquisas mostram que boa parte da Geração Z ainda acredita em mitos como “bronzeado faz bem” ou “pegar um solzinho antes evita queimadura”. Esse tipo de pensamento abre caminho para comportamentos que aumentam — e muito — o risco de melanoma, inclusive em pessoas jovens.

Aqui no Brasil, então, nem se fala. Vídeos curtinhos exaltando bronzeados intensos, “glow de verão” e até desestimulando o uso de protetor solar viralizam com facilidade.
Sobre isso, o próprio Perez faz um alerta importante: “Quando uma tendência viraliza, ela entra no cotidiano com uma velocidade que a ciência nem sempre consegue acompanhar. A saúde não pode ser guiada por algoritmos. Influência demanda responsabilidade, e informações incorretas podem gerar consequências importantes”.

Nesse cenário entra também a tal da tanorexia, um comportamento que preocupa médicos. É quando a pessoa nunca acha que está bronzeada o suficiente, mesmo com a pele já dando sinais claros de dano. A exposição se repete, o risco aumenta e a percepção do próprio corpo fica distorcida. Tudo isso alimentado por um padrão estético que associa bronzeado a saúde, lazer e bem-estar.

Mas Perez faz questão de lembrar: “O bronzeado passou a ser interpretado como sinônimo de vitalidade, mas essa relação não se sustenta quando analisamos seus efeitos biológicos. O aspecto realmente saudável é o da pele protegida. A vermelhidão ou o escurecimento após a exposição solar indicam lesão celular”.

A boa notícia é que, quando o câncer de pele é descoberto cedo, as chances de cura passam de 90%. O segredo está em observar a própria pele e não adiar a ida ao médico quando algo parece diferente. E atenção: qualquer pessoa pode desenvolver câncer de pele, inclusive pessoas negras. A melanina não imuniza ninguém.

Sobre isso, Perez é categórico: “O mito de que pessoas negras não têm câncer de pele atrasa o diagnóstico e aumenta o risco de casos graves. A doença pode surgir em regiões menos pigmentadas, como palmas das mãos, plantas dos pés e mucosas”.

Na dúvida, vale lembrar da regra do ABCDE, que ajuda a identificar sinais de alerta em pintas e manchas: assimetria, bordas irregulares, cor desigual, diâmetro maior que 6 mm e evolução ao longo do tempo. Feridas que não cicatrizam, doem ou sangram também merecem atenção.

Algumas pessoas precisam redobrar os cuidados: quem tem pele muito clara, sardas, cabelos ruivos, histórico familiar ou pessoal da doença, quem se expôs demais ao sol ao longo da vida (especialmente na infância), pessoas acima dos 65 anos e, claro, quem já usou câmaras de bronzeamento — proibidas no Brasil desde 2009 justamente por aumentarem o risco de melanoma.

No dia a dia, o básico bem-feito faz toda a diferença: protetor solar FPS 30 ou mais todos os dias (mesmo quando o céu está nublado), reaplicação a cada duas horas, evitar sol forte entre 10h e 16h, usar chapéu, óculos, roupas com proteção UV, buscar sombra e beber bastante água. E, claro, observar a própria pele com carinho e fazer consultas regulares com o dermatologista.

No fim das contas, tudo passa por mudar a nossa forma de enxergar a pele. Como o próprio Perez resume tão bem: “O grande desafio no câncer de pele é construir uma percepção real de risco. Ainda tratamos a exposição solar como algo inofensivo, quase cultural, quando na verdade ela carrega consequências que se acumulam ao longo dos anos. Precisamos transformar a forma como o brasileiro enxerga a própria pele: não como algo secundário, mas como um órgão vital que responde diretamente aos nossos hábitos. Quanto mais cedo compreendermos isso, maior será nossa capacidade de reduzir casos avançados e evitar mortes que poderiam ser prevenidas”.

Cuidar da pele não é vaidade. É saúde, é autocuidado e é amor-próprio — todos os dias, faça sol ou não.
Curtiram o conteúdo? Me sigam nas redes sociais (@gardeniacavalcanti) e me acompanhem ao vivo no programa Vem com a Gente, transmitido de segunda a sexta a partir das 13h40, na Band Rio.