A conexão entre cérebro, emoções e a arte de agradecerReprodução/Internet
A neurocientista Daiana Petry explica isso lindamente quando diz que “a literatura dos últimos anos mostra que a gratidão é uma das práticas psicológicas mais consistentes para promover regulação emocional, estabilidade mental e bem-estar sustentado. Direcionar a atenção para experiências positivas, mesmo que discretas, modifica circuitos neurais envolvidos em percepção de valor, motivação e conexão social”. Ou seja: quando a gente treina o olhar para o que é bom — mesmo nas pequenas coisas — o cérebro aprende um novo jeito de funcionar.
Por muito tempo, a gratidão esteve mais associada à filosofia, à espiritualidade e a datas simbólicas, como o Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro. Mas hoje ela também virou assunto sério dentro dos laboratórios. Estudos com ressonância magnética funcional mostram que sentir gratidão ativa áreas específicas do cérebro. A própria Daiana explica que “esses estudos revelam que a experiência da gratidão recruta redes cerebrais específicas”, envolvendo regiões ligadas à percepção de sentido, identidade, vínculos e regulação emocional. Isso deixa claro que não estamos falando só de uma emoção gostosa, mas de algo profundo, que impacta diretamente a saúde mental.
E não é só naquele momento pontual, não. A ciência mostra que práticas simples — como escrever listas ou cartas de gratidão — continuam fazendo efeito semanas depois. Menos estresse, menos ansiedade, menos sensação de isolamento. Tudo isso tem explicação química também: a gratidão estimula dopamina e serotonina, aqueles neurotransmissores que ajudam no equilíbrio emocional, enquanto diminui o cortisol, famoso hormônio do estresse.
Enquanto isso, estados como medo, preocupação excessiva e autocrítica ativam um modo de alerta constante no cérebro. A gratidão faz justamente o movimento oposto. Como explica Daiana, “a gratidão, por sua vez, ativa um circuito antagônico, fortalecendo regiões do córtex pré-frontal envolvidas em tomada de decisão, controle inibitório e organização cognitiva. Com a prática repetida, o cérebro passa a interpretar experiências com mais flexibilidade e menos reatividade, um exemplo concreto de neuroplasticidade aplicada ao cotidiano”. Traduzindo: com o tempo, a gente reage menos no impulso e vive com mais leveza.
E aí entra um detalhe curioso — e poderoso: o olfato. Diferente dos outros sentidos, o cheiro vai direto para áreas do cérebro ligadas à emoção e à memória, sem muitos filtros. Por isso, certos aromas conseguem mudar nosso estado emocional em segundos. Estudos mostram que cheiros como lavanda, sândalo e limão influenciam padrões cerebrais ligados ao relaxamento, foco e atenção — exatamente os mesmos envolvidos na gratidão.
Daiana, que também atua como aromaterapeuta, faz um ponto importante ao dizer que “em termos práticos, a aromaterapia não ‘produz’ gratidão. Mas ela pode facilitar o estado interno necessário para que práticas de gratidão sejam mais acessíveis: maior presença, redução da hiper-reatividade emocional, sensação de segurança e abertura para reconhecer aspectos positivos já presentes na experiência”. É como preparar o terreno emocional para que a gratidão floresça.
No fim das contas, a gratidão não muda o mundo lá fora — mas muda, e muito, a forma como a gente percebe e responde a ele. Em dias tão cheios de estímulos, comparações e instabilidades, cultivar esse olhar mais gentil, aliado a ferramentas sensoriais que ajudam na regulação emocional, pode ser uma das formas mais simples — e sustentáveis — de cuidar da saúde mental a longo prazo.

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