Uma narrativa sobre memória, deslocamento e beleza natural reinterpretadaReprodução
E sabe qual é o cenário dessa vez? O speakeasy. Aquele bar escondido, cheio de mistério, onde as regras sociais ficavam do lado de fora e as pessoas podiam simplesmente ser. É desse encontro de personagens noturnos, de identidades misturadas e convenções quebradas, que a coleção nasce.
Um dos pontos mais fortes vem do universo dos marinheiros. Aqueles homens que cruzavam o oceano atrás de uma vida melhor. E aí entra algo pessoal, íntimo mesmo. Como o próprio Davis explica:
“Isso é algo que tanto Salvatore quanto a minha própria família viveram — ele deixou sua casa na Itália rumo aos Estados Unidos antes de retornar, enquanto minha família se mudou de Trinidad e Jamaica para Manchester”, explica Davis. “Todos cruzaram o oceano em busca de novos começos.”
Não é só sobre uniforme naval, é sobre deslocamento, esperança e recomeço. E esses uniformes aparecem desconstruídos, com botões fora do lugar, fechamentos desfeitos, formas que fogem do óbvio. As malhas náuticas ganham chiffon aplicado por needle punch, parkas utilitárias aparecem em napa texturizada com capuz de shearling… tudo com aquele ar de tradição revisitada.
Ao mesmo tempo, a noite entra em cena com força total. Slip dresses em veludo laminado, jacquard floral, drapeados com volumes dramáticos, casacos que abraçam o corpo como alta-costura. É como se o utilitário encontrasse o glamour depois da meia-noite. E eles convivem, se misturam, exatamente como no speakeasy.
A paleta também tem poesia. Inspirada em obras que retrataram o período — aquarelas quase cubistas, fotografias surrealistas em sépia —, tudo parece levemente tingido pelo tempo. Tecidos passam por tingimento em peça, couros recebem acabamento aerografado. E ele traduz isso lindamente:
“É uma tradução da tentativa de imaginar algo do passado”, explica Davis. “No momento original, tudo teria sido vibrante — mas hoje enxergamos isso através da névoa da história.”
É passado e presente conversando, pontuados pelo hardware Gancini polido, que já virou assinatura.
Nos sapatos femininos, vem um stiletto de bico fino e um slingback com decote profundo, inspirados em uma sapatilha criada por Salvatore Ferragamo em 1954. Tem contraste de cores que lembra uniforme náutico, tem versão com joias, tem sandália com desenho curvo inspirado na técnica “shell sole” dos anos 1950 — aquela em que a sola envolve o pé — com salto híbrido que flerta com a anabela. É arquitetura para os pés.
No masculino, os Oxfords aparecem alongados, com biqueira apron, além de monk com fechamento Hug e botas minimalistas. Clássico, mas com intenção.
E nas bolsas… suspiro. Uma nova silhueta gráfica, fina, elegante, fechada com placa Gancini, surge em três tamanhos. A Hug aparece na proporção East-West com novas cores. Para eles, uma crossbody utilitária cheia de compartimentos e uma pouch Hug em couro calf trançado.
No fim, é uma coleção sobre travessias — físicas e emocionais. Sobre sair de um lugar e se reinventar em outro. Sobre olhar para o passado com carinho, mas vestir o presente com personalidade. E, sinceramente, não tem nada mais atual do que isso.

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