Só este mês, a valorização do ouro gira em torno de 22%Instagram/Reprodução
O recorde é mais uma face da escalada do preço do metal, que apresenta disparada, principalmente nos últimos 12 meses, quando se valorizou em mais de 90%. Esta semana, pela primeira vez, a cotação superou o marco de US$ 5 mil. Só em 2026, a valorização gira em torno de 22%.
Uma das principais regras da economia é a lei da oferta e procura. De forma direta, significa que quanto mais agentes econômicos buscam por um produto — ou ativo, como no caso do ouro — maior o preço negociado. Ou seja, o comportamento da cotação indica que o interesse pelo metal está em alta.
A reportagem conversou com especialistas para entender os motivos que levaram à subida do preço de negociação dos metais no mercado internacional.
Não coincidentemente, a escalada do ouro fica flagrante a partir de janeiro de 2025, mês em que Donald Trump tomou posse como presidente dos Estados Unidos. À época, a onça troy do ouro era vendida a US$ 2,7 mil. De lá para cá, o preço quase dobrou.
Efeito Trump
Ele lembra que o ouro, mais destacadamente, e a prata, são tidos historicamente como reservas de valor. Reserva de valor é um ativo ou mercadoria que preserva o poder de compra ao longo do tempo.
Na visão dele, o principal gatilho para a incerteza global é a política econômica do presidente Donald Trump. “Com as tarifas e o protecionismo quase mercantilista, já é por si só um rompimento com o livre comércio que os EUA sempre defenderam”, avalia.
Sartori acrescenta como elemento gerador de incerteza as “truculências externas”:. “Ameaças a países, até mesmo aos parceiros comerciais, ampliam a desconfiança na figura de Trump.”
Desde que reassumiu a Presidência, Trump tem seguido uma agenda que, sob a alegação de proteger interesses americanos, impõe tarifas a parceiros comerciais, que ficou conhecida como tarifaço.
A professora de economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) Gecilda Esteves acrescenta como fator de turbulência geopolítica a cobiça de Trump pela Groenlândia. O presidente dos EUA tem pressionado e ameaçado a Dinamarca e outros países europeus para obter controle da ilha gelada no Ártico.
“Isso abalou, de fato, a confiança entre os Estados Unidos e a Europa, gerando um receio de novas guerras comerciais na gestão do presidente Trump”, destaca.
Ela acrescenta que o conflito entre Ucrânia e Rússia, que caminha para o sexto ano, também agrava o cenário de turbulência. “O mercado começa a entender que existe um risco geopolítico real e imediato, e o ouro e a prata, obviamente, sobem”, sustenta.
“Os metais podem até ser vistos como investimento, mas aquele tipo de investimento que busca trazer menos volatilidade [forte oscilação] para a carteira. Neste cenário é proteção mesmo”, afirma.
Apesar de figurarem como compradores de ouro ao lado de grandes investidores profissionais, os bancos centrais não são apontados como os responsáveis pela disparada do preço do ouro, na opinião do economista.
“Bancos centrais, inclusive o brasileiro, têm ampliado suas reservas em ouro. Todavia, não considero que seja isso que está fazendo o ouro ‘explodir”, avalia.
Para ele, o movimento é derivado do mercado de investidores, que tem buscado metais para diversificar investimentos e fugir dos riscos da conjuntura atual.
A professora Gecilda Esteves avalia que governos, representados por bancos centrais, têm aumentado o apetite por metais “para diversificar as suas reservas com propósito de reduzir a dependência de moedas fiduciárias [sem lastro, ou seja, garantidas pela confiança]”.
“São ativos que têm valor intrínseco. Não é uma moeda fiduciária, não depende de nenhum governo para garantir sua viabilidade e sua potência econômica”, explica.
“É o porto seguro, uma apólice de seguro contra qualquer colapso de sistema financeiro ou inflacionário”, diz.
Reserva brasileira
Em valores financeiros, o país tinha US$ 11,7 bilhões em ouro em janeiro de 2025, valor que subiu para US$ 23,9 bilhões em dezembro, ou seja, mais do que dobrou. Os valores não levam em conta a inflação do período, calculada em cerca de 4,5%.
A valorização reflete tanto o aumento no número de toneladas quanto na apreciação da cotação do ouro no mercado internacional. Dessa forma, o metal, que respondia por 3,6% das reservas em janeiro de 2025, passou a representar 6,7% dos mais de US$ 358 bilhões que o país tinha em dezembro.
Ao mesmo tempo em que turbulências geopolíticas elevam a procura pelo ouro, a moeda americana, o dólar, passa por uma desconfiança, conforme explica a professora. “O preço do ouro acaba funcionando como um termômetro da saúde do dólar. Quando o ouro sobe, está denunciando que existe desconfiança na moeda americana”, diz.
Para ilustrar a perda de força do dólar, o economista Sartori detalha que quando Trump assumiu em janeiro de 2025, o DXY, indicador que mede o desempenho do dólar perante uma cesta de moedas estrangeiras (real não está incluído), beirava 110 pontos. Atualmente ronda os 96 pontos.
“Parece claro que há alguma desconfiança em relação ao dólar. Acho cedo para pontuar uma desdolarização ou uma perda de hegemonia da moeda, mas de fato, há desconfiança”, avalia.
Aqui no Brasil, a desvalorização foi sentida no mercado de câmbio. Nos últimos 12 meses, o dólar recuou 11%. Só em 2026, a desvalorização está em cerca de 5,5%. Na terça-feira, a moeda fechou negociada a R$ 5,20, menor patamar em 20 meses.
“Por consequência, tem ocorrido alguma diversificação no destino de investimentos para além das moedas. Muitos metais preciosos têm se valorizado recentemente”, explica.
Gecilda Esteves acrescenta ainda que há uma busca de proteção contra uma possível correção (queda) no mercado de capitais, como bolsas de valores, com “a possível bolha de inteligência artificial [IA], que já começou a dar estresses no início deste ano”. Há o receio de que empresas de IA estejam supervalorizadas, na iminência de sofrerem queda abrupta de preço das ações.
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