Zona Sul concentra as taxas de condomínio mais altas da cidadeReginaldo Pimenta / Agência O DIA

A cidade do Rio de Janeiro registrou alta de 16% na taxa média de condomínio nos quatro primeiros meses de 2026, aponta levantamento da Loft, empresa de tecnologia e serviços financeiros para imobiliárias. Especialistas consultados por O DIA explicam a disparada dos preços e apontam os principais fatores que pressionam essa despesa.
Com o aumento, o valor médio mensal da taxa de condomínio na Cidade Maravilhosa chegou a R$ 1.100, mesmo patamar observado em São Paulo. No entanto, o crescimento registrado no período foi quase duas vezes maior no Rio de Janeiro: 16%, ante 9% na capital paulista.
Ainda de acordo com o levantamento, a Zona Sul concentra as taxas de condomínio mais altas da cidade. A Lagoa lidera o ranking, com valor médio de R$ 2.300, seguida por Ipanema (R$ 2.200) e São Conrado (R$ 2.093). Leblon (R$ 2.005) e Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca (R$ 2.000), completam a lista dos bairros com taxa média superior a R$ 2.000.
O advogado Daniel Blanck, especialista no mercado imobiliário carioca, afirma que a aproximação dos valores das taxas de condomínio entre Rio de Janeiro e São Paulo é resultado de uma combinação de fatores econômicos e estruturais.
Daniel Blanck, advogado imobiliário, especialista no mercado imobiliário carioca - Arquivo pessoal
Daniel Blanck, advogado imobiliário, especialista no mercado imobiliário cariocaArquivo pessoal
"O principal motor desse aumento é a pressão sobre os custos operacionais, que pesam fortemente no orçamento dos edifícios. A folha de pagamento dos funcionários, incluindo porteiros, zeladores e equipes de limpeza, representa cerca de 48% a 50% das despesas de um condomínio", afirma.
"Os reajustes salariais e encargos trabalhistas, somados à inflação dos insumos de manutenção (como peças de elevador, materiais de construção e serviços gerais) e ao aumento nas tarifas de energia elétrica e água, impulsionaram as cotas", informa.
Daniel Blanck também pontua que "o perfil imobiliário carioca, especialmente na Zona Sul, caracteriza-se por edifícios com poucas unidades (torres únicas), o que significa que essas despesas crescentes são divididas entre um número menor de moradores, elevando o custo individual".
O dono de imóvel e contador Milton Yuri Paixão, de 33 anos, afirma que o mercado tem se tornado menos atrativo para os proprietários.
Milton Yuri Paixão, proprietário - Arquivo pessoal
Milton Yuri Paixão, proprietárioArquivo pessoal
"O cenário imobiliário hoje, com taxas condominiais cada vez mais elevadas e estruturas exorbitantes que mais parecem resorts, desfavorece a cobrança de um valor considerado justo do ponto de vista do proprietário. Uma possível melhora seria investir em imóveis que não tenham essas taxas, como casas de rua e de vila, por exemplo. Entretanto, o cenário de violência favorece cada vez mais a criação de condomínios e megaestruturas", avalia.
Ele também frisa que já precisou arcar com parte do aumento para não perder o inquilino.
"Já precisei absorver tanto na hora de renovar o contrato quanto em situações de necessidade de uma obra de emergência no prédio, quando foi necessário acrescer uma taxa extra e o inquilino não ficou de acordo. Nesse caso específico, tive que tirar do meu próprio bolso", diz.
"Eu diria que o condomínio alto é o maior inimigo hoje dos proprietários. As taxas estão tão elevadas que, na maioria dos casos, não compensa manter o imóvel alugado como fonte de renda."
A carioca Rafaela Mesquita, de 43 anos, proprietária de dois apartamentos na Tijuca, conta que teme novos reajustes na taxa de condomínio.
Rafaela Mesquita, 43 anos, moradora do Rio de Janeiro - Arquivo pessoal
Rafaela Mesquita, 43 anos, moradora do Rio de JaneiroArquivo pessoal
"Em um primeiro momento, percebi um reajuste alto no valor do aluguel e do IPTU, cobrados juntos pelo QuintoAndar. Só esse aumento, sem considerar o condomínio, já teve um impacto de aproximadamente 10% no meu custo fixo", conta.
Ela destaca que considera mudar de imóvel em razão do custo total.
"Estou considerando essa possibilidade ao final do ano, caso o condomínio tenha um reajuste muito alto, seguido pelo aumento do aluguel no aniversário do contrato. Se o meu custo total aumentar 15%, a conta não fecha. Quem está tendo esse reajuste anual no emprego?", diz.
Rafaela tem dois imóveis próprios e utiliza a renda dos aluguéis para pagar o imóvel onde reside. De acordo com ela, a situação como proprietária também é afetada. 
"Hoje em dia, no Rio, só compensa alugar por temporada. Contratos de longa duração são mais atrativos para diversificar a renda", garante. "É uma segurança para o futuro, mas, ainda assim, hoje há investimentos que rendem mais. Já a locação por curta temporada, não. O problema é que a demanda está em alta, principalmente na Zona Sul e no Centro. E os meus imóveis estão na Zona Norte."
O que mais pesa no valor do condomínio? 
Leandro Souza, administrador e membro da Comissão Especial de Gestão e Administração Profissional de Edificações e Condomínios do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, pontua as principais causas do aumento dos valores dos condomínios.
Leandro Souza, administrador e membro da Comissão Especial Profissional em Edificações do CRA.RJ - Arquivo pessoal
Leandro Souza, administrador e membro da Comissão Especial Profissional em Edificações do CRA.RJArquivo pessoal
"As taxas que mais aumentaram nos últimos meses são aquelas que envolvem os salários dos funcionários, portaria, limpeza e zeladoria, além do consumo coletivo de água, que, em alguns condomínios, triplicou de valor após a entrada da nova distribuidora Águas do Rio, devido ao modelo de cobrança por múltiplas economias e à tarifa mínima multiplicada aplicada pela concessionária."
"Além disso, houve aumento nos custos de manutenção das áreas de lazer, e tudo isso pesa ainda mais nos imóveis maiores", diz.
A proprietária da Veroneze Administradora, Francine Branchi, assegura que as "novas exigências legais" também contribuem para a alta.
Francine Branchi, administradora de condomínios e proprietária da Veroneze Administradora - Arquivo pessoal
Francine Branchi, administradora de condomínios e proprietária da Veroneze AdministradoraArquivo pessoal
"Novas exigências legais e a necessidade de manter o prédio em boas condições também contribuem para o aumento dos custos ao longo do tempo. Claro que podem existir fatores pontuais que elevem as despesas em determinados períodos, mas, de forma geral, os custos dos condomínios tendem a crescer de maneira contínua."
A administradora também explica que a terceirização de serviços pode ser uma alternativa.
"Em muitos casos, a terceirização pode parecer mais cara em um primeiro momento, quando comparada apenas ao custo mensal de um funcionário próprio. Porém, quando analisamos o cenário no médio e longo prazo, ela tende a ser mais vantajosa, pois reduz a exposição a passivos trabalhistas, custos com rescisões, afastamentos, férias, substituições e demais obrigações relacionadas à gestão de pessoal", ressalta.
"Além da questão financeira, a terceirização também traz ganhos operacionais, já que a empresa contratada é responsável por cobrir faltas, férias e afastamentos, reduzindo a carga administrativa e os riscos para o condomínio."
A síndica profissional dos condomínios Portofino (Leblon), Umuarama (Laranjeiras), Triunfo (Laranjeiras), Limoeiro (Laranjeiras), Georges Seurat (Humaitá) e Resedá (Lagoa), Sangela Mendes, destaca os maiores desafios na administração dos condomínios.
Sangela Mendes, síndica profissional - Arquivo pessoal
Sangela Mendes, síndica profissionalArquivo pessoal
"O maior desafio hoje é equilibrar qualidade de serviço e controle de custos. Muitos condomínios estão buscando reduzir despesas com mão de obra, principalmente por meio da terceirização, que, além de gerar economia, costuma trazer mais profissionalismo e eficiência operacional", pontua.
"Cortar custos é o mais difícil. O síndico precisa buscar eficiência constantemente, mas muitos gastos são inevitáveis. Em vários casos, o desafio não é apenas economizar, mas conseguir manter a qualidade dos serviços essenciais sem comprometer a saúde financeira do condomínio."
A segurança urbana também é um fator que influencia os preços. O corretor de imóveis e CEO da VG Imobiliária, João Gitahy, assegura que esse custo pesa no orçamento.
João Gitahy, CEO da VG  IMOBILIÁRIA, Corretor de imóveis e Perito Judicial Avaliador imobiliário - Arquivo pessoal
João Gitahy, CEO da VG IMOBILIÁRIA, Corretor de imóveis e Perito Judicial Avaliador imobiliárioArquivo pessoal
"O custo com empresas terceirizadas para a contratação de mão de obra especializada, como seguranças e porteiros, encarece muito os condomínios. Em alguns empreendimentos, a segurança já é um dos maiores itens da previsão orçamentária anual. A falta de segurança pública gera a necessidade de investimento em segurança privada, que é bem cara."
Marcos Lopes, de 47 anos, mora de aluguel há quase 20 anos e conta que os aumentos recentes afetaram seu planejamento financeiro.
"O aumento dos valores de condomínio afetou meu planejamento financeiro, aumentando minhas despesas mensais e, consequentemente, a necessidade de ajustes no orçamento para manter o equilíbrio das contas. Esse fato ocorreu nos últimos meses e representou um aumento expressivo em relação ao valor que eu pagava anteriormente."
Inadimplência dos condôminos
A inadimplência dos condôminos tem impacto direto na taxa mensal, frisa a diretora e sócia da VTX Administradora, Ana Beatriz Correa.
Ana Beatriz Correa, diretora e sócia da VTX Administradora - Arquivo pessoal
Ana Beatriz Correa, diretora e sócia da VTX AdministradoraArquivo pessoal
"A inadimplência diminui a receita necessária para o pagamento das despesas ordinárias (mensais) do condomínio. Quando o índice de inadimplência aumenta e persiste, pode ser necessário utilizar fundos de reserva, adiar investimentos ou até aprovar medidas para recompor o equilíbrio financeiro", diz.