Nome limpo, contas em dia e, mesmo assim, não conseguir acesso ao crédito. A situação é comum e pode ocorrer com quem tem um score considerado baixo pelas instituições financeiras. O DIA conversou com especialistas para entender como esse cálculo é feito, o que pode aumentar ou reduzir a pontuação e quais são os caminhos para o consumidor melhorar a avaliação.
A advogada especialista em Direito do Consumidor Angélica Sousa Fraga explica o que é o score de crédito e qual é a sua função.
Angélica Sousa Fraga, advogada especialista em Direito do ConsumidorArquivo pessoal
"O score de crédito é uma pontuação produzida por modelos estatísticos para estimar o risco de concessão de crédito. Em termos simples, ele procura indicar a probabilidade de o consumidor cumprir compromissos financeiros futuros a partir de informações relevantes do seu histórico e comportamento de crédito", afirma.
A especialista indica que a pontuação não "mede caráter, patrimônio ou honestidade financeira, mas é uma fotografia probabilística de risco, sujeita a alterações e à metodologia de cada gestor ou instituição".
Angélica Fraga também reforça que ter o "nome limpo" não necessariamente leva a um bom score.
"Uma pessoa pode não ter dívidas negativadas e, ainda assim, apresentar pontuação baixa ou intermediária por possuir pouco histórico de crédito, ter assumido obrigações recentes, apresentar elevado comprometimento financeiro, realizar muitas solicitações de crédito em curto período ou ainda não ter acumulado histórico positivo suficiente. A ausência de negativação é importante, mas não equivale automaticamente a um bom perfil de risco."
O criador de conteúdo digital Gusttavo Losi, de 29 anos, descobriu que seu pedido de financiamento foi negado por conta do score quando tentou financiar um apartamento em março deste ano.
Criador de conteúdo digital Gusttavo Losi, de 26 anosArquivo pessoal
"Na minha cabeça, eu estava com o nome limpo, mas, quando saiu a análise do CPF pela segunda vez, apareceu uma dívida de cartão de crédito com o banco, justamente onde eu tinha tentado o financiamento na primeira vez. Era uma dívida de 2016, de quando eu tinha 19 anos. Minha pontuação estava em 395", conta Gusttavo.
"Depois da negativa, parcelei a dívida e estou pagando agora, para quitar e tentar aumentar um pouco a pontuação. Também estou usando o cartão de crédito para ir melhorando o score conforme pago as faturas em dia. Às vezes, quando posso, até antecipo algum valor das parcelas", explica.
O Procon-RJ, Autarquia de Proteção e Defesa do Consumidor do Estado do Rio de Janeiro, informa, por meio de nota oficial, que o consumidor tem direito de ter acesso aos dados considerados na avaliação.
"A utilização do score é considerada lícita pela legislação brasileira e possui respaldo na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. O consumidor tem o direito de obter informações sobre os dados pessoais considerados na avaliação e sobre as fontes utilizadas para compor a pontuação. Contudo, não há obrigação de divulgação da fórmula matemática ou do algoritmo empregado no cálculo. Mas é proibida a utilização de informações excessivas, desnecessárias ou sem relação com a análise do risco de crédito", destaca em nota.
"Quando o crédito é negado, o consumidor pode solicitar informações sobre os dados considerados na análise. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais garante ao titular o direito de obter informações claras sobre os critérios e procedimentos utilizados em decisões automatizadas que afetem seus interesses. Além disso, a legislação assegura a possibilidade de requerer a revisão dessas decisões."
Principais fatores que afetam o score
De acordo com a advogada especialista em Direito do Consumidor Angélica Sousa Fraga, os principais fatores que afetam a pontuação do score são:
- Histórico de pagamentos;
- Existência de dívidas e pendências;
- Tempo e experiência no mercado de crédito;
- Contratos de empréstimos e financiamentos;
- Frequência de solicitações ou consultas relacionadas a crédito;
- Consistência das informações cadastrais.
No entanto, a especialista afirma que cada gestor possui uma metodologia própria.
"Como exemplo prático, e não como regra universal, a Serasa informa, em seu modelo atual, pesos distribuídos entre pagamentos do Cadastro Positivo, experiência no mercado, dívidas, busca por crédito, informações cadastrais e contratos de empréstimos/financiamentos. A Lei nº 12.414/2011 proíbe o uso, na composição da pontuação, de informações sem vínculo com a análise de risco e de dados sensíveis ou discriminatórios", frisa.
Para melhorar a pontuação, a especialista indica que as mudanças mais importantes são comportamentais e de médio prazo, como:
- Pagar as obrigações em dia;
- Regularizar pendências;
- Evitar assumir crédito além da capacidade de pagamento;
- Reduzir o endividamento excessivo;
- Manter os dados cadastrais corretos e construir um histórico financeiro estável.
"Também é prudente evitar uma sequência de pedidos de crédito sem necessidade, porque esse comportamento pode ser interpretado pelos modelos como aumento de risco", avisa Angélica.
"O ponto mais importante é desconfiar de promessas de 'aumento garantido de score' mediante pagamento. Não existe fórmula legal ou serviço capaz de assegurar determinada pontuação. Score é resultado de modelo estatístico e de dados efetivamente disponíveis", alerta a especialista.
Quanto tempo leva para a mudança no score?
Após o pagamento de todas as dívidas, não existe um prazo único para o score aumentar, explica Wesley Brandão, especialista da Serasa em educação financeira.
"A pontuação é dinâmica e pode ser recalculada sempre que novas informações financeiras são registradas. A quitação de uma dívida e a manutenção dos pagamentos em dia podem contribuir para a melhora, mas o resultado depende de todo o histórico e dos demais fatores considerados no cálculo", diz o especialista.
Segundo ele, é importante diferenciar a retirada da negativação da atualização do Score.
"Após o pagamento da dívida ou da primeira parcela de um acordo, a empresa credora tem até cinco dias úteis para solicitar a retirada da negativação. Isso, porém, não significa que a pontuação necessariamente aumentará no mesmo prazo. Em acordos elegíveis pagos via Pix pelo Serasa Limpa Nome, o score poderá subir na hora, de acordo com as condições da empresa credora", conclui.
Consultar o CPF pode reduzir a pontuação?
O especialista Wesley Brandão afirma que consultar o CPF não reduz a pontuação automaticamente.
"O consumidor pode consultar gratuitamente o próprio CPF e o Serasa Score quantas vezes quiser, pelo site ou aplicativo da Serasa, sem qualquer impacto negativo na pontuação", destaca.
No entanto, Brandão alerta para certos tipos de consulta. "O que pode influenciar o score são as consultas realizadas por empresas durante processos de análise e concessão de crédito. Além disso, um volume elevado de consultas em um curto período pode indicar uma busca intensa por crédito e, por isso, influenciar temporariamente a pontuação."
Não existe, porém, segundo o especialista, um número único de consultas que provoque a queda: "O impacto depende do conjunto de informações de cada consumidor."
Principais mitos
Achar que existe uma fórmula secreta ou algum "truque" para ter um score melhor, informa o especialista Ricardo Hiraki Maila, administrador e pós-graduado em gestão financeira pela FGV, é um dos principais mitos sobre o tema.
Ricardo Hiraki Maila, administrador e pós-graduado em gestão financeira pela FGVArquivo pessoal
"O mito mais persistente é achar que existe uma fórmula secreta ou um 'truque' para disparar o score da noite para o dia, ou que nome limpo garante score alto automaticamente. Na realidade, o score reflete consistência de comportamento ao longo do tempo, e nenhuma ação isolada, nem mesmo quitar uma dívida grande, produz salto imediato para as faixas mais altas sem histórico sustentado por trás", conta.
A advogada especialista Angélica Sousa Fraga também chama atenção para golpes. "É falso que alguém possa vender pontos ou garantir aumento de score. O consumidor deve tratar o score como um termômetro de risco, não como certificado de aprovação de crédito. Crédito responsável depende do conjunto da vida financeira, e não de uma única nota."
É possível recorrer
Se o consumidor discordar do score, tiver um crédito negado ou não entender o motivo da pontuação, há medidas que podem ser tomadas, afirma Wesley Brandão, especialista da Serasa.
"O primeiro passo é acessar o site ou aplicativo da Serasa para conferir a pontuação, o histórico de alterações e os fatores que estão influenciando o resultado. Caso identifique alguma informação incorreta, como uma dívida já paga ou um pagamento registrado de forma equivocada no Cadastro Positivo, deve solicitar a correção à empresa responsável pelo envio dos dados ou utilizar os canais de atendimento da Serasa", avisa.
"Se a dúvida for sobre uma negativa de crédito, o consumidor deve procurar diretamente a instituição que analisou o pedido, pois a decisão e os critérios utilizados são de responsabilidade dela. A Serasa fornece informações que podem apoiar a análise, mas não aprova nem recusa empréstimos, financiamentos ou cartões", finaliza o especialista.
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