Cleitinho protagonizou 'novela' sobre definição da candidatura ao governo de MinasReprodução

Os eleitores de Minas Gerais relevaram os meses de indecisão do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e sacramentaram neste domingo (4), sua eleição em primeiro turno para o governo do Estado. Cleitinho liderou a apuração de ponta a ponta e garantiu 55% dos votos válidos, ante 26% do deputado federal Patrus Ananias (PT).

Esta foi a quarta eleição disputada pelo governador eleito. Nascido em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais, Cleitinho estudou até o ensino fundamental. Antes de entrar para a política, era vendedor no sacolão de verduras da família e músico em uma banda de pagode.

Sua carreira política começou em 2016, quando elegeu-se vereador na cidade natal. Com 3 mil votos, foi o terceiro parlamentar mais votado daquele pleito no município. Segundo a biografia da Câmara Municipal, a ideia de disputar uma eleição surgiu após o irmão gêmeo, Gleidson Azevedo, perceber a popularidade que Cleitinho tinha com vídeos publicados para divulgar suas músicas.

Dois anos depois, elegeu-se deputado estadual com o apoio de 115 mil eleitores. Já em 2022, concorreu ao Senado e obteve 4,2 milhões de votos, o que lhe garantiu o melhor desempenho entre os senadores eleitos em Minas naquele mesmo ano. Seu mandato no Senado vai até 2031, mas, como foi eleito, terá que renunciar à cadeira.

As campanhas de Cleitinho, tanto para deputado estadual quanto para o Senado, foram feitas por meio da internet e da divulgação de vídeos e áudios nas redes sociais. Além disso, no campo da ciência política, ele é visto como um típico "outsider", figura que disputa eleições ou chega ao poder à margem do sistema político tradicional, sem compromissos ou fidelidades ideológicas rígidas.

Essa condição lhe dá liberdade para aderir pragmaticamente a pautas de forte apelo popular, como a defesa da escala 6x1, mais associada à esquerda. Em discursos no Senado, ele já alegou que determinados projetos não devem ser divididos entre esquerda e direita.

Com a vitória, cientistas políticos ouvidos pela reportagem afirmam que a futura gestão do republicano ainda é uma incógnita. Segundo os especialistas, além de Cleitinho não ter apresentado "propostas concretas", ele não tem experiência administrativa. Com isso, o estado, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, está diante de um cenário ainda imprevisível.

Lucas Gelape, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que a ausência de um plano de governo estruturado já era uma questão para parte do eleitorado. "Ninguém consegue extrair essa resposta do Cleitinho, que é justamente, ninguém sabe como ele irá governar", disse.

"Quem vai governar com ele é uma outra grande pergunta. Quando Cleitinho era questionado sobre seus aliados, ele sempre respondia que o 'meu CPF é o meu e o CPF deles é deles'. Porém, temos que lembrar que você não governa um estado somente com o seu CPF. Então, o que ele irá fazer com isso, ninguém sabe", afirma Gelape.

O cientista político Carlos Ranulfo também aponta dificuldades para projetar a gestão do republicano e classifica o governo como "um tiro no escuro com grandes possibilidades de dar errado". "É um governo com possibilidade de ser muito ruim, atrapalhado e uma confusão danada. Não há uma indicação correta sobre como será. O Cleitinho não falou absolutamente nada em relação a propostas. Minas já está numa situação complicada. Uma crise enorme e aí ganha a eleição uma pessoa que passou a campanha sem falar nada", comenta.

'Novela' sobre candidatura

Cleitinho protagonizou uma "novela" sobre a confirmação da sua candidatura ao governo, que chegou a ficar em suspenso por um longo período. Em abril, ele disse ao portal G1 que não havia definição sobre o tema. No mês seguinte, selou apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, sem, no entanto, confirmar se seria candidato ao governo ou se apoiaria outro nome para o cargo.

Em julho, a hesitação misturou-se a um luto familiar. Matheus Azevedo, irmão mais novo de Cleitinho, morreu aos 30 anos, em razão de complicações de uma leucemia. No dia 25 daquele mês, o Republicanos realizou sua convenção estadual em Minas. Cleitinho não foi ao evento, aumentando os rumores de que deixaria a disputa. Quatro dias depois, o partido divulgou uma nota criticando a hesitação do senador e negando-lhe a candidatura.

O senador respondeu mantendo sua pré-candidatura. Em 3 de agosto, voltou atrás e anunciou que desistiria, mas, no dia 7, mudou novamente de posição e confirmou que seria candidato.

A indefinição de meses não foi refletida pelas pesquisas de intenção de voto. Durante todo o período em que manteve a pré-candidatura em aberto, Cleitinho seguiu líder de levantamentos de diferentes institutos, como Quaest, Datafolha, Paraná Pesquisas e Real Time Big Data.

A hesitação do senador desmontou articulações à direita. O PL sondou Nikolas Ferreira para a disputa, mas o deputado federal declinou. Uma aliança com o governador Mateus Simões (PSD) foi cogitada, mas não foi adiante. O PL acabou por anunciar a candidatura do empresário Flávio Roscoe às vésperas do fim do prazo legal.