Mario Pineida disputou 24 jogos pelo Fluminense deu uma assistênciaDivulgação / Fluminense FC

Rio - O assassinato de Mario Pineida na última quarta-feira (17) chocou o mundo. O lateral-esquerdo, de 33 anos, foi mais uma vítima da violência que assombra o Equador nos últimos anos. O jogador, que defendeu o Fluminense em 2022, atuava pelo Barcelona de Guayaquil, o time mais popular do país, e foi o quinto atleta assassinado desde setembro.
Mas o que tem motivado os crimes contra os jogadores? Para entender o que está acontecendo no Equador, O DIA entrou em contato com jornalistas equatorianos. Em contato com a reportagem, Ricardo Vasconcellos Figueroa, ex-editor de esportes do jornal El Universo, de Guayaquil, e atualmente no Primicias, de Quito, contextualizou a violência no país.
"O Equador é, há muito tempo, um narcoestado, com todas as consequências negativas que essa infeliz condição acarreta. Desde janeiro de 2024, o país vive sob um regime de "conflito armado interno", declarado pelo governo de Daniel Noboa para intensificar o combate ao crime organizado, cujas atividades atingiram níveis de terrorismo", disse o jornalista.

Crise política e de segurança

Eleito presidente do Equador em 2023, Daniel Noboa intensificou o combate ao crime organizado a partir de janeiro de 2024. O "conflito armado interno" citado pelo jornalista ocorreu após o ataque com reféns, feito por criminosos fortemente armados, nas instalações do canal "TC Televisión". Para piorar, toda a ação foi transmitida ao vivo.
Apesar dos esforços de Daniel Noboa tentar combater o crime organizado, a violência no Equador só tem aumentado. Em 2025, o país encerrará o ano com a pior taxa de homicídios da América Latina, com 52 por cada 100 mil habitantes, segundo o Observatório Equatoriano do Crime Organizado. Em comparação com o Brasil, por exemplo, a taxa em 2025 é de 21,2 por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência.
"A declaração feita pelo atual governo não produziram resultados favoráveis na prática. A violência não foi contida e as taxas de mortalidade são tão altas quanto o número de assassinatos, sequestros, atentados a carros-bomba, assassinatos de promotores e outros crimes, que são comuns, ocorrendo à luz do dia, em qualquer lugar, e cometidos descaradamente e sem vergonha. As forças de segurança estão perdendo a guerra contra os narcotraficantes", afirmou Ricardo.
Pineida levanta as mãos momentos antes de receber vários tiros à queima-roupa em açougue em Guayaquil - Reprodução de vídeo
Pineida levanta as mãos momentos antes de receber vários tiros à queima-roupa em açougue em GuayaquilReprodução de vídeo

Pineida e mais quatro foram assassinados

Em meio a esse contexto, o futebol não escapou da violência do país. Com o sucesso das casas de apostas, o esporte virou um risco. Afinal, o crime organizado viu a oportunidade de arrecadar ainda mais dinheiro com as apostas esportivas. Desde setembro, cinco jogadores foram assassinados. Não há, até hoje, uma resposta sobre os crimes, o que aumenta as teorias, principalmente sobre o envolvimento com apostas.
"Até hoje, as agências de investigação não estabeleceram nenhum motivo. No entanto, existem conjunturas que ligam esses casos fatais ao crescimento das casas de apostas no Equador. O crime organizado pode ter visto uma oportunidade de lucrar. Não estou dizendo que essa seja a razão para o trágico assassinato de Mario Pineida, que chocou o país pela forma como aconteceu e por ele fazer parte do clube mais popular do país. Mas a falta de clareza em torno dos assassinatos anteriores levou ao desenvolvimento de teorias", explicou.
Dos cinco jogadores assassinados nos últimos meses, Pineida era o nome mais conhecido. O lateral, aliás, chegou a atuar no Fluminense em 2022 e foi campeão carioca. Além dele, também foram mortos Maicol Valencia e Leandro Yépez, do Exapromo, da segunda divisão equatoriana; Jonathan González, do 22 de Julio, também da segunda divisão; e Miguel Nazareno, de 17 anos, que atuava na base do Independiente Del Valle.
"Pineida foi vítima talvez por ter rejeitado uma tentativa de extorsão ou por se recusar a participar de algum tipo de crime relacionado a jogos de azar. Aqui, as gangues se especializaram em extorquir empresários de pequenas, médias e grandes empresas; pessoas ricas e pobres; figuras públicas e privadas; e também jogadores de futebol. Essa exigência de dinheiro, sob ameaça, é chamada de "dinheiro de proteção". Talvez o crime organizado tenha tentado pegar o Pineida e, quando ele se recusou, o assassinaram", completou.
Além dos cinco jogadores assassinados, houve ainda outras tentativas sem sucesso. Entre os principais nomes que foram alvos do crime organizado equatoriano nos últimos meses está Bryan Angulo. O caso ocorreu em novembro. O jogador já atuou pelo Santos no Brasil e teve passagem por clubes do futebol mexicano como Cruz Azul e Tijuana. No Equador, se destacou pelo Emelec. Ele escapou da morte e sofreu apenas ferimentos.

O que diz a polícia?

Dois dias após o assassinato de Mario Pineida, a polícia de Guayaquil prendeu dois suspeitos pela morte do jogador. Segundo a polícia, uma operação descobriu a rota de fuga dos criminosos e ambos foram presos de forma preventiva por 30 dias. Também foram apreendidos três celulares, duas motos, peças de roupa e uma sacola de entregas. Ainda não há respostas sobre a motivação do crime e nem muita esperança sobre isso.
"Em nenhum caso (anterior ao Pineida) a Polícia Nacional conseguiu estabelecer qualquer motivação até o momento, e os autores dos assassinatos continuam livres e provavelmente assim permanecerão. A justiça raramente é feita aqui, e esses casos raramente são solucionados. O que é certo é que, com o crescimento das apostas esportivas no Equador, os jogadores de futebol se tornaram alvos do crime organizado", finalizou o jornalista.