Rio - Ao longo de décadas, a Fifa sustentou o discurso de que futebol e política não devem se misturar. No entanto, a própria história das Copas do Mundo demonstra justamente o contrário: o maior torneio esportivo do planeta sempre refletiu as tensões, disputas ideológicas e interesses geopolíticos. Em 2026, o anfitrião Estados Unidos escreve mais um capítulo dessa relação complexa entre esporte e política.
A Copa do Mundo de 2026, sediada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, apresenta uma situação complexa: um dos países anfitriões vive um período de grande tensão diplomática e militar com uma seleção participante do torneio. A carga diplomática entre os norte-americanos e o Irã deixa a Fifa em situação delicada, tendo que preservar o futebol e lidar com questões de segurança.
Antes da Copa do Mundo de 2026 começar, o Irã enfrentou dificuldades relacionadas a vistos e logística. Os iranianos precisaram estabelecer sua base de preparação no México, já que o visto americano não permite pernoites nos Estados Unidos. Portanto, a delegação iraniana precisará voltar ao México após cada jogo. Ao DIA, a professora de Relações Internacionais do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Fernanda Medeiros, argumentou que a medida coloca a legitimidade do evento em questão.
"Nunca se viu um país ter que entrar e sair do país sede em todos os dias de jogo, colocando-o em clara desvantagem física e psicológica. Nem durante a Guerra Fria se viu algo do tipo (em que pese que União Soviética e Estados Unidos nunca foram grandes poderes no futebol, e que boicotaram as Olimpíadas organizadas por seu adversário). O fato de ter sido permitido isso aos americanos coloca todo o evento sob dúvida. Para a relação bilateral, é mais um obstáculo nas negociações de paz", disse.
Destaque da seleção iraniana, Mehdi Taremi dá autógrafo para fãs no MéxicoGuillermo Arias / AFP
A Copa do Mundo na ditadura
Desde sua criação em 1930, a Copa do Mundo sempre ultrapassou a esfera esportiva. Governos perceberam rapidamente o potencial do torneio como ferramenta de projeção internacional e fortalecimento de narrativas políticas. A edição de 1934, realizada na Itália, tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos. Sob o regime fascista de Benito Mussolini, o Mundial foi utilizado como instrumento de propaganda política, reforçando a imagem de força e organização do governo italiano.
Em 1978, a Argentina sediou a Copa do Mundo enquanto vivia sob uma ditadura militar. O governo utilizou o sucesso da seleção campeã como ferramenta para fortalecer sentimento nacionalista em meio às denúncias de violações de direitos humanos. A edição é considerada uma das mais controversas da história e foi marcada por suspeitas de manipulação esportiva.
A maior polêmica esportiva daquela Copa ocorreu na segunda fase. O Brasil havia vencido a Polônia por 3 a 1 e assumido a liderança do grupo. Para chegar à final, a Argentina precisava derrotar o Peru por pelo menos quatro gols de diferença. Os argentinos venceram por 6 a 0. O resultado gerou suspeitas imediatas de favorecimento político ou manipulação.
Já em 1986, apenas quatro anos após a Guerra das Malvinas, Argentina e Inglaterra protagonizaram uma das partidas mais carregadas politicamente da história. Os dois gols de Diego Maradona — incluindo a famosa "Mão de Deus" — ganharam dimensões que ultrapassaram o futebol e foram interpretados por muitos argentinos como uma espécie de revanche simbólica.
Maradona fez dois gols contra a Inglaterra na Copa de 1986AFP
A ditadura do Brasil na Copa
No Brasil, a ditadura militar também aproveitou para se promover com a Copa do Mundo. O tricampeonato conquistado pela Seleção na Copa de 1970, no México, ocorreu justamente durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, considerado o período mais repressivo do regime. Na época, o governo militar aproveitou o entusiasmo popular e associou a conquista ao discurso de unidade nacional, patriotismo e fortalecimento da imagem do país.
Slogans como "Pra Frente Brasil" tornaram-se símbolos dessa estratégia de propaganda, que buscava utilizar o sucesso esportivo para ampliar a legitimidade do regime em meio ao endurecimento da censura, à perseguição política e às denúncias de violações dos direitos humanos. O regime militar chegou ao fim no Brasil apenas em 1985. Na época, jogadores como Sócrates tiveram papel importante em campanhas pró-democracia.
Pelé comemora gol pela seleção brasileira com Jairzinho, na Copa do Mundo de 1970Arquivo da Fifa
Rivalidade entre Estados Unidos e Irã
A rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e Irã combina interesses estratégicos no Oriente Médio, divergências ideológicas, questões de segurança internacional e disputas pela influência regional. Em 2026, a relação atingiu um dos momentos mais delicados das últimas décadas, com confrontos militares e ataques mútuos ampliando o temor de uma escalada regional no Oriente Médio.
Poucos confrontos em Copas carregam tanta carga diplomática quanto Estados Unidos e Irã. Em 1998, na França, as seleções se enfrentaram em um dos jogos mais politicamente sensíveis da história do torneio. Após décadas de hostilidade entre os dois países desde a Revolução Iraniana de 1979, o protocolo da Fifa precisou ser adaptado para acomodar questões diplomáticas.
Antes da partida, os jogadores iranianos ofereceram flores brancas aos atletas norte-americanos, gesto interpretado mundialmente como uma mensagem de paz. Dentro de campo, o Irã venceu por 2 a 1 em uma partida que ficou conhecida como "o jogo mais político da Copa". Em 2022, no Catar, os países voltaram a se enfrentar em meio aos protestos internos no Irã e às tensões envolvendo direitos humanos e liberdade de expressão. A partida novamente atraiu atenção muito além do aspecto esportivo.
Conflitos diplomáticos desafiam neutralidade da Fifa
Ao longo de sua história, a Fifa adotou uma postura oficial de neutralidade política em suas competições, defendendo a ideia de que o futebol deve ser um instrumento de união entre povos e culturas diferentes. Porém, as últimas edições das Copas do Mundo tem desafiado a postura de neutralidade da entidade. Em algumas situações, precisou mediar questões envolvendo a segurança de delegações, a participação de países em grupos específicos e até restrições de deslocamento impostas por governos.
Embora a Fifa busque preservar o futebol como um espaço de integração e respeito mútuo, o esporte está inserido em um cenário internacional marcado por disputas políticas. Fernanda Medeiros explica que apesar da vasta literatura explorando a influência da política em Copas, a entidade máxima do futebol evita dar ares políticos ao seu principal evento, o que os torna esvaziados de manifestações ou mensagens de protestos, e faz com que a competição seja, inclusive, "levemente alienada".
"Em 2018 na Rússia, em 2022 no Catar e em 2026 nos Estados Unidos-Canadá-México, optou-se por fazer vistas grossas à situação política regional e individual desses países. O futebol realmente é capaz de unir as nações, mas não gera muitas repercussões positivas para as relações políticas entre os Estados", finalizou.
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