Ramirez, Muñoz e Josmar estão à disposição do técnico Bruno PivettiGilvan de Souza / Flamengo

Há uma pergunta que ronda a alma dos rubro-negros, dessas que não cabem apenas na estatística: por que o Flamengo, celeiro de tantos artistas da bola, já não revela em casa os craques que um dia pareciam brotar naturalmente?

Talvez seja preciso começar pela mea-culpa. Nós, torcedores, também temos parte nessa história. A nossa fome de títulos, legítima e quase ancestral, transformou-se, algumas vezes, numa espécie de tribunal permanente. O menino que sobe da base já não entra em campo apenas para aprender. Entra para resolver. Precisa driblar como Garrincha, pensar como Zico e decidir como se carregasse nas costas a história inteira do clube.
É uma cobrança desumana para quem ainda está aprendendo a caminhar no futebol profissional.

O jovem que veste a camisa do Flamengo pela primeira vez encontra um estádio cheio, uma torcida apaixonada e uma expectativa que parece maior que o próprio Maracanã. Um erro de passe pode virar sentença. Uma partida ruim pode transformar promessa em dúvida. E, assim, aquilo que deveria ser o começo de uma história vira, não raro, o início de uma perseguição.
Craque não nasce pronto. Craque se faz no tempo, no erro, na confiança, na repetição. O menino precisa ter direito ao jogo ruim, ao passe errado, à noite apagada. Precisa sentir que continuará sendo jogador amanhã, mesmo que hoje tenha sido apenas um garoto assustado diante de milhares de vozes.

O Flamengo, historicamente, sempre teve matéria-prima. O problema talvez esteja menos na fábrica e mais na maneira como tratamos aquilo que ela produz.

Em outros tempos, a torcida tinha paciência para esperar a fruta amadurecer. Hoje, queremos o suco imediatamente. Queremos títulos, taças, vitórias e craques — todos ao mesmo tempo. E esquecemos que o talento também precisa de silêncio para florescer.

Não se trata de aliviar a responsabilidade de quem veste o Manto. O Flamengo exige excelência. Mas excelência não é sinônimo de perfeição imediata. É resultado de um processo.

Se quisermos voltar a revelar craques em casa, talvez seja necessário mudar também o olhar. Dar aos nossos crias o direito de serem meninos antes de exigir que sejam ídolos.

Porque nenhum Zico nasceu pronto. Todo craque, antes de encantar uma multidão, precisou de alguém que acreditasse nele quando ainda era apenas promessa.

Talvez o próximo grande craque do Flamengo já esteja em casa. Só precisamos ter a sabedoria de deixá-lo crescer.