Arrascaeta comemora gol contra o CruzeiroAndré Durão
Contratado pelo Flamengo em janeiro de 2019, o uruguaio rapidamente deixou de ser apenas um meia talentoso para transformar-se em personagem central da história recente do clube. São anos de títulos, gols, assistências e noites em que o futebol parece ter recebido uma pequena ajuda dos deuses. O próprio Flamengo reconhece a dimensão de sua trajetória, hoje colocada entre as maiores da história rubro-negra.
E justamente por isso a questão nunca foi simplesmente encontrar um jogador para ocupar a posição.
O problema sempre foi encontrar alguém capaz de ocupar o espaço que Arrascaeta deixa na alma do jogo.
É coisa diferente.
Quando o uruguaio não joga, não desaparece apenas uma camisa da escalação. Desaparece um intérprete. Um homem capaz de receber entre as linhas, enxergar o que os outros ainda não enxergaram e colocar a bola onde, até um segundo antes, parecia não existir caminho.
O Flamengo tentou conviver com essas ausências de diversas maneiras.
Em determinadas ocasiões, improvisou. Em outras, modificou o desenho do meio-campo. Houve quem assumisse a função por alguns jogos, quem aparecesse como promessa de solução e quem, depois de algumas partidas, acabasse devolvido à sua posição de origem.
E não se trata de uma impressão passageira.
Um levantamento publicado em 2023 mostrou que, desde a chegada de Arrascaeta, o Flamengo começou mais da metade dos jogos de Série A sem o uruguaio. Das 181 partidas analisadas, ele esteve ausente em 93 delas.
Ou seja: a pergunta nunca foi hipotética.
Era — e continua sendo — uma questão de engenharia rubro-negra.
Porque o calendário brasileiro não costuma oferecer gentilezas. Quando o meia precisa descansar, há Brasileirão. Quando o jogador é convocado, aparece Libertadores. Quando vem uma lesão, surge uma decisão.
E o futebol, esse velho sujeito sem misericórdia, não aceita atestado.
Durante muito tempo, o Flamengo pareceu procurar fora aquilo que talvez estivesse escondido dentro do próprio elenco. E a procura chegou a tal ponto que, em 2026, a necessidade de encontrar um meia com características semelhantes às de Arrascaeta voltou a ser discutida publicamente.
A princípio, a solução parecia não estar pronta.
Lucas Paquetá é uma alternativa de enorme qualidade. Prefere atuar como segundo volante, participando da construção desde trás, mas possui recursos para avançar e exercer muito bem a função de meia-atacante. É jogador de pulmão largo e futebol versátil, daqueles que parecem ter sido fabricados com duas caixas de ferramentas.
Samuel Lino também já desempenhou esse papel. Antes do retorno de outro personagem desta história, Lino foi utilizado mais por dentro e mostrou que pode oferecer mobilidade, intensidade e capacidade de chegada ao ataque. Contra o Cruzeiro, inclusive, foi dele o gol que selou a vitória rubro-negra no Maracanã pelas oitavas da Libertadores.
Mas havia um terceiro nome.
Um nome que, até pouco tempo atrás, ainda parecia estar procurando a melhor maneira de contar sua própria história com a camisa do Flamengo.
Até que o futebol resolveu lhe devolver a memória.
Depois da Copa do Mundo, ele recuperou o brilho.
Passou a jogar com mais confiança, mais liberdade e maior participação. O drible voltou a ser atrevido. O passe ganhou veneno. A bola começou a procurá-lo — e jogador bom é assim: não corre apenas atrás da bola; às vezes, a bola é que parece ter saudade dele.
O colombiano cresceu.
E cresceu justamente quando o Flamengo precisava de uma resposta.
Jorge Carrascal.
Eis o nome.
O colombiano, que vem apresentando grandes atuações nas últimas partidas, passou a ganhar força internamente como uma alternativa cada vez mais plausível para substituir Arrascaeta. Não porque seja uma cópia do uruguaio — não é —, mas porque possui recursos para interpretar a função de meia ofensivo com personalidade, criatividade e capacidade de desequilibrar.
A vitória sobre o Mirassol ofereceu mais uma amostra desse momento. Carrascal marcou um dos gols do Flamengo na goleada por 5 a 1 e vem sendo citado entre os jogadores que recuperaram rendimento justamente na fase de retomada da equipe.
Há, portanto, uma curiosa ironia nessa história.
O Flamengo passou anos procurando no mercado um possível substituto para Arrascaeta e, quando a discussão parecia pedir mais uma contratação milionária, um colombiano que já estava no elenco começou a bater à porta.
Não bateu com os nós dos dedos.
Bateu com futebol.
Carrascal ainda precisa provar que pode sustentar esse nível por uma sequência maior de partidas. O futebol é um esporte que concede aplausos com a mesma facilidade com que cobra confirmações. Uma boa partida entusiasma; dez boas partidas constroem reputação.
Mas o cenário mudou.
Hoje, quando se pergunta quem pode assumir o posto de Arrascaeta em sua ausência, o Flamengo não precisa mais olhar apenas para o telefone, para o mercado ou para os cofres.
Pode olhar para dentro.
Ali estão Paquetá, com sua versatilidade; Samuel Lino, com sua mobilidade; e, sobretudo, Jorge Carrascal, que parece ter reencontrado o futebol que um dia o fez ser contratado.
Talvez o Flamengo ainda precise de um substituto definitivo para Arrascaeta.
Ou talvez tenha descoberto algo mais interessante:
que não precisa encontrar outro Arrascaeta — precisa apenas encontrar o melhor Carrascal.
E, neste momento, o colombiano parece disposto a aceitar o desafio.
A camisa 10 pode até ter dono.
Mas a sombra da ausência já não parece tão escura.



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