Visão da Somalilândia, cidade de Hargeisa, que foi reconhecida pela primeira vez como um país por IsraelLuis Tato / AFP
O país foi o primeiro a reconhecer esse território, que é do tamanho do Uruguai (175 mil km²), situado no extremo nordeste do Chifre da África. Ele passa a ser considerado "um Estado independente e soberano", segundo um comunicado do gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
O presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdulahi, conhecido como "Irro", comemorou imediatamente o que chamou de "momento histórico".
Na capital Hargeisa, centenas de pessoas foram às ruas pela noite com bandeiras e aos gritos de "Vitória!", segundo testemunhas presentes no local.
A Somalilândia se separou e declarou sua independência em 1991, quando a Somália estava mergulhada no caos após a queda do regime militar do autocrata Siad Barre.
Desde então, funciona de forma autônoma e se distingue por uma relativa estabilidade em comparação à Somália, afetada por insurgências islamistas e conflitos políticos.
A Somália condenou o que classificou de "ataque deliberado contra sua soberania" por parte de Israel e afirmou que o anúncio exacerba "as tensões políticas e de segurança [...] na região".
Por sua vez, o presidente Donald Trump disse em uma entrevista ao New York Post publicada nesta sexta que se opõe ao reconhecimento da Somalilândia por parte dos Estados Unidos, apesar da posição de seu aliado Israel.
"Não", respondeu o bilionário republicano ao tabloide quando foi perguntado sobre o reconhecimento dessa região, e acrescentou: "Alguém sabe realmente o que é a Somalilândia?"
Antes de Israel, a Somalilândia não havia sido reconhecida internacionalmente, o que a mantinha em isolamento político e econômico, apesar de sua localização estratégica na entrada do estreito de Bab al Mandeb, uma das rotas comerciais mais movimentadas do mundo, que conecta o Oceano Índico ao Canal de Suez.
Analistas estimam que uma aproximação com a Somalilândia poderia permitir a Israel garantir acesso ao Mar Vermelho.
Dadas as repercussões geopolíticas, Egito, Turquia, Djibuti, bem como várias organizações multilaterais, entre elas o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), a Liga Árabe e a União Africana (UA), também reprovaram o anúncio.
Em comunicado, a União Africana advertiu sobre o "risco de criar um precedente perigoso com consequências consideráveis para a paz e a estabilidade em todo o continente".
A condução da guerra em Gaza, que começou com o ataque do grupo islamista Hamas em 7 de outubro de 2023, trouxe a Israel repercussões regionais sem precedentes.
Israel viu-se envolvido em várias frentes, entre elas com os rebeldes huthis do Iêmen, cujo litoral fica em frente à Somalilândia.
A Somalilândia tem uma posição estratégica na entrada do Estreito de Bab el-Mandeb, em uma das rotas comerciais mais movimentadas do mundo, que liga o Oceano Índico com o Mar Vermelho e o Canal de Suez, mais ao norte.
Analistas acreditam que a decisão israelense foi motivada por interesses de segurança regional.
"Israel precisa de aliados na região do Mar Vermelho por muitas razões estratégicas, incluindo a possibilidade de uma futura campanha contra os huthis", os rebeldes iemenitas apoiados pelo Irã, afirmou o Instituto de Estudos de Segurança Nacional em um documento publicado no mês passado.
A costa do Iêmen fica próxima da Somalilândia e Israel atacou alvos neste país de forma reiterada após o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023.
Os bombardeios foram respostas aos ataques dos huthis lançados contra Israel em solidariedade aos palestinos de Gaza.
Israel, além disso, tenta fortalecer suas relações com países do Oriente Médio e da África.
Os históricos Acordos de Abraão, alcançados no final do primeiro mandato de Trump em 2020, estabeleceram relações entre Israel e países muçulmanos como Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Bahrein e Sudão. Mas os esforços foram interrompidos pela guerra de Gaza.

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