De acordo com o governo Trump, Nicolás Maduro seria o chefe do Cartel de los SolesAFP

Uma das primeiras medidas adotadas por Donald Trump ao assumir a presidência dos Estados Unidos foi, em fevereiro de 2025, classificar vários grupos criminosos da Venezuela como organizações terroristas. O mais conhecido deles é o chamado Cartel de los Soles, apontado pelo governo norte-americano como o responsável pelo envio de cocaína para o país. Neste contexto, os EUA atribuíram a Nicolás Maduro o papel de liderança do cartel.
O Cartel de los Soles é acusado de enviar cocaína para os Estados Unidos e Europa, a partir de uma aliança com a gangue Tren de Aragua — organização criminosa venezuelana com atuação transnacional. O primeiro teria entre suas atividades principais, além do narcotráfico, o roubo de combustível, o garimpo ilegal e a corrupção, de acordo com o relatório da fundação Insight Crime, instituição norte-americana que estuda o crime organizado nas Américas.
Origens
A denominação do cartel surgiu na imprensa venezuelana em 1993, quando dois militares de alta patente da Guarda Nacional foram julgados por tráfico de drogas. Os generais da Divisão Antidrogas Ramón Guillén e Orlando Hernández Villegas pararam no banco dos réus pelo envolvimento com grupos que traziam cocaína da Colômbia e enviavam o material para os Estados Unidos. Os meios de comunicação criaram o nome Cartel de los Soles em uma alusão à insígnia das fardas dos generais. Na Venezuela, o sol distingue os galões dos militares do topo da hierarquia.
Justamente o envolvimento de militares com o crime organizado levou o governo Trump a apontar Maduro como líder da organização criminosa, já que o presidente é constitucionalmente o comandante das Forças Armadas. Além disso, dois sobrinhos da ex-primeira Dama Cilia Flores tiveram condenações por tráfico de drogas em Nova York.
No entanto, a atuação do grupo tem início antes da chegada do chavismo ao poder, o que só ocorreu em 1999. De acordo com o Insight Crime, Hugo Chávez angariou o apoio dos militares dando aos fardados cargos de importância na administração federal e acesso a contratos lucrativos. A cereja do bolo teria sido a garantia de vista grossa para as denúncias de corrupção no meio militar.
Com a morte de Chávez em 2013, Maduro assumiu a presidência e manteve o acordo informal com os militares, acrescentando a tolerância com o envolvimento de elementos das Forças Armadas com o narcotráfico. Dessa forma, a cocaína transformou-se em moeda de troca para sustentação do governo, que enfrentava uma grave crise política e econômica.
O Cartel de los Soles não apresenta uma estrutura rígida. O Insight Crime considera a organização como “uma rede” de interesses e negócios que inclui traficantes de drogas, autoridades do chavismo e militares venezuelanos. Aos membros das Forças Armadas caberia, entre outras tarefas, a proteção das rotas de escoamento de drogas, o eventual transporte de cocaína em veículos oficiais, a cobrança de “pedágio” para evitar a repressão aos narcotraficantes e a garantia do embarque do material em portos e aeroportos, driblando a ação dos fiscais aduaneiros.
A ação em rede desse grupo faz com que algumas autoridades norte-americanas não o considerem uma organização criminosa — ao contrário do que aponta o Departamento de Estado dos EUA. A Drug Enforcement Administratio (DEA), agência federal de combate ao narcotráfico, publicou em março de 2025 um relatório sobre a atuação de organizações criminosas no país. O documento não cita o Cartel de los Soles, muto menos menciona o envolvimento de Maduro nas atividades criminosas.