Henri Kagan e Kenso Soai fizeram descobertas sobre a homoquiralidadeIlustração de Niklas Elmehed / Divulgação / Nobel Prize

O francês Henri Kagan e o japonês Kenso Soai receberam, nesta quarta-feira (7), o Nobel de Química por terem resolvido um dos mistérios da vida: o porquê de, na natureza, algumas moléculas aparecerem em uma única forma. A descoberta foi fundamental para o desenvolvimento da produção de medicamentos.

"Suas descobertas desempenharam um papel determinante para os químicos que projetam reações destinadas à fabricação de produtos farmacêuticos", afirmou o comitê do Nobel em um comunicado.

Assim como as mãos direita e esquerda, algumas moléculas, chamadas quirais, podem ter versões "direita" ou "esquerda", dependendo da forma como refletem a luz. Elas parecem idênticas fisicamente, mas possuem propriedades biológicas muito diferentes.

Quase todos os aminoácidos existem nessas duas variantes especulares, mas apenas uma delas é encontrada nas proteínas das células do organismo. A outra aparece raramente na natureza, um fenômeno conhecido como "homoquiralidade", quando uma mesma molécula possui uma mesma imagem espelhada, explicou a Real Academia Sueca de Ciências.

Os cientistas questionam há muito tempo como esse processo ocorre, e as descobertas dos dois ganhadores do Nobel permitiram "provocar reações químicas que levam à homoquiralidade", apontou o júri.
Ao desenvolver medicamentos para tratar doenças, os pesquisadores buscam selecionar especificamente qual "lado" estão obtendo. Eles querem a versão da molécula que trate um resfriado, e não aquela que agrave os sintomas de coriza. Os vencedores descobriram formas de fazer a química "escolher um lado", projetando e manipulando reações para produzir a imagem especular desejada.

Solução para um mistério

"Henri Kagan e Kenso Soai apresentaram uma solução para um mistério químico que remonta a mais de um século: como a homoquiralidade pode surgir espontaneamente. As reações químicas que eles desenvolveram são espetaculares", afirmou Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química.

Estudos relacionados a esse conceito já foram premiados com o Nobel em 2001. No entanto, o prêmio não foi concedido ao professor Kagan, considerado tanto na França quanto no restante do mundo o "pai" dessa técnica. Isso provocou, na época, protestos por parte do Ministério da Pesquisa da França.

Henri Kagan, de 95 anos, é professor emérito na Universidade de Paris-Saclay. Já Kenso Soai, de 76 anos, leciona na Universidade de Ciências Naturais de Tóquio. Ele estava fazendo compras perto de casa quando recebeu a grande notícia.

"O dia mais incrível"

"É o dia mais incrível da minha vida", declarou Soai, contatado por telefone pela Fundação Nobel. "Acredito que o nosso prêmio deveria levar as pessoas a reconhecer a importância da quiralidade das moléculas. Estou, portanto, muito contente nesse sentido", acrescentou. Por enquanto, o comitê do Nobel não conseguiu entrar em contato com o professor Kagan.

O Nobel consiste em um diploma, uma medalha de ouro e um cheque no valor de 12 milhões de coroas suecas, o que equivale a pouco mais de US$ 1 milhão (R$ 4,96 milhões, na cotação atual).

O Nobel de Química é o terceiro prêmio, depois dos de Medicina e Física, que foram anunciados na segunda (5) e na terça-feira (6). Na quinta-feira (8), é a vez do prêmio de Literatura.

O autor húngaro László Krasznahorkai foi o vencedor no ano passado, e vários especialistas consultados pela reportagem esperam que, desta vez, o prêmio vá para uma escritora não europeia. Talvez a americana nascida em Antígua e Barbuda, Jamaica Kincaid, conhecida sobretudo pelo romance "Lucy", a chinesa Can Xue, a argentina Samanta Schweblin ou a mexicana Cristina Rivera Garza.

O dia mais esperado é a sexta-feira (9), quando será anunciado o Nobel da Paz. As chances de Donald Trump recebê-lo são praticamente nulas, mas o presidente americano voltará a ser assunto devido à campanha sem precedentes que realizou em favor de sua candidatura no ano passado.

Mais uma vez, o comitê sabe que está sob os holofotes após a polêmica gerada pela vencedora do ano passado, a líder da oposição venezuelana María Corina Machado, que presenteou Trump com sua medalha.

O prêmio de Economia encerrará a temporada do Nobel, no dia 12.