Nova onda de protesto tem forte repressão policial e incidentes violentosSebastien Salom-Gomis / AFP

Confrontos entre policiais e manifestantes, invasões de prefeituras, caos no centro de Paris. Os protestos contra o aumento do custo de vida abalaram a França neste sábado (17), enquanto o presidente Emmanuel Macron enfrenta um fim de mandato turbulento.

A seis meses da eleição presidencial que escolherá seu sucessor, uma convocação nas redes sociais intitulada "Amarelos e Jovens" incentivou integrantes do movimento dos Coletes Amarelos, jovens da geração Z, agricultores, professores, ativistas climáticos e aposentados, entre outros, a protestar juntos.

"Abaixo o sistema", "Tomamos a Bastilha", "Macron, renuncie". O desejo de mudança se mostrou presente entre os 800 mil manifestantes que saíram às ruas da França, segundo os organizadores, em meio a críticas à atuação policial contra os protestos estudantis iniciados no fim de setembro.

Segundo as autoridades, cerca de 550 mil pessoas participaram das manifestações.

"Há oito anos, lutamos com todas as nossas forças", recordou em Paris François Boulo, uma das figuras mais conhecidas dos coletes amarelos, cujos protestos sociais em 2018 e 2019 colocaram o primeiro mandato de Macron contra a parede. "Agora, a juventude da França entrou em cena e nos devolveu a esperança", acrescentou.

O aumento do custo de vida se manifesta especialmente na França pela alta dos combustíveis desde o início da guerra no Oriente Médio.

"No fim do mês, já não me sobra nada. Os preços sobem, mas os salários não. Não aguentamos mais, estamos sufocando", denunciou Franck, funcionário público que participou de uma manifestação com cerca de 300 pessoas em Guéret, no centro da França.

"Não vamos nos deixar intimidar"

Os protestos nas grandes cidades foram marcados por cenas de caos. Em Marselha e Lille, manifestantes invadiram as prefeituras e, na primeira cidade, derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa. Em Limoges, um incêndio começou durante a noite na prefeitura, segundo as autoridades locais.

Embora a manifestação oficial em Paris tenha transcorrido em clima festivo, seu início, na Praça da República, foi marcado por confrontos com as forças de segurança, que responderam com gás lacrimogêneo e jatos de água aos objetos lançados por manifestantes mascarados.

As autoridades, que haviam proibido manifestações em locais estratégicos, também tiveram que enfrentar protestos não autorizados em outros pontos da capital, como os turísticos Campos Elíseos, perto do Museu do Louvre e nos arredores do Palácio do Eliseu, sede da Presidência francesa.

"Não vamos nos deixar intimidar. Ninguém vai impor sua agenda política por meio da violência", afirmou o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, que denunciou uma "violência de intensidade extrema" e acusou o partido de esquerda radical França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, muito popular entre os jovens, de estar por trás dos protestos.

"A extrema esquerda voltou a fazer das reivindicações sociais legítimas suas reféns", declarou a líder da extrema direita Marine Le Pen, que lidera as pesquisas para a eleição presidencial e poderá disputar o segundo turno com Mélenchon.

A situação ficou mais tensa ao anoitecer. As autoridades mobilizaram unidades de elite de controle de distúrbios em Paris, onde foram registrados incêndios de lixeiras e carros, além de saques a estabelecimentos comerciais nas ruas do centro, constataram jornalistas da AFP.

Macron afirmou que os responsáveis pelos distúrbios serão "perseguidos e punidos", porque "não há lugar para a violência" na França.

"Aqueles que destruíram, atacaram tanto sedes de governos regionais quanto estabelecimentos comerciais e saquearam até mesmo nossas prefeituras serão perseguidos e punidos", escreveu o presidente na rede social X. As autoridades anunciaram um balanço inicial de cerca de 400 detidos.

Manifestante perde uma mão

Os episódios lembram a onda de protestos dos coletes amarelos, oito anos atrás, contra o aumento previsto de um imposto sobre os combustíveis.

As imagens de violência, com destruição até mesmo no simbólico Arco do Triunfo, e a atuação policial, que levou manifestantes a perderem olhos, abalaram a França na época.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, advertiu que as forças de segurança poderão usar granadas de efeito moral em caso de distúrbios urbanos. As autoridades haviam restringido seu uso nos protestos estudantis depois que um jovem perdeu uma mão.

Um manifestante perdeu uma mão neste sábado em Saint-Étienne, no centro da França, devido à explosão de uma granada lançada pelas forças de segurança, informou à AFP uma fonte próxima ao caso, sem especificar o tipo de artefato.

Dois terços dos franceses apoiavam o retorno dos coletes amarelos, segundo uma pesquisa do instituto Elabe realizada em meados de setembro, que aponta Le Pen como a candidata mais bem avaliada para aumentar o poder de compra.

Embora Lecornu tenha tentado responder nos últimos dias a parte do descontentamento com uma série de anúncios, a mobilização ocorre quando o governo busca aprovar no Parlamento um orçamento para 2027 que prevê um forte ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (60,78 bilhões de dólares) para equilibrar as contas públicas.