Niterói: unidade encerrou as atividades no domingo, após cerca de dez anos de funcionamentoReprodução/Internet

O fechamento definitivo da unidade do Hortifruti na Avenida Marquês do Paraná, no Centro de Niterói, voltou a chamar atenção para o futuro da área, que anos atrás foi destinada a um projeto de shopping de grandes proporções. A Secretaria Municipal de Urbanismo informou que, até o momento, não há um novo projeto protocolado para o local e afirmou que qualquer futuro empreendimento será analisado conforme a legislação vigente.

A unidade do Hortifruti encerrou as atividades no domingo (13), após cerca de dez anos de funcionamento. Com o fechamento, os clientes foram orientados a procurar a loja da rede localizada na Rua Ator Paulo Gustavo, em Icaraí.

O terreno onde funcionava o estabelecimento fazia parte da área considerada para a construção de um shopping que prometia modificar a paisagem urbana do Centro de Niterói. O projeto apresentado na época previa uma fachada de 140 metros, 300 lojas distribuídas em cinco andares e uma torre de 14 pavimentos destinada a salas comerciais.

O empreendimento também teria cinco pavimentos subterrâneos, com 1.500 vagas para veículos e outras mil para bicicletas. A previsão divulgada anteriormente era de que o shopping fosse inaugurado em 2020.

Questionamentos ambientais chegaram à Justiça
A construção do shopping também foi questionada por meio de uma ação popular relacionada à utilização de um trecho da Área de Preservação Permanente (APP) do Morro do Arroz, no Centro de Niterói. Um dos argumentos apresentados no processo era de que uma alteração na legislação ambiental teria permitido a implantação do empreendimento em uma área protegida.

A ação chegou a ser extinta em primeira instância, mas voltou a tramitar após decisão da 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Na ocasião, os desembargadores acompanharam por unanimidade o voto do relator e determinaram o encaminhamento do processo para análise do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ).

O autor da ação era o então vereador Paulo Eduardo Gomes, do PSOL, que morreu no início de setembro. Na época, ele sustentou que a alteração na legislação havia criado uma zona de amortecimento dentro da área protegida, permitindo a utilização de parte da APP para o projeto do shopping.

Paulo Eduardo também afirmou que o local era uma das últimas áreas verdes do Centro e defendeu que o empreendimento não fosse construído caso o projeto não fosse alterado. Segundo ele, a mudança na legislação ambiental representava uma redução da proteção da área.

A emenda que permitia a construção naquele trecho havia sido protocolada em 14 de julho de 2016 pelo então vereador licenciado Beto da Pipa, do MDB, que atualmente ocupava o cargo de secretário municipal de Habitação. O texto foi votado no mesmo dia. Questionado na época, ele afirmou que não tinha conhecimento do projeto do shopping e que a emenda havia sido encaminhada pelo Executivo.

Alargamento da Marquês do Paraná
O antigo projeto também estava relacionado às obras de alargamento da Avenida Marquês do Paraná. A intervenção foi anunciada como a primeira financiada com recursos obtidos por meio da outorga onerosa, mecanismo utilizado para custear ações de requalificação do Centro. Orçada em R$ 11,8 milhões, a obra seria paga com recursos de contrapartida vinculados à construção do shopping. O planejamento previa a criação de mais duas pistas no sentido Icaraí, fazendo com que a avenida passasse a contar com cinco faixas naquele trecho.

Uma das pistas seria exclusiva para o acesso ao estacionamento do empreendimento, com o objetivo de reduzir os impactos no trânsito. A Prefeitura também havia iniciado o processo de desapropriação de 51 imóveis localizados entre a esquina da Rua Doutor Celestino e a Travessa Maria Ureña Parreiras, com previsão de demolições para viabilizar a intervenção.

Projeto tinha proposta sustentável
O shopping era apresentado, na época, como um empreendimento com proposta sustentável. O projeto incluía hortas urbanas, três mil metros quadrados de cobertura e paredes verdes, além de um sistema de energia solar fotovoltaica para abastecer parte da estrutura.

A estimativa era de redução de 30% no consumo de água potável, com a instalação de dispositivos econômicos nos banheiros, reaproveitamento da água da chuva e reutilização de águas cinzas, provenientes de atividades como lavagem de pisos e irrigação. A mobilidade também fazia parte do planejamento. O empreendimento teria uma ciclovia para facilitar o acesso de pessoas que circulassem pela região e atender moradores e trabalhadores do Centro e de Icaraí que chegassem ao local a pé ou de bicicleta.

O investimento total estimado era de R$ 1 bilhão, incluindo a construção do prédio, melhorias urbanas e recursos aplicados pelos lojistas. A previsão era de aproximadamente 11 mil empregos gerados durante as obras e após a inauguração, entre vagas no shopping e em seu entorno. A administração ficaria sob responsabilidade da Aliansce, empresa que, segundo informações divulgadas na época, administrava 28 shoppings no país, sendo 11 no estado do Rio de Janeiro.

Prefeitura diz que não há novo projeto
Com o fechamento do Hortifruti e as discussões sobre o futuro da área, a Secretaria Municipal de Urbanismo informou que não existe, até o momento, um novo projeto protocolado para o local. Em nota, a pasta afirmou que o processo de licenciamento de qualquer futuro empreendimento seguirá a legislação em vigor. A declaração não confirma a retomada do antigo projeto nem indica a existência de um pedido formal para a construção de um shopping atualmente.

A reportagem tentou contato com a Aliansce, empresa que seria responsável pela administração do empreendimento, e com a Thor Natural Stone, responsável pelo terreno, mas não recebeu retorno até a conclusão desta matéria.