Niterói: peça estreia no Teatro da UFF, após temporada de sucesso no Teatro GinásticoDivulgação/Ascom

Há encontros que levam uma vida inteira para acontecer. Depois de décadas dividindo estreias, camarins e os bastidores da história do teatro brasileiro, seis mulheres com trajetórias que, somadas, atravessam mais de dois séculos, sobem juntas ao palco. Depois de uma bem-sucedida temporada entre agosto e setembro no Sesc Ginástico, "As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias", espetáculo apresentado pelo Ministério da Cultura e Itáu estreia em Niterói no dia 9 de outubro para uma curta temporada no Teatro da UFF.
Idealizada, escrita e encenada por Eduardo Barata, com colaboração dramaturgia e codireção de Elaine Moreira, a peça musicada reúne um elenco que já é um marco para a história do teatro. A montagem transforma a biografia de sete mulheres, Bete Mendes, Ítala Nandi, Ivone Hoffmann, Mariah da Penha, Veluma, Joana Fomm e Hildegard Angel, em matéria-prima para o texto, prestando uma homenagem inédita a este grande mosaico de gerações, experiências e linguagens artísticas fundamentais para os pilares da cultura brasileira. As participações de Joana Fomm e Hildegard Angel serão especiais, elas subirão ao palco em dias específicos durante a temporada.

Mais do que uma narrativa documental, a montagem celebra o tempo vivido, a potência feminina, os costumes e tradições da Região Norte. "Cada uma dessas mulheres carrega no corpo, na voz e na memória as marcas do tempo. Não vejo isso como fragilidade, mas como trajetória. Quero revelar a humanidade que há nisso. Também existe um encontro entre gerações, porque vamos ter artistas mais jovens em cena", celebra o diretor, Eduardo Barata, que coloca no palco 26 artistas junto às atrizes, com idades que vão de 23 a 90 anos.

Para o elenco, a montagem corrige uma ironia do destino. "Passamos 60 anos nos encontrando em festas, estreias, velórios e restaurantes, mas nunca tínhamos atuado juntas. Está sendo uma experiência transformadora e totalmente nova", delicia-se Ivone Hoffmann.

Da ancestralidade no Marajó ao palco carioca

O espetáculo reverencia a história do teatro e é movido por uma forte ligação afetiva de Eduardo Barata com a Região Norte, que é neto de paraenses, tanto por parte de mãe quanto de pai. A costura poética da peça — que se passa no fictício Condomínio Galharufa, em Copacabana, mas propõe uma viagem dessas mulheres a Belém do Pará por meio de festas populares, fé, cultura, imaginação e música — é fruto da própria história familiar do encenador.

"Este trabalho é uma homenagem à minha ancestralidade paraense. Meu avô materno era ribeirinho da Ilha de Marajó, um caboclo que carregava toda essa força do Norte e meu avô paterno era de Belém. Desde criança, eu sonhava conhecer Belém do Pará. Enquanto muita gente queria ir para a Disney, eu queria conhecer o Pará. Essa ligação atravessa profundamente o espetáculo", revela Barata.

E para embalar essa história nada melhor do que a música regional, encenada no palco pelo grupo Carimbaby, fundado pela paraense Bárbara Vento, acompanhada pela belenense Camila Gonzalez, Maria Luisa Tonácio e a multiinstrumentista Rohl. “Trabalho com os ritmos da Amazônia há muitos anos aqui no Rio. A peça traz essa musicalidade o tempo inteiro, esse universo do Pará com suas danças e ritmos, o carimbó, a lambada, o lundu. Nós somos de Altamira, do centro-oeste do Pará, e trazemos essa força da mulher paraense, o corpo caboclo da Amazônia”, diz Bárbara.

O diretor musical Marco André reforça esse espírito amazônico com a costura do repertório escolhido por Eduardo Barata. "Este espetáculo me aproxima novamente de tudo o que fiz ao longo dos 42 anos da minha vida artística por meio do cancioneiro paraense, que sempre fez parte da minha identidade. Muitos dos artistas presentes na trilha sonora fazem parte da minha própria história. Para mim, como paraense, este musical me faz voltar a Belém depois de 40 anos. É como estar em casa de novo”, diz Marco André, que produziu o primeiro disco de Dona Onete e fez parceria com ela em composições. Dividiu o palco com Fafá de Belém, teve uma música gravada por Gaby Amarantos num disco do Trio Manari e também produziu para Paulo André Barata, um dos músicos mais prestigiados da região norte que tem canções presentes na peça.

O figurino assinado por Rute Alves, porta-bandeira vencedora do Estandarte de Ouro 2026 com a escola campeã Unidos do Viradouro, também traduz a cultura e a religiosidade paraense. “Pesquisei muito sobre os elementos do Círio, as cores e as flores do Pará. Usei muita palha, imagens que remetem à bandeira e à Nossa Senhora de Nazaré. Criei uma estampa especial com imagens da cerâmica marajoara para o vestido da Duda Barata, que vive a neta da personagem de Bete Mendes”, conta Rute.

E não é só no figurino que tem uma pitada de carnaval. O cenário criado por Rostand Albuquerque traz partes da escola de samba Grande Rio, que homenageou o Pará em 2025. Os barcos de miriti, que fizeram sucesso na avenida, compõem parte do cenário da peça. “Vamos trazer o Pará para palco, a bandeira do estado, o andor e o manto da Nossa Senhora de Nazaré. Vai ter bastante cor, uma floresta cenográfica de tecido”, define o cenógrafo.

Essa força da cultura amazônica e da religiosidade popular serve de moldura para que as atrizes coloquem suas próprias vivências em movimento. Ítala Nandi celebra o prazer de voltar à cena homenageando tanto seu eterno lado transgressor como o talento de suas colegas contemporâneas. Maria Pompeu, que retorna aos palcos após um hiato de dez anos, usa o humor para refletir sobre o envelhecimento e a modernidade, enquanto Bete Mendes, na pele de uma síndica rabugenta e divertida, exalta o frescor que só a experiência teatral proporciona: "É aquela coisa viva, o entrosamento de todos, cada dia é um espetáculo diferente. Sou fã de todas do elenco".

Mosaico de gerações e processo colaborativo

O espetáculo também promove o diálogo entre diferentes escolas. Mariah da Penha, que se autointitula "a caçula das Marias", pontua a importância de sua presença na montagem: "Trago minha vivência no teatro de rua e no teatro popular, como moradora da Baixada, colocando a verve da mulher negra neste cenário". Já Veluma experimenta um desabrochar artístico. Vinda das passarelas, ela conta que o diretor tem sido fundamental nesse processo: "O Barata pediu justamente para eu levar o meu temperamento para a cena. Sinto que uma atriz está nascendo em mim".

O clima de cumplicidade nos ensaios é um dos pontos altos destacados por todas elas. As atrizes são unânimes em elogiar a escuta e a generosidade de Eduardo Barata na condução do projeto. "Ele soube nos reunir de uma maneira afetiva e maravilhosa. O espetáculo que ele escreveu é sincero, é o nosso jeito de ser", define Bete Mendes. Ítala Nandi endossa a condução do diretor, comparando sua capacidade de surpreender à de grandes nomes da cena nacional: "Ele tem uma visão muito própria, autêntica. Em alguns momentos, sua criatividade me lembra muito o Zé Celso (Martinez Corrêa) pela capacidade de nos desafiar".

Ao unir diferentes gerações e estéticas em torno da memória coletiva e da riqueza cultural do Pará, "As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias" reafirma o teatro como um território de afeto, reverência e reinvenção.

SOBRE O ELENCO

Bete Mendes - Atriz e ativista política de imenso destaque no Brasil. Com mais de 70 anos, iniciou sua carreira artística nos anos 1960, integrando o elenco de novelas históricas como Beto Rockfeller. Além de sua marcante atuação no teatro, cinema e televisão (com papéis inesquecíveis em obras como O Rei do Gado e Tieta), Bete teve um papel fundamental na luta pela democracia. Posteriormente, seguiu carreira política, elegendo-se deputada federal e mantendo sempre forte seu compromisso com as causas sociais e os direitos humanos. No teatro, Bete trabalhou em montagens como A Cozinha, direção de Antunes Filho, Gota d'Água, direção de Gianni Ratto, e A Morte de Danton, direção de Aderbal Freire Filho.

Ítala Nandi - Com mais de 80 anos, é uma das atrizes e diretoras mais vanguardistas do teatro brasileiro. Participou ao lado de José Celso Martinez Corrêa, do histórico Teatro Oficina, atuando ativamente na revolução cultural do movimento Tropicalista nos anos 1960 e 1970. Ítala protagonizou o primeiro nu frontal feminino do teatro brasileiro na lendária montagem de Na Selva das Cidades. Com uma carreira brilhante no cinema (trabalhou com diretores como Ruy Guerra e Arnaldo Jabor) e na televisão, Ítala também se dedica à escrita, à direção teatral e ao ensino das artes cênicas.

Ivone Hoffmann - Atriz veterana, com mais de 80 anos, tem uma sólida e respeitada trajetória dedicada majoritariamente ao teatro, mas com participações marcantes no cinema e na televisão. Conhecida por sua versatilidade e refinamento técnico, Ivone transitou com maestria pelo teatro clássico e contemporâneo ao longo de décadas - esteve inclusive no elenco da montagem histórica de “Hair”, em 1969. Na TV, integrou o elenco de diversas novelas e minisséries (como A Muralha e Porto dos Milagres), sendo uma presença constante e admirada no cenário artístico e na formação de novas gerações de atores.

Maria Pompeu - Atriz e ex-modelo, Maria Pompeu, prestes a completar 90 anos, iniciou sua trajetória artística nos anos 1960. Com uma presença cênica marcante, construiu uma carreira prolífica no teatro, no cinema (especialmente na era do Cinema Novo e das pornochanchadas) e na televisão, onde participou de dezenas de novelas e programas humorísticos na Rede Globo e na TV Manchete. Além de atuar, sempre foi uma defensora ativa da classe artística, tendo atuado fortemente em sindicatos e associações de atores no Rio de Janeiro. Uma das atrizes que mais fez espetáculos diferenciados no país.

Mariah da Penha - Atriz com mais de quatro décadas de carreira e quase 70 anos, amplamente reconhecida por seu carisma e talento na televisão e no teatro. Mariah é uma atriz de teatro popular da Baixada Fluminense e participou do grupo Tá na Rua, com Amir Haddad. Começou a ganhar grande projeção na Rede Globo nos anos 1980, participando de novelas de grande sucesso como Dona Beja e A Gata Comeu. Ao longo dos anos, tornou-se uma figura familiar e querida do público brasileiro, acumulando papéis marcantes em produções como Suave Veneno, A Diarista e Aquele Beijo, destacando-se tanto na comédia quanto no drama.

Veluma - Nome artístico de Vera Lúcia Maria, hoje com mais de 70 anos, foi uma das maiores e mais icônicas supermodelos brasileiras das décadas de 1970 e 1980. Sua elegância e traços marcantes, Veluma rompeu barreiras no mercado da moda nacional e internacional, tornando-se a primeira modelo negra no Brasil a assumir a beleza dos cabelos black power e adereços da cultura afro-brasileira e também foi pioneira a sorrir nas passarelas. Ganhou imenso destaque no país e foi musa de grandes estilistas como Clodovil e Dener. Após brilhar nas passarelas e capas de revista, também fez incursões na televisão e no teatro, consolidando seu nome na história cultural brasileira.

SOBRE AS PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

Hildegard Angel - Com mais de 70 anos, é uma das vozes mais respeitadas e influentes do jornalismo brasileiro. Filha da estilista Zuzu Angel e irmã de Stuart Angel, assassinados pela ditadura militar, transformou sua trajetória pessoal em um compromisso permanente com a defesa da democracia, da memória e dos direitos humanos. Com uma carreira marcante como colunista do Jornal do Brasil e de O Globo, Hildegard tornou-se referência pela independência, sensibilidade e firmeza com que acompanhou os grandes acontecimentos políticos, culturais e sociais do país. No teatro, Hildegard trabalhou com diretores consagrados como José Celso Martinez Corrêa, em Gracias Señor, Amir Haddad, em A Dama do Camarote, e João Bethencourt, em Bonifácio Bilhões.

Joana Fomm - É dona de uma das carreiras mais brilhantes da televisão, com 46 novelas no currículo, do teatro e do cinema nacional. Com mais de 80 anos, ao longo de décadas, deu vida a personagens inesquecíveis, como a elegante Yolanda Pratini, de Dancin’ Days, e conquistou o público de forma definitiva ao interpretar a inesquecível Perpétua, de Tieta — uma das maiores e mais marcantes vilãs da televisão brasileira. O palco, contudo, foi sempre seu solo sagrado. Joana estreou no icônico Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1958 na peça Paixão na Terra, contracenando com veteranos como Nicette Bruno e Paulo Goulart. Nos anos 1960, foi para São Paulo e integrou o lendário Teatro de Arena. Sob a direção de Augusto Boal e ao lado de Juca de Oliveira, destacou-se no clássico O Melhor Juiz, o Rei (1963). Em 1964, deu vida a uma emblemática anciã nordestina em O Filho do Cão, de Gianfrancesco Guarnieri e direção de Paulo José — período em que, nos bastidores da ditadura militar, usou de sua coragem para ajudar na proteção e fuga de colegas perseguidos políticos.
FICHA TÉCNICA

Criação, Dramaturgia e Direção: Eduardo Barata
Codireção e Colaboração de dramaturgia: Elaine Moreira
Assistência de direção: Miguel Petereit
Pesquisa: Claudia Chaves
Direção musical: Marco André
Direção de movimento: Caroline Monlleo
Cenografia: Rostand Albuquerque
Figurinos: Rute Alves
Iluminação: Elisa Tandeta
Desenho de som: Enrico Baraldi
Visagismo: Diego Nardes
Preparação vocal: Jane Celeste e Julie Wein
Elenco protagonista: Bete Mendes, Ítala Nandi, Ivone Hoffmann, Mariah da Penha e Veluma Nunes
Participações afetivas: Hildegard Angel e Joanna Fomm
Elenco: Duda Barata, Cesar Werneck, Amanda Lívia, Jhessy S, Miguel Petereit, Morgana Bernabucci e Giuliano Laffayette
Banda Carimbaby: Bárbara Vento, Camila Gonzalez, Maria Luisa Tonacio e Rohl
Diretores de palco: Tom Pires e Roy D`Peres
Camareiras: Ingrid Santos e Sônia Martins
Operador de som: Enrico Baraldi
Microfonista: Daniella Nanni
Coordenação de produção: Eduardo Barata
Direção de produção: Elaine Moreira
Produção executiva: Bruno Luzes
Assistência de produção: Daniella Nanni e Gabo M. Barros
Captação de apoio: Alex Palmeira
Administrativo e financeiro: Bruno Luzes e Lilian Santiago
Assessoria jurídica: Haline vaz
Assessoria de imprensa: Barata Comunicação e Dobbs Scarpa
Programação visual: Luciano Cian
Fotos programação visual: Priscila Prade
Fotos de cena: Nil Caniné
Realização: Barata Produções

SERVIÇO

Espetáculo: As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias
Teatro da UFF
Rua Miguel de Frias no 9, Icaraí - Niterói
Dias: 09, 10, 11, 16, 17 e 18 de outubro
Horários: sextas e sábados às 19h e domingos às 18h
Valor do ingressos: R$ 90,00 inteira e R$ 45,00 meia
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 1h40