Por Gabriel Chalita
Quero começar bem o novo ano. Fiquei sozinha em casa, com receio das festas sem necessidades que fizeram por aí.
Foi um ano difícil. Perdi muita gente. Aqui da comunidade mesmo. E vi muita gente, que eu via espalhando bondade, indo embora. Achei injusto.
Minha única filha mora longe, tem as coisas dela, é importante, até secretária tem. Pouco tempo gasta comigo. Mas compreendo. Em uma mãe, cabem muitas explicações. Que seja feliz com os seus, do seu jeito.
Depois que o pai dela morreu, só tive uma história de amor. E foi tumultuada. E onde é que se acha coragem para deixar o erro e ir adiante? Eu o amei. Amei muito. Eu o recolhi das cinzas mais de uma vez. E, mais de uma vez, eu disse que deveria ir, para não ficar. E fiquei. Foram anos duros, de agressões e de vazios. E, então, me vesti de dignidade e fui cuidar do que restou de mim.
Sou lavadeira. E gosto do que eu faço. Criei minha filha com o dinheiro do meu trabalho. Até faculdade, paguei. Na noite da formatura, chorei para dentro, para não incomodar.
Ela ligou na passagem do ano. Estava com pressa, mas disse que, quando as coisas se ajeitassem, viria me ver.
Choveu muito por aqui. Em dias sem sol, as roupas têm que aguardar. Lavei e passei 2020 antes da virada. Decidi limpar tudo. Em mim, também. Vejo gente dizendo das sujeiras do mundo. Também digo. Mas sei ver as sujeiras em mim.
As minhas implicâncias, a minha falta de vontade de viver - vez em quando, tenho isso. Os meus reclamos com a solidão. Não é fácil uma mulher da minha idade encontrar alguém. E não é fácil viver sem ninguém. Escrevi em mim que a grande felicidade da vida é ser amada por alguém. E não encontrei ninguém para ler. Nem minha filha com seus amigos importantes. Não. Não vou remoer em roupa lavada e passada. Vou rezar para os dias que virão, vou encontrar outras calçadas para caminhar, vou viver a novidade que posso, enquanto posso.
É ano novo. E há um broto de flor se abrindo em mim, enquanto ouço os passarinhos que cantam aqui na comunidade.
Tenho amigas e amigos que me amam, sei disso. Tenho alguma beleza, todo mundo tem. Tenho olhos de ver as transitoriedades e as permanências.
Permaneço disposta ao trabalho de lavar do mundo as injustiças, as perversidades, as arrogâncias, a insensibilidade. Prefiro chorar a saudade de quem partiu a partir alguém.
Gosto de música. E, modestamente, posso dizer, tenho alma de bailarina, desde sempre. Acompanhada ou na solidão, danço o amor. Visto de roupas que eu mesma preparei e acalmo a tristeza dançando ou danço com ela, quando ela grita.E aí me deito com as janelas abertas para ser despertada no primeiro raiar de luz.
Acordei, hoje, com o riso acompanhando a lembrança de que estou viva. Vou, no cair da tarde, tomar café na casa de Maria.
De lá é bonito de se ver o pôr do sol, o primeiro pôr do sol de 2021. Gosto do sol se despedindo, porque sei que é só uma pausa.
E, como é domingo, vou aproveitar para bordar. Bordar sentimentos novos em roupa lavada e passada e com cheiro de baile.
Ah, memórias bonitas que moram em mim. Mesmo as que não existiram.
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