Mariana Bruce opinião O Dia  - Divulgação
Mariana Bruce opinião O Dia Divulgação
Por Mariana Bruce*
A Crise em Manaus pode ser considerada paradigmática do cenário distópico que se acometeu sobre o Brasil: falta oxigênio. Falta mesmo. Em vários sentidos. Falta, em primeiro lugar, em um sentido real e concreto, pois o aumento expressivo das internações provocadas pelo novo coronavírus levou ao colapso do sistema de Saúde desta que já é anunciada como a “capital mundial da covida-19”. Em Manaus, há falta de oxigênio nos hospitais para atender aos pacientes que ou estão sendo submetidos a ventilação manual, ou simplesmente acabam morrendo asfixiados dentro das instalações.
Por outro lado, podemos falar que falta oxigênio também no sentido metafórico. Metafórico porque este é o sentimento de uma parcela significativa da população que é afetada e tem empatia pela situação caótica vivenciada em nosso país no contexto geral dessa pandemia. Há uma angústia, uma ansiedade temperada com desolamento e indignação quando somos obrigados a testemunhar um genocídio em marcha, o recrudescimento de casos da doença e a inexplicável ausência de políticas públicas que possam dar conta de um real enfrentamento dessa crise sanitária.
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Por último, podemos falar também de uma falta de oxigênio em um sentido ideológico. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 trouxe à tona um governo abertamente descomprometido com a vida humana – para nos restringirmos a esse tema. Atravessamos uma pandemia global à deriva, com uma necropolítica instituída que mata ou deixa morrer principalmente a população preta, indígena e periférica desse país, tendo alcançado um criminoso índice de mais de 200 mil pessoas mortas e seguimos contando. Em meio às ameaças de impeachment do presidente, de um lado, e a manutenção de consideráveis índices de popularidade do mesmo no outro, faltam perspectivas de mudanças reais.
A ironia que se apresenta na Crise de Manaus é que justamente o país vizinho que continua sendo alvo das maiores polêmicas desde o período eleitoral, considerado uma ameaça para o Brasil, foi o que diante da catástrofe vivida em nosso país, autorizou de forma imediata o envio de suprimentos hospitalares, colocando à nossa disposição o oxigênio necessário para atender à contingência sanitária.  Para alguns analistas mais precipitados a iniciativa do governo da Venezuela poderia soar como “populista”, “irresponsável” e “midiática”, considerando sua realidade interna. Porém, acredito que de fundo há uma discussão mais importante que aponta para outras concepções de sociedade, de governo, de Estado, de relações internacionais que, ao contrário do que se supõe, podem ser muito ricas para oxigenar nossas ideias e nos ajudar a construir nossos próprios caminhos para sair do fundo do poço que nos encontramos.
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Afinal, estamos diante de um “vírus civilizatório” que coloca em xeque o mundo tal qual concebíamos e cujos efeitos, com o acirramento das contradições sociais e a necessária reinvenção das estratégias de re-existência popular, podem surpreender os mais céticos no sentido de trazer para a agenda política pautas ainda mais radicalizadas. E a Venezuela, não por acaso, desde 1998, com a eleição de Hugo Chávez, mantém acesa a chama no continente da possibilidade de se pensar outros mundos possíveis. Ainda que imersa em suas próprias contradições, trata-se de um país que transformou de forma significativa algumas de suas bases estruturantes, deixando de ser uma realidade com baixíssima representatividade política no âmbito do Estado, para se tornar uma democracia intitulada de “participativa e protagônica” que coloca em movimento milhões de cidadãos de forma auto-organizada nos Consejos Comunales/CCs e Comunas.
Hoje, dados oficiais registram mais de 48 mil CCs e três mil Comunas que envolvem cerca de quatro milhões de pessoas e não tenho dúvidas que o engajamento político e ação social desses sujeitos têm sido definidores nas respostas dadas por este país aos desafios que têm se apresentado nos últimos anos, tais como a morte do próprio Chávez em 2013, a guerra econômica com o locaute empresarial e o embargo imposto pelos EUA, a hiperinflação, a crise de abastecimento, a pandemia propriamente dita, entre outros.
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Mesmo com todas essas dificuldades, o país e, mais especificamente o Governo Maduro com sua base social, seguem firmes rebatendo as consecutivas tentativas de golpe e respondendo a mais essa crise com uma das mensagens mais singelas e, ao mesmo tempo, mais fundamentais para postularmos um outro futuro: a de que vidas humanas estão acima do lucro e que são razão para transcender fronteiras e para restaurar ou redefinir relações de solidariedade e cooperação entre os países. Trata-se de um ingrediente indispensável na difícil, porém urgente caminhada na direção de um mundo pós-pandêmico que necessariamente seja melhor do que aquele que um dia conhecemos.
*É autora do livro "Estado e Democracia nos Tempos de Hugo Chávez (1998-2013)" (FGV, 2016) e professora da rede pública e privada de ensino