Duda Quiroga - secretária de Assuntos Educacionais do Sepe-RJ e vice-presidente da CUT-RJ - Divulgação
Duda Quiroga - secretária de Assuntos Educacionais do Sepe-RJ e vice-presidente da CUT-RJDivulgação
Por Duda Quiroga*
Não fosse a pandemia do novo coronavírus, estaríamos prestes a retornar das férias escolares de verão e no auge do planejamento para o ano letivo. No entanto, após um 2020 inexistente para a rede pública, como olhar para 2021 e traçar soluções práticas diante de um cenário com aumento de casos e mortes decorrentes da covid-19?
Começava essa reflexão quando vi a coletiva de imprensa da Prefeitura do Rio e do secretário estadual de Educação: retomar, de forma gradativa, aulas presenciais a partir de 22 de fevereiro. Há problemas sérios neste plano divulgado em 26 de janeiro, e apresentado pelo prefeito e secretários na coletiva do dia 27, como usar carteiras individuais para a Educação infantil. Neste segmento, a Educação se dá na cultura de pares, em mesas de quatro a seis crianças. Melhor seria ocupar as salas com capacidade bem reduzida e distanciamento, mas manter o ambiente de interação. Ou mesmo utilizar espaços ao ar livre, como veremos logo mais.
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Outro ponto é a ideia de receber 75% da turma quando a cidade estiver em risco moderado de contaminação, e 50% quando o risco for alto. Isso torna inviável garantir os distanciamento nas salas de 4 e 5 anos, que têm lotação média de 25 a 28 crianças. Ainda mais quando falam em reformar apenas 44 unidades, pois sabemos que não são todas as outras 1.500 escolas que estão prontas para este momento.
Estratégias para esse momento deveriam estar sendo construídas há meses. É insuficiente repetir que escolas não deveriam reabrir sem apresentar sugestões, assim como retornar sem as devidas adaptações estruturais e curriculares será temerário. Para avançarmos é preciso olhar a história da Educação e aprender com educadores do passado. O francês Henry Wallon, por exemplo, desenvolveu a proposta de ciclos e valorizou a afetividade nas relações de ensino/aprendizagem para superar os efeitos da II Guerra Mundial. Paulo Freire, que faria 100 anos em 2021, falou dos saberes trazidos pelo grupo, estimulando a autonomia dos estudantes na construção do seu caminho pedagógico.
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Para não continuarmos com o apagão da Educação formal escolarizada, e aumentar ainda mais o fosso entre o público e o privado, temos de enfrentar esse momento com políticas consistentes. Primeiro: avaliar os saberes que cada um adquiriu em 2020 e como poderemos ressignificá-los em diálogo com os conteúdos escolares. Aqui é importante ressaltar que algumas unidades da nossa rede construíram estratégias muito relevantes de manutenção do vínculo e desenvolvimento do processo pedagógico. Recursos como apostilas, cartas, ou até interações por redes sociais. É importante o poder público se apropriar dessas experiências para universalizá-las de acordo com a especificidade de cada região.
O próximo passo é admitir que, sem vacina, a comunidade escolar estará em risco em caso de retorno presencial, o que vai de encontro à função social da escola, calcada no binômio educar e cuidar. Então pensemos uma Educação remota emergencial, com olhar para a experiência da educação no campo, podemos beber da fonte da pedagogia da alternância. Estimular os alunos a desenvolverem projetos de atuação e observação das rotinas comunitárias, além de ocupar espaços públicos arejados para realizar rodas de aulas e conversas, como praças e parques, além de investir em plataformas públicas e internet gratuita para alunos e professores. Estas são medidas que se sobrepõe ao ensino híbrido, propagandeado como solução para este momento, mas que guarda características da educação remota, provada ineficiente em 2020. 
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Nossas escolas não poderão voltar a ser como eram antes da pandemia, seja no currículo de ensino, seja nos espaços físicos, com salas superlotadas e banheiros sem manutenção. Para quando for possível o tão sonhado retorno presencial, temos de estar aptos. Por isso é fundamental que seja feito desde já o investimento em pessoal e estrutura.
O desafio para Educação em 2021 é grande. A vacinação da comunidade escolar precisa começar já. Mas mais do que isso, temos de exercitar o verbo esperançar, cunhado por Paulo Freire. Lutar por uma educação pública, gratuita, de qualidade, laica, anti-racista, socialmente referenciada, e que não se contraponha à vida.
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É secretária de Assuntos Educacionais do SEPE RJ e vice-presidente da CUT-RJ