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Antônio Geraldo da Silva - Solidão e saúde mental: O peso invisível da desconexão
Victor Hugo escreveu: “Todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão.” Em 1869, a falta de comunicação tornava o isolamento inevitável. Mas e hoje? Em um mundo hiperconectado, será que a solidão perdeu seu impacto ou apenas se tornou mais insidiosa?
A tecnologia aproxima, mas também distancia. Nunca foi tão fácil se comunicar, e, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão sós. A solidão não é apenas ausência de companhia, mas um vazio que pode corroer a saúde mental e física. Estudos indicam que seus efeitos no corpo são tão nocivos quanto o tabagismo, enfraquecendo a imunidade e favorecendo transtornos psicológicos. Para alguns, é refúgio contra um mundo hostil; para outros, uma prisão invisível.
O isolamento extremo é uma punição severa no sistema prisional: a “solitária” aprisiona na ausência, onde os medos crescem e a mente se torna inimiga. No cinema, Náufrago ilustra esse impacto: o personagem de Tom Hanks, para suportar a solidão, cria um vínculo com uma bola de vôlei, Wilson, símbolo de sua luta contra o desamparo. Esse instinto de buscar conexão mostra o quão vital é o pertencimento para a sanidade.
Há, no entanto, a solitude saudável, um espaço de autoconhecimento. O desafio está em distinguir o isolamento terapêutico do que adoece. Aqui, a psiquiatria e a psicologia são essenciais para reconhecer quando a solidão é uma escolha ou um grito de socorro.
A solidão é um problema de saúde pública. Não basta esperar que cada um busque ajuda; é preciso criar programas que previnam o isolamento severo, promovendo espaços de convívio e políticas públicas que priorizem o bem-estar social. A psicoeducação deve ensinar desde cedo que relações humanas não são luxo, mas necessidade.
As redes sociais, embora prometam conexão, frequentemente ampliam a distância. Elas simulam interações, mas nos privam do essencial: o toque, o olhar, a presença. Um abraço pode aquietar uma angústia mais do que qualquer mensagem virtual. Perdemos a prática do contato genuíno, e com isso, nossa capacidade de interpretar e responder às emoções alheias.
A solidão fala. Para alguns, sussurra. Para outros, grita. Ela pode ser sintoma ou gatilho de transtornos como depressão e ansiedade. O autoconhecimento é crucial para perceber seus sinais e buscar apoio antes que ela se transforme em uma sombra permanente. Cultivar laços é um ato de autocuidado.
A vida acontece no olhar, na escuta atenta, no tempo compartilhado. Conexões verdadeiras não se medem em curtidas, mas na presença real. Se a solidão lhe pesa ou alguém próximo parece se perder nela, não ignore. Ao terminar esta leitura, ligue para um amigo. Ouça sua voz. Marque um encontro. Porque o maior antídoto para a solidão sempre será o encontro—de olhares, palavras e emoções. Se precisar, peça ajuda.
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria

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