ANTÔNIO GERALDO DA SILVADIVULGAÇÃO

O transtorno bipolar ainda é uma das enfermidades psíquicas mais incompreendidas, e, ao mesmo tempo, uma das que mais impactam de forma profunda e silenciosa a vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Março, conhecido na psiquiatria como “bipomarço”, convida à reflexão e à ampliação do conhecimento sobre essa condição, especialmente em torno do dia 30, data que marca o nascimento de Vincent van Gogh, frequentemente associado ao tema.
O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é uma condição crônica, recorrente e de base biológica, caracterizada por oscilações significativas do humor, que se manifestam em episódios de depressão e de mania ou hipomania. Nas fases depressivas, o indivíduo pode apresentar tristeza profunda, perda de interesse, redução de energia e, em situações mais graves, ideação suicida. Já nos episódios de elevação do humor, observa-se euforia ou irritabilidade, aumento da energia, aceleração do pensamento, diminuição da necessidade de sono e, não raramente, comportamentos impulsivos com repercussões pessoais, sociais e financeiras relevantes.
Do ponto de vista epidemiológico, o transtorno bipolar não é raro. Estima-se que entre 2% e 3% da população mundial conviva com o TAB, o que representa dezenas de milhões de pessoas. No Brasil, isso se traduz em milhões de indivíduos potencialmente afetados. A Organização Mundial da Saúde aponta o transtorno bipolar como uma das principais causas de incapacidade entre adultos jovens, justamente por seu impacto direto sobre a funcionalidade, as relações interpessoais e a produtividade.
Outro dado que merece atenção é o risco elevado de suicídio. Pessoas com transtorno bipolar apresentam taxas significativamente maiores de tentativas ao longo da vida quando comparadas à população geral. Estima-se que entre 25% e 50% realizem ao menos uma tentativa, o que evidencia a gravidade da condição, sobretudo quando não diagnosticada ou tratada de forma inadequada. Ainda assim, muitos pacientes enfrentam anos até o diagnóstico correto, frequentemente entre 5 e 10 anos, período em que podem receber abordagens terapêuticas insuficientes ou inadequadas.
Apesar da gravidade, é fundamental destacar: o transtorno bipolar tem tratamento e pode ser controlado. O manejo adequado envolve acompanhamento psiquiátrico contínuo, uso criterioso de estabilizadores de humor e, quando indicado, intervenções psicoterápicas. A adesão ao tratamento e o seguimento longitudinal são determinantes para reduzir recaídas, preservar a funcionalidade e garantir melhor qualidade de vida.
Nesse contexto, o “bipomarço” ultrapassa o simbolismo de uma data e se consolida como um chamado à responsabilidade coletiva. Falar sobre transtorno bipolar com base científica, combater o estigma e ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento não são apenas atitudes desejáveis, são medidas necessárias.
A saúde mental da população, cada vez mais, deixa de ser uma questão individual e se afirma como um compromisso social, que envolve profissionais de saúde, instituições e toda a sociedade. Ignorar essa realidade custa caro. Enfrentá-la, com conhecimento e responsabilidade, é o único caminho possível.
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria