Eduardo FurtadoDivulgação

O debate fiscal adora vilão fácil. Escolheu o funcionalismo. Só esqueceu de calcular o que vem depois quando ele falta. Na semana passada, uma equipe de vigilância sanitária apreendeu alimentos impróprios para consumo em um mercado. Não virou notícia. Não havia como: ninguém passou mal. Nenhuma criança foi parar no hospital. Nenhuma crise virou manchete para alimentar a indignação de dois dias que a atenção pública raramente consegue sustentar.
Esse silêncio revela o problema. O debate fiscal aprendeu a medir o que aparece na folha de pagamento e ignorar o que não aparece no boletim de ocorrência. Servidor público virou sinônimo de despesa — e despesa, no imaginário comum, existe para ser cortada. O que raramente entra na conta é o retorno desse trabalho: a economia gerada, o dano evitado, o direito garantido antes de virar crise. O custo do servidor é visível. O custo da ausência dele, não — até que seja tarde demais.
Há famílias seguras porque um engenheiro público fez uma vistoria que pareceu burocracia. Há crianças protegidas de surtos que não aconteceram porque agentes de saúde subiram becos de difícil acesso. Existem obras que não viraram tragédia porque uma equipe de fiscalização embargou construções irregulares a tempo. Há tributos arrecadados porque auditores fazem o trabalho ingrato de fechar o cerco à sonegação, sem câmera, sem aplauso.
Quanto custa um incêndio evitado? Um surto contido antes de virar epidemia? Uma fraude detectada antes de virar rombo? São as perguntas que o debate fiscal raramente faz — e deveriam ser as primeiras.
Nenhum gestor de seguro trata o prêmio pago como despesa supérflua. Ele sabe: o custo da prevenção é sempre menor que o custo do desastre. O Estado funciona pela mesma lógica — ou deveria. Cortar servidor sem critério não é modernização: é trocar prevenção barata por emergência cara.
Não se trata de defender privilégio — e este artigo não o faz. Trata-se de exigir que o cálculo seja honesto. Que a régua que mede o custo do funcionalismo seja a mesma que mede o custo da sua ausência. Cortar sem entender o que se corta é a forma mais cara de economia.
O caminho é claro em seus princípios e urgente na execução: medir melhor, gerir melhor e mostrar melhor. Medir o que realmente importa, incluindo o que foi evitado antes de virar problema. Gerir com metas claras e responsabilidade sobre resultados. E mostrar, de forma direta, o que o serviço público entrega todos os dias.
Quando o debate é honesto, a decisão melhora. Cortar sem critério não é economia, é prejuízo. Investir em quem previne, fiscaliza e garante direitos é a forma mais eficiente de cuidar do dinheiro público e da vida das pessoas.
O cidadão tem direito a saber o que recebe em troca — não em promessa, mas em resultado concreto. A vigilância que apreendeu aquele alimento não virou notícia. Mas quem não adoeceu também não virou. Servidor público é isso: o que acontece antes do pior. É gente trabalhando para que a cidade funcione, mesmo quando — especialmente quando — ninguém está olhando.
Prevenção não é desperdício nem espetáculo. É economia e resultado.
Eduardo Furtado é servidor público da área fiscal do município do Rio de Janeiro