Os afetos nos afetam desde sempre. Somos punhados de amores dos ontens. Somos mãos caminhantes que contemplam pausas para fotografias. Somos fotografias de instantes que ficam. Somos os que vão. Vão mundo afora, vão mundo grande, nos tropeçares, nos equilibrares, no amor.

Amo dois irmãos. Tão diferentes os dois. Um é Fernando. Fernando ama Cecília. Vive com ela há algum tempo. Há algum tempo, me diz que quer deixar de dizer amor à Cecília. Eu pergunto o porquê. Ele diz que quer viver outros amores. Que sente que a vida passa e que ele desperdiça outros conheceres. Há mulheres tantas e por que apenas uma? É o que ele diz. Eu desdigo. Digo do bonito do inaugurar e do reinaugurar o amor. Do acalmar as ansiedades, do demitir a procura. Por que buscar se se tem? Ele não discorda mas não concorda. E dá corda ao seu duvidar de que não há outras que possam dar mais do que Cecília.

O outro é João. João ama Maria. E, há pouco, tiveram filhos gêmeos. Francisco e Clara. Achei linda a escolha. Sou padrinho de Francisco. João é mais acalmado que Fernando. É da casa, enquanto o outro prefere a rua. É do dia, enquanto o outro prefere a noite. São diferentes os dois como são diferentes os irmãos e os que também não são irmãos ou são irmãos de humanidade.

Fernando diz ser João muito pacato. João diz que Fernando é do jeito que é. Cecília acompanha Fernando em festas intermináveis. Acompanha, mas não gosta. Não gosta, mas não diz. Fernando diz querer viver uma vida mais intensa. Menos tediosa. Mais aberta ao novo.

João gosta do acordar e do restante do dia. Gosta de dar banho nos filhos. De acompanhar o amamentar. De beijar a mulher. De querer viver a vida que tem.

Eu sou amigo e não julgador. Julgo, porém, um pouco atabalhoado o viver de Fernando. As buscas, como as de Fernando, só nos trazem vazios. Nunca nos preenchem. É de dentro que nos preenchemos.

João e Maria têm suas diferenças. Evidentemente. E quem não tem? Brigam brigas de casal. Limpam juntos sujeiras que incomodam. Mas têm, segundo me disse Maria, um acordo. Não dormem sem resolverem o que incomoda o amor.

Fernando e Cecília também brigam. Um pouco menos, ultimamente, me disse Cecília. Há nela um cansaço, é o que senti. Ela disse que ele nunca está satisfeito. Que ela se desfaz para fazê-lo feliz. O que é um erro, pensei. Ninguém tem que se desfazer.

Sinto que, se Cecília deixar Fernando, ele deixará de querer viver as novidades. Ele a ama mais do que imagina. É pena que imagine que pode estar desperdiçando outras histórias. Ele tem uma história. E não sabe que tem.

Os afetos nos afetam desde sempre. Fernando diz que sempre teve tudo o que quis. O filho mais velho. O neto mais velho. João brinca que nasceu por descuido. Os pais queriam um filho apenas. Brinca que teve que conquistar o amor dos dois. Brinca, mas é o que sente. E trabalhou dentro dele mesmo para sentir diferente.

Longe de mim querer concluir sobre a vida dos outros. Mas os excessos nunca fazem bem. Nem as faltas. Ah, o difícil meio-termo.

Também tenho os meus filhos e faço de tudo para que o que me cabe seja feito com cuidado.
Não sou decididor das suas vidas. Sou apenas braços e abraços. Que constroem e que aliviam os alicerces e os pesos da vida.

Minha filha começou a namorar, há não muito. Ele parece bom. Os inícios são tão bonitos. Não apenas os inícios. Bonitos são os dias em que iniciamos agradecendo o que temos. E não o que falta.

Ah, minha mulher, Amanda, é tudo o que eu sempre sonhei. Ela diz o mesmo de mim, embora reclame do meu excesso de paciência. 'Você é um pouco lento demais, às vezes, meu amor', é o que ela diz.

Paciência, aprendi isso com meu pai que só sabia dizer belezas à minha mãe. E que era lento no tema do não desperdiçar o que os dias nos mostram, nos falam, nos calam.