Eduardo Pazuello é político brasileiro e general de divisão do Exército BrasileiroMarcelo Camargo/Agência Brasil

Assistir à sessão de ontem do Supremo Tribunal Federal foi, para dizer o mínimo, uma experiência de embrulhar o estômago. O que deveria ser o ápice do debate jurídico da nação transformou-se em um espetáculo lamentável de egos inflados, vaidades desmedidas e uma indisfarçável baixaria entre togados.
No entanto, em meio ao bate-boca estéril e ao tom desrespeitoso que manchou a liturgia do tribunal, a atuação da ministra Cármen Lúcia emergiu como um farol de lucidez, elegância e compostura republicana.
Confesso que há tempos vejo com apreensão a degradação do debate público no Brasil, mas ver a baixaria se instalar com tanta naturalidade na Suprema Corte é um golpe duro para qualquer cidadão que ainda acredita nas instituições.
Ontem, presenciamos ministros trocando farpas pessoais, interrupções grosseiras e acusações veladas que mais lembravam uma discussão de botequim de quinta categoria do que o pleno do órgão guardião da Constituição.
A falta de decoro foi gritante!

Ficou evidente como o poder, quando desprovido de auto-restrição, transforma homens de saber jurídico em atores de um circo de vaidades.
Foi justamente contra esse cenário grotesco que o brilhantismo da ministra Cármen Lúcia se destacou de forma avassaladora.
Enquanto colegas de bancada se digladiavam para ver quem gritava mais alto ou quem saía melhor no corte para as redes sociais, Cármen Lúcia manteve a altivez que a história haverá de consagrar. Sua postura não foi apenas um contraponto moral; foi uma aula magistral de maturidade institucional e respeito ao povo brasileiro.
Quando a palavra lhe coube, a ministra não precisou alterar a voz nem recorrer a ironias baratas. Com a costumeira precisão técnica, firmeza de princípios e uma serenidade quase pedagógica, ela colocou a discussão de volta nos trilhos da Constituição.
Seu posicionamento ontem resgatou o que realmente importava no julgamento, despindo a tese jurídica de toda a pirotecnia e do ressentimento pessoal que os outros ministros tentaram impor ao debate.
Senti um misto de alívio e profundo orgulho ao ouvi-la.

Cármen lembrou a todos nós — e, principalmente, aos seus pares — que a toga não é uma armadura para proteger egos, mas um manto de responsabilidade perante a democracia.
Enquanto a baixaria ao seu redor ameaçava apequenar o STF, a ministra sustentou a dignidade daquela Corte sozinha. Ela provou que a verdadeira autoridade não se impõe pelo grito ou pela arrogância, mas pela coerência, pela clareza do pensamento e pela profunda reverência ao interesse público.
A sessão de ontem deixará marcas amargas na memória do Judiciário brasileiro.

A conduta lamentável dos ministros envolvidos na briga só reforça o descrédito de uma população já cansada de excessos e teatralidade. Contudo, se resta alguma esperança na integridade do nosso sistema de Justiça, ela atende pelo nome de Cármen.
Ontem, em meio ao caos e à vulgaridade, sua figura gigantesca nos deu a certeza de que a lucidez e a elegância ainda resistem, mesmo quando cercadas pelo barulho da insignificância.
Excelentíssima Sra. Dra. Carmén Lúcia “do Brasil”, tem minha total admiração!
* Eduardo Pazuello é político brasileiro e general de divisão do Exército Brasileiro