Tomando um café da manhã, esses pensamentos me vieram à memória e resolvi escrevê-los, como bem disse o Estefan, para "não me esquecer dessas coisas que a gente vê, lê, ouve e acumula ao longo da vida"Arte: Paulo Márcio

Já era noite do dia 3 de janeiro quando fui surpreendida por um relato maravilhoso e cheio de detalhes do fotógrafo Estefan Radovicz, aliás, um dos grandes entusiastas da minha jornada no mundo das crônicas. "Depois das pautas de hoje com um sol para cada um e da chuvarada no Centro, onde fui deixar meu computador para conserto, desci do ônibus e parei rapidinho num bar perto da minha casa, para escrever para você. Pedi uma cervejinha para escrever logo e não me esquecer dessas coisas que a gente vê, lê, ouve e acumula ao longo da vida...", começou.
Seu texto me capturou de vez. E ele continuou: "Estava no ônibus agora e dois garotos de uns treze anos com uniformes de futebol falavam animadamente sobre jogadores e clubes de futebol. Acho que estavam voltando de um treino acompanhados de uma senhora com cara de avó. Sabiam tudo, técnicas, jogadores e suas posições no campo, treinadores e táticas. Daí lembrei que já fui jogador também, na escolinha que buscava talentos na minha querida Inhaúma, onde eu morava. Tinha uma coleção empilhada de mais de um metro do 'Jornal dos Sports'. Ouvindo os garotos, me veio um flash imediato de lembranças guardadas".
Encantada com o seu relato, cheio de riquezas afetivas, eu respondi: "Que máximo! Você escreveu uma crônica agora!" Papo vai, papo vem, ele me contou que sempre foi um bom aluno de Português e andava com a gramática de Evanildo Bechara, que, aliás, eu conheci muito cedo por conta da minha mãe, professora de Português.
O relato do Estefan reavivou em mim o pensamento da infinidade de crônicas que cabem pelas nossas andanças na vida. Nem todos param para escrevê-las, como ele fez. Mas elas surgem a todo instante no nosso caminho. Foi assim outro dia, no estúdio onde faço pilates, quando falávamos de quitutes, e um aluno relembrou um bolo de banana que comia quando era criança. "Eu não tenho como descrever aquele gosto", ele comentou. Mas o seu tom de voz e a sua alegria revelavam que aquela memória era realmente marcante para ele. Assim como o bolo de coco da minha mãe se tornou único e inesquecível para mim. Afinal, os sabores também são eternizados por histórias.
Da mesma forma, fiquei imaginando as imagens narradas por outra amiga querida que o pilates me deu, mas que não vejo há algum tempo. Num bate-papo por WhatsApp, ela me falou sobre um trajeto particular nas suas andanças por Caxias: "Sempre que subo e desço o viaduto olho para as janelas do estúdio onde vocês estão e morro de vontade de ir lá, mas sempre tão corrido, em cima da hora... Ainda não consegui me organizar para ter o tempo de tomar um café com vocês. Mas logo eu sossego um pouco com os meus planejamentos e faremos nosso encontro". Estava ali parte da crônica da nossa saudade, pelo olhar dela. E esse desejo de reencontro também abriga a minha perspectiva. Tanto que eu não me esqueço da sua voz serena ao fim das aulas de yoga que eu fazia sob a sua orientação.
Tomando um café da manhã, esses pensamentos me vieram à memória e resolvi escrevê-los, como bem disse o Estefan, para "não me esquecer dessas coisas que a gente vê, lê, ouve e acumula ao longo da vida". Talvez as crônicas sejam os nossos queridos diários de antigamente, às vezes revelados na escrita; em outras, guardados no coração.