Projeto tem objetivo de orientar e ensinar práticas de defesa pessoal às mulheres do sambaDivulgação

Rio - O chão azul e branco da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, na Baixada Fluminense, ganhou um ringue. Nele, aulas de defesa pessoal e de técnicas psicológicas de diálogo serão ministradas com o objetivo de prevenir e acolher mulheres vítimas de violência doméstica, agressões e tentativa de feminicídio dentro do universo do samba. De acordo com o levantamento feito pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, os casos de violência sexual costumam aumentar aproximadamente 20% durante o carnaval. O programa "Empoderadas" foi inaugurado nesta última semana e oferecerá assistência psicológica, social e jurídica às vítimas. A expectativa é de atender cerca de 400 mulheres.


O programa de enfrentamento a violência contra a mulher, da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do estado do Rio, nasceu com a ideia de capacitar mulheres para prevenir uma possível violência ou assassinato por meio dos sinais que o antecedem. A coordenadora do programa, Érica Paes, ex-lutadora de MMA, campeã mundial de jiu-jitsu e especialista em segurança feminina, destacou a importância deste trabalho dentro da escola e ressaltou que no município de Nilópolis é onde ocorre o maior índice de violência doméstica no estado do Rio.

"O 'Empoderada' é um programa de prevenção e enfrentamento à agressão. Todo trabalho é construído na base de artes marciais, que é o nosso grande diferencial. Não é apenas aula de defesa, mas também de prevenção. A gente ensina a mulher a não morrer na mão do homem e não a bater nele", disse Érica. "Nós ensinamos elas a não serem estupradas e o que fazer quando algo desse tipo pode acontecer, seja no metrô, ônibus, dentro de casa, em shows, ou relacionamentos. Oferecemos a técnica para que elas tenham possibilidade de se defender de uma tentativa criminosa".

A escola, que tem cerca de seis mil mulheres, também poderá contar com apoio psicológico para elas. Segundo Érica, os traumas deixados na vida de quem sofreu violência são irreversíveis e é importante ter um acompanhamento terapêutico. "A violência psicológica pós-traumática é muito grande. Começamos a dar muita atenção a essa parte do trabalho, de ressocializar essa mulher. O projeto foi abraçado pela instituição e a gente espera que essas aulas possam fortalecer a comunidade".

Érica, que trabalha nessa área desde 1997, ainda comentou a importância de seguir um protocolo caso a vítima esteja desconfiada de que será violentada e afirmou que 97% das mulheres que sofreram feminicídio ou tentativa, não tiveram medidas protetivas. "O abusador sempre dá indícios e nós passamos isso para as nossas alunas. É importante que os vizinhos estejam avisados de que a pessoa está em relacionamento abusivo, por exemplo, para que em situações de briga, possam chamar a polícia. Então, técnicas de verbalização também são passadas, além de como sair de um puxão de cabelo ou estrangulamento".

A professora Monique Bispo começou a dar aula de defesa pessoal para mulheres há quatro anos. Durante esse tempo, ela declarou que percebia que muitas mulheres presas ao machismo e patriarcado acabavam se sentindo tolhidas, mas quando entraram no ringue pela primeira vez, mudaram suas perspectivas de vida. "É muito grandioso ver essa desconstrução feminina. Muitas cresceram acreditando que mulher servia apenas para comandar uma casa, mas aqui no tatame elas desconstroem tudo que foi construído em cima delas. Não é só a mulher que tem deveres, mas os homens também. Queremos levar para essas mulheres do carnaval orientação e técnicas para elas saírem de qualquer situação abusiva".
Ex-aluna do projeto e agora professora, Celeste Alcântara, 42, moradora de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, contou que sofreu violência sexual na infância e por muito tempo isso foi um transtorno em sua vida. "Eu cheguei nesse projeto através de um anúncio. Mudou a minha vida por completo porque até pouco tempo eu não me sentia curada do que eu passei quando criança. Não tinha autoestima e estava totalmente refém do meu trauma, mas fui aprendendo aos poucos e reconheci que eu mereço o melhor. Se eu cheguei aqui, muitas mulheres também podem. Agora, eu não vou mais deixar que amiga, prima, vizinha, irmã, passe pelo que eu passei".
O grupo 

O 'Empoderadas' atua com técnicas esportivas de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, por meio dos sinais que antecedem a violência. O Programa, coordenado pela campeã Mundial de Jiu-Jitsu Érica Paes, trabalha com ensinamentos que vão do uso da inteligência emocional a sistemas de autodefesa, abordando técnicas especiais.