Jardim de Alah passará por revitalização e retirada de 130 árvores; moradores reclamamReginaldo Pimenta / Agência O Dia

Rio - O processo de revitalização do Jardim de Alah, localizado entre os bairros de Ipanema e Leblon, na Zona Sul, ganhou mais um capítulo polêmico com a autorização da Prefeitura do Rio para o corte de 130 árvores do local. Moradores e personalidades da cultura criticam a medida. Já a Rio+Verde, empresa que venceu a concessão do espaço, garante o plantio de mais que o dobro do número a ser retirado.
A discussão veio à tona depois da divulgação, na última semana, da aprovação da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, para retirada das árvores do jardim. Dentre as espécimes estão: babosa-branca, bougavilia, ingá-mirim, pau-brasil, amendoeira, figueira, entre outras.
A decisão causou a revolta de moradores, que se manifestaram pelas redes sociais. "Árvores abrigam ninhos e animais, retêm poeira e poluição, melhoram a umidade do ar, fazem sombra, produzem frutos e flores que atraem borboletas e outros insetos além de pássaros, dão leveza à paisagem cheia de construções feias e geram uma atmosfera agradável ao olhar. Árvore é vida! Deixem as árvores em paz!", escreveu uma internauta. Em prédios na região, alguns moradores chegaram a colocar cartazes nas janelas demonstrando indignação, como revelam imagens que a equipe de O DIA fez no local nesta sexta-feira (14)
A atriz Júlia Lemmertz, de novelas da TV Globo como "Elas por Elas" (2024), "Espelho da Vida" (2018) e "Novo Mundo" (2017), reclamou da autorização e justificou o posicionamento.
"Isso é um absurdo completo. Eu me espanto que a sociedade, que as pessoas aqui em volta, achem tudo bem. Estamos morrendo de calor, de enchente, de incêndio, estamos acabando com o planeta e permitindo uma concessão de 35 anos para fazer um empreendimento imobiliário no coração de Ipanema, onde essas árvores deveriam estar preservadas, deveriam estar plantando mais ainda, cuidando do parque para que ele fosse mais bonito e mais verde. Um pulmãozinho a mais capaz de absorver, de emitir o oxigênio pra gente", discursou a atriz, em vídeo publicado nas redes.
A cantora Ana de Hollanda, filha do historiador Sérgio Buarque de Hollanda e ex-ministra da Cultura, também criticou a medida. Segundo ela, o corte de árvores aumenta a temperatura na cidade.
"Aqui no Rio está terrível o calor. Isso está sendo causado pelo corte totalmente irregular de árvores. A prefeitura autorizou o corte de 130 no Jardim de Alah, um parque muito bonito que existe há quase um século e sempre foi abandonado pela própria prefeitura, responsável pela manutenção. É um parque muito bonito que une Ipanema à Lagoa, que é muito utilizado e poderia ser muito mais se a prefeitura fizesse a manutenção. Ela se uniu a empreendedores imobiliários e quer fazer de lá um verdadeiro shopping center. Para isso, é necessário o corte de tudo, aquele monte de árvores, que não vão ser reimplantadas. Árvores que estão há décadas e demoraram para crescer, lindas, dão sombras e ajudam no meio ambiente", disse, em postagem nas redes sociais.
A Associação de Moradores e Amigos do Jardim de Alah criou um abaixo assinado solicitando a revitalização sem descaracterização do espaço, sendo contra o modelo de concessão. De acordo com eles, o projeto não protege o patrimônio público ambiental e cultural, além de não se preocupar com o impacto negativo na vizinhança.
"O modelo de concessão atual, de 35 anos, permite lotear o Jardim de Alah para lojas, quiosques, restaurantes e eventos. Permite edificações permanentes, sem definir altura máxima ou local. Permite a exploração comercial dentro das praças e nas calçadas fora das praças, sem considerar os impactos negativos para o meio ambiente, moradores e vizinhança", diz o texto, que já possui mais de 24 mil assinaturas.
Consórcio garante replantio
Apesar das reclamações sobre os cortes, o consórcio Rio+Verde informou que a supressão das 130 árvores será realizada por diversos motivos, incluindo doença, decesso e inadequação de espécies exóticas, cujas raízes destroem a infraestrutura pública e impedem a acessibilidade das calçadas. A empresa ressaltou que o número corresponde a apenas 17,8% dos indivíduos existentes no parque e que algumas delas serão transplantadas.
"Isso de forma alguma significa que o novo Jardim de Alah será menos arborizado. Serão plantadas cerca de 300 novas árvores no novo parque, um incremento de 41% em relação às existentes. Além da compensação ambiental obrigatória de plantio de mais de 1300 árvores em locais a serem definidos pela Secretaria de Meio Ambiente. Vale também acrescentar que a remoção será feita paulatinamente apenas após o início das obras, quando liberadas pela Justiça. E que dentre as remoções autorizadas, muitas espécies são de pequeno e médio porte que serão transplantadas e não suprimidas", conta a nota.
O Rio+Verde garantiu que maioria das árvores de grande porte serão mantidas. "Existem, por exemplo, 243 amendoeiras no Jardim de Alah. Apenas 4 serão suprimidas (1,6%), duas delas doentes infestadas de erva-de-passarinho. Da lista das espécies ameaçadas ou sob ameaça foram encontradas apenas quatro indivíduos jovens, três com cerca de 2 metros e um alcançando 7 metros. Serão todas transplantadas, portanto, todos os quatro indivíduos ameaçados serão preservados", acrescentou.
Carlos Monjardim, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Ipanema (Amai), se declarou a favor do processo de revitalização com a retirada.
"A nossa associação é a favor da concessão do Jardim de Alah e a prova disso é que lotamos a Audiência Pública com a população, a maioria, a favor. Estamos totalmente de acordo com os procedimentos, inclusive com a licença concedida para retirada das 130 árvores. São a maioria árvores invasoras, não são originárias do projeto. Serão plantadas 300. Não haverá prejuízo para o bairro", comentou, em entrevista à reportagem.
A Associação dos Moradores e Amigos do Leblon (AmaLeblon) valorizou a iniciativa. "O Jardim de Alah não pode continuar como está. O projeto é bom, apesar do sacrifício ser enorme. A autorização contempla um plantio compensatório de 1310 espécies. Temos que lembrar também que árvores tem tempo de vida, envelhecem, ficam doentes, e as nossas estão velhas chegando ao seu limite, como grande parte das plantadas no Leblon. Enfim, é triste e polêmico, mas é o preço. Teremos um novo Jardim de Alah, mais adequado e seguro para os novos tempos", afirma a organização, em publicação feita nas redes.
Procurada, a prefeitura, através da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, esclareceu que, por ser um patrimônio tombado, o Jardim de Alah teve seu projeto de revitalização aprovado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), com a condição de que o desenho original do jardim e da praça seja mantido, incluindo a vegetação.

"Das 130 árvores indicadas, a maioria inclui arbustos e indivíduos de pequeno porte. As árvores mais antigas serão preservadas, e as demais serão replantadas após a finalização das obras. Além disso, 1.310 novas árvores serão plantadas a título de compensação ambiental, preferencialmente no Jardim de Alah, mas também podendo ocorrer em outros pontos da cidade", informou.
Projeto
O início das obras no espaço foi suspenso em abril de 2024 pela Justiça do Rio, que concedeu uma liminar para a 1ª Promotoria de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, do Ministério Público do Rio. Na época, o órgão estimou que haverão danos ao patrimônio histórico-cultural local. A concessão foi autorizada em novembro de 2023.
O investimento previsto pelo consórcio Rio+Verde para a revitalização do parque é de mais de R$ 110 milhões, com R$ 20 milhões anuais em manutenção e operação ao longo dos 35 anos de concessão.
No plano, o local seguirá sendo público, com acesso gratuito e terá os 93,6 mil m² de área renovada, com a retirada de muros; recuperação de jardins com o incremento de 40% das espécies de árvores; implantação de ciclovias, novos parcão e creche com 1,2 mil m².

O espaço também prevê a construção de duas quadras poliesportivas, ginásio multiuso, espaço para crianças de zero a 4 anos com brinquedos e pisos específicos e área para a terceira idade com equipamentos de ginástica e mesas de jogos.