Prédio ficará no terreno edificável vizinho à Praça Melvin Jones, próximo ao terminal Menezes CôrtesÉrica Martin/Agência O Dia

Rio - Um prédio de 24 andares será construído no terreno na área conhecida como Buraco do Lume, no Centro do Rio. A construção do imóvel foi autorizada pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU) e faz parte do programa Reviver Centro, da Prefeitura do Rio, para atrair novos moradores para a região. A medida dividiu opiniões entre os setores da Construção Civil e da Arquitetura e Urbanismo. 
O Buraco do Lume havia sido reconhecido como patrimônio do Rio, mas acabou destombado pela Assembleia Legislativa (Alerj), em 2022. Segundo a SMDU, a construção do prédio será realizada no terreno edificável vizinho à Praça Mário Lago, antes Praça Melvin Jones, próximo ao Terminal Menezes Côrtes. Ao todo, serão 720 unidades residenciais e quatro unidades comerciais, em 27.737 m² de área total construída.
O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU-RJ), Sydnei Menezes, destaca que a Praça Mário Lago e o empreendimento, no terreno privado, não são o mesmo local, e a área pública vai permanecer. Ele afirma que o espaço ficou inutilizado durante muitos anos e acredita que o poder público poderia ter atuado para a desapropriação e tornado em uma área de lazer pública. "Mas, acho que já se perdeu a oportunidade para isso, infelizmente", declarou.
Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio), Claudio Hermolin, a instalação do prédio tem capacidade de mudar a dinâmica do Centro da cidade, já que haverá maior movimento de pessoas, devido ao número de moradores que o edifício pretende comportar, e pode ser um "importante elemento de transformação da região".  
"Aquela região sempre foi, historicamente, uma área comercial e a gente, de fato, ainda não teve nenhum grande projeto residencial lançado ali. Nós acreditamos que esse projeto, em termos de mercado imobiliário, para a revitalização do Centro, vai ser fundamental, porque está numa região que não tem vocação natural para o residencial. Sendo lançado e sendo um sucesso, a gente está falando de quase duas mil pessoas morando ali, o que muda por completo a dinâmica do entorno. Serão duas mil pessoas que vão consumir produtos e serviços numa região que, no horário noturno ou nos finais de semana, é totalmente deserta e sem vida nenhuma", apontou o presidente. 
Hermolin citou que 85% dos projetos lançados pelo Reviver foram vendidos, sendo 39% para famílias da Zona Norte, 23% da Zona Oeste e 17% da Baixada Fluminense. "A esmagadora maioria dessas pessoas está vindo de lugares onde elas levam uma hora, uma hora e meia de transporte público para chegar e sair do trabalho. Essas pessoas vão ter maior qualidade de vida, além de estarem indo para uma região que tem abastecimento de transporte de qualidade e de opções de lazer e entretenimento. Eu não tenho dúvida que esse tipo de empreendimento vai atrair muita gente que hoje mora distante. A gente precisa de oferta de moradia acessível para essas pessoas e esse empreendimento é uma das soluções".
Sydnei Menezes ressalta que o CAU-RJ é favorável à ocupação do Centro com habitação para a renovação do bairro e a reafirma que a construção não configura nenhuma ilegalidade. Entretanto, o Conselho defende a realização de estudos complementares detalhados de avaliação sobre os impactos à vizinhança, considerando o porte de edifício. 
"A gente questiona um pouco o resultado final desse empreedimento, em razão do porte dele, que vai criar uma área de um adensamento muito concentrado naquela região. Ali é uma área que tem uma ventilação, um respiração, do ponto de vista urbano. A única questão que eu chamaria atenção é para o excessivo adensamento previsto nesse empreendimento", apontou o presidente. "Eu sinto a necessidade desse empreendimento ser acompanhado de uma avaliação de impacto da vizinhança. Não sou contra habitação no Centro, acho que tem que ter, mas o porte chama um pouco atenção".
A construtora Patrimar Engenharia se manifestou por meio de nota confirmando o empreendimento, mas sem dar previsão para o início da construção.
"No momento, estamos avaliando as demandas do mercado e ainda não temos previsão para o lançamento e o início das obras do empreendimento residencial previsto para região do Buraco do Lume, no Centro do Rio de Janeiro. O projeto do terreno em questão foi aprovado recentemente pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico e faz parte do plano Reviver Centro, de recuperação urbanística, cultural, social e econômica da região central da cidade", informou a empresa por meio de nota.
Reviver Centro
Segundo a SMDU, o Reviver Centro tem como objetivo central a reocupação sustentável da área central da cidade, priorizando a conversão de imóveis subutilizados em unidades residenciais voltadas para moradia definitiva. A pasta informou que, desde 2021, o programa já contabilizou 5.236 novas unidades residenciais, em 57 licenças concedidas. Destas, 11 são para construção de novos prédios e 46 são para transformação de uso, o chamado retrofit.
Buraco do Lume
O Buraco do Lume é considerado um lugar tradicional de manifestação política, principalmente de partidos de esquerda, como o PT e o PSOL. No local, estão o Monumento Leonístico, de 1977, do artista Cristiano Ariel Teixeira, em homenagem ao fundador do clube de serviço Lions Club, Melvin Jones, e a estátua da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, do escultor Edgar Duvivier, inaugurada em julho de 2022. 
O terreno foi adquirido pelo grupo Lume, na década de 1950, que pretendia construir sua sede no local. O projeto previa um edifício de 50 andares, que seria o maior do Brasil. Entretanto, após problemas financeiros e envolvimento em escândalos políticos, o Governo Federal liquidou extrajudicialmente a empresa e as obras deram lugar a tapumes abandonados e um enorme buraco escavado para as fundações e garagem do prédio. A área então recebeu o apelido de "Buraco do Lume". 
Na década de 1990, uma lei mudou o nome da praça para homenagear o advogado, poeta, radialista, letrista e ator Mário Lago. No entanto, a decisão da Câmara Municipal acabou efetivada somente em 2009, durante o mandato do prefeito Eduardo Paes, quando uma placa com o novo nome foi instalada. Anteriormente, a praça era batizada de Melvin Jones.