Tainá Rosa e a filha, Milena, foram vítimas de racismo em banheiro da Rodoviária do RioReprodução

Rio - A Polícia Civil investiga uma denúncia de racismo, ocorrido na Rodoviária do Rio, em Santo Cristo, Zona Portuária. De acordo com a estudante de Direito Tainá Rosa, de 38 anos, uma mulher chamou a sua filha, de apenas 9 anos, de "macaca" em um banheiro do local.
O caso aconteceu na madrugada da última segunda-feira (25), por volta das 5h30. Tainá e a filha, Milena Rosa, moradoras de Paciência, Zona Oeste, haviam acabado de chegar de uma viagem para Minas Gerais, onde visitaram familiares. Elas foram ao sanitário logo depois de desembarcar. No espaço, encontraram a suspeita usando a bancada da pia.
Ao DIA, a estudante contou que entrou em uma cabine do banheiro com a filha. A menina saiu primeiro e foi lavar as mãos. Neste momento, sem a presença da mãe, que o crime teria ocorrido.
"Quando saí, eu observei que ela tinha se afastado da minha filha, como se não quisesse encostar. Dei bom dia a ela e perguntei se tinha acontecido algo. Ela não respondeu, ficou somente olhando para mim através do espelho. Falei pra minha filha pra gente sair. foi quando escutei a palavra 'macaca'. Minha filha olhou pra mim, já chorando, e disse que ela já tinha a chamado duas vezes, ou seja, durante o meu uso do sanitário, ela já estava a xingando de 'macaca' gratuitamente", disse.
Tainá informou que ligou para a Polícia Militar e falou para a suspeita esperar, pois a mesma estava juntando os pertences para ir embora. Preocupada, a estudante procurou seguranças da rodoviária, que, segundo ela, não ajudaram. Posteriormente, Tainá encontrou uma viatura da PM na Avenida Francisco Bicalho e explicou tudo que aconteceu. Os envolvidos foram conduzidos à 4ª DP (Presidente Vargas).
"É um assunto que dói, que machuca. Ninguém merece passar por isso. Conhecemos o racismo, mas quando você sente é que se entende de fato como a sociedade vê como algo comum. Há anos o racismo se perpetua na sociedade. Temos que resistir. Não podemos normalizar que isso aconteça. O racismo traz a insegurança do negro de existir. Ficamos inseguros em ser, em agir e achamos que estamos incomodando. O negro foi criado assim, como um incômodo e um estorvo. Eu não deixo que isso faça parte da nossa vida. Mesmo assim, mais uma criança e uma mulher negra foram desrespeitadas no Rio", contou.
A estudante ressaltou que está procurando apoio psicológico para a filha para que ela enfrente o trauma das ofensas. De acordo com Tainá, o caminho adotado para a denúncia foi o correto, sem o uso de violência.
"É um dos fatores que mais está doendo. É uma criança, totalmente inocente. Nenhuma merece passar por isso. Ela sabe que o uso dessa expressão referente a pessoas negras é racismo. Ela tinha o conhecimento técnico, mas não tinha o sentimento e a dor. Como ela vai usar o banheiro de um local público de forma independente? O pós vai aparecer aí. Meu único objetivo é conseguir o processo de justiça. Pessoas me perguntaram por que não agredi. Confio nas leis e no estado. Preciso que as pessoas entendam que o comportamento que tive é o certo. Não sou a favor da violência", destacou.
Tainá, a suspeita - que não ficou presa - e o policial militar que atendeu a ocorrência prestaram depoimento. Agentes da 4ª DP ainda irão ouvir a criança. Segundo a Polícia Civil, outras diligências estão em andamento para esclarecer os fatos.
Descaso
A estudante alegou que houve descaso por parte dos seguranças da Rodoviária do Rio quando ela comunicou o crime. Tainá reclama sobre a falta de um protocolo para auxílio de vítimas em casos como o sofrido.
"Eu precisava chamar os seguranças, precisava de um apoio do serviço que estava usando. Fui em quatro e disseram que não podiam fazer nada pra me ajudar. Fiquei uns 30 minutos nesse desespero todo. Houve o descaso da Rodoviária. Não tem protocolo algum para auxiliar os usuários em demandas que possam acontecer. Se fosse um crime de importunação sexual, se fosse um furto, ainda se fosse uma pessoa passando mal. Não teve suporte algum", informou.
Questionada, a Rodoviária do Rio informou que, assim que acionado pela mãe da criança, o vigilante patrimonial orientou a mulher a acionar imediatamente a PM por meio do número 190, já que era um assunto de competência da autoridade policial.
A empresa destacou que, desde o primeiro momento, a equipe se colocou à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos necessários, assim como a Ouvidoria, que fez contato telefônico com Tainá nesta terça-feira (26).
A Rodoviária do Rio S/A reiterou a profunda consternação do relato de discriminação e ressaltou que não compactua com qualquer tipo de preconceito nas instalações.
A Companhia de Desenvolvimento Rodoviário e Terminais do Estado do Rio (Coderte), que administra o sanitário da rodoviária, lamentou o episódio e destacou que a suspeita não faz parte do quadro funcional, nem das empresas terceirizadas que prestam serviço.
Veja a nota completa da empresa
"O que está sendo dito em relação à nossa empresa não condiz com a realidade dos fatos verdadeiramente ocorridos no dia 25 no sanitário feminino do desembarque (serviço este gerido inteiramente pela Coderte, desde abril de 2020 com funcionários próprios).
A Rodoviária do Rio S/A reitera sua profunda consternação diante do relato de discriminação e afirma que não compactua nem nunca compactuou com qualquer tipo de preconceito em nossas instalações.
Assim que acionado pela mãe da adolescente, nosso vigilante patrimonial — que também é um homem negro — orientou a Sra. a acionar imediatamente a PM por meio do número 190 já que se tratava de um assunto de competência da autoridade policial. A viatura compareceu ao terminal e conduziu as partes envolvidas à 4ª Delegacia de Polícia, onde foram realizados os procedimentos legais cabíveis. Importante esclarecer que, segundo a própria 4ª DP, o caso não foi tipificado como crime de racismo por ausência de elementos probatórios que configurassem essa prática motivo pelo qual a suposta autora foi liberada. Cabe destacar ainda que a acusada pelo ato também é uma mulher negra, o que reforça a complexidade da ocorrência.
Desde o primeiro momento, nossa equipe se colocou à disposição das autoridades policiais para quaisquer esclarecimentos necessários assim como a Ouvidoria, que fez contato telefônico com a mãe da adolescente na última terça feira (26).
Continuaremos colaborando com as autoridades competentes em tudo que estiver ao nosso alcance, porém não achamos justo nossa empresa seja responsabilizada pelo episódio que, conforme já demonstrado, não envolveu diretamente seus funcionários e cuja apuração está sendo conduzida pelas autoridades competentes."