Área de mata que separa os Complexos do Alemão e Penha virou rota de fugaReprodução/Google Maps

Rio - Investigações das polícias do Rio apontam que a área de mata que separa os Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, é usada de forma estratégica pelo Comando Vermelho (CV) como rota de fuga e também como centro de treinamento da facção. A Serra da Misericórdia, que conecta as duas comunidades, possui uma trilha que leva ao alto dos complexos, facilitando a evasão em momentos de confrontos ou movimentações para invasões.

Em outro ponto, a região abriga a pedreira da Vacaria, no Complexo da Penha, local onde foi gravado um vídeo que mostra um criminoso treinando tiro ao alvo. Nas imagens, divulgadas nesta quinta-feira (30), dois dias após a megaoperação na região, é possível ver um traficante com fuzil atirando contra sete garrafas de vidro. Ao lado dele, um "instrutor" dá orientações: "Respira", diz, quando o comparsa erra os disparos. Veja o vídeo abaixo:


O vídeo faz parte de um material extenso coletado pela Polícia Civil durante um ano de monitoramento das atividades do CV nas comunidades. Com base nesse e em outros elementos, as polícias definiram uma estratégia para encurralar os criminosos justamente nessa área de mata, conforme explicou o secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes, em coletiva de imprensa na terça-feira (28).

Muro do Bope

Foi na pedreira e na Serra da Misericórdia onde ocorreram os confrontos mais intensos e letais da megaoperação. Ao todo, 117 suspeitos e quatro policiais morreram. Desse total, 63 corpos foram encontrados por moradores nesta região.

A tática, intitulada "muro do Bope", funcionou como uma linha de contenção na Serra da Misericórdia. A incursão das tropas começou pela área do Complexo do Alemão, com equipes da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (UPP) ocupando as localidades da Fazendinha e Nova Brasília. O 3° BPM (Méier) atuou nas áreas do Juramentinho e Flexal, enquanto o 41° BPM (Irajá) esteve nas comunidades do Trem e do Ipase, na Vila da Penha. Policiais civis operaram na Vila Cruzeiro, junto com o Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). Por fim, o Bope montou a linha de contenção no ponto mais alto da Serra da Misericórdia.

"Os policiais incursionaram nessa área, fazendo com que os marginais fossem empurrados para o alto da serra. Isso tinha o objetivo claro de proteger a população de bem que mora na região. Nosso principal objetivo era garantir a integridade física dessas pessoas. A grande maioria dos confrontos, posso dizer que quase a totalidade, ocorreu na área de mata", explicou o coronel Menezes.
Reduto do Doca
De acordo com os investigadores, o treinamento de guerra dos traficantes do CV é liderado, atualmente, por Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, de 55 anos. Ele é considerado uma das principais lideranças da facção em atividade no Rio de Janeiro.
O criminoso de altíssima periculosidade conseguiu escapar da megaoperação desta terça-feira (28). Apesar da grande mobilização policial, o bandido da alta cúpula não foi localizado.
Foragido do sistema prisional, ele é investigado por mais de 100 homicídios e figura entre os criminosos mais procurados do estado. Sua extensa ficha criminal inclui envolvimento em execuções de médicos na Barra da Tijuca e de crianças, além do desaparecimento de moradores.