Virada do ano na Zona Sul terá três palcos nas areias de Copacabana e LemeÉrica Martin / Agência O Dia
MPF instaura inquérito para apurar possível discriminação religiosa no Réveillon do Rio
Processo foi iniciado em razão de shows exclusivamente evangélicos no Palco Leme, na Zona Sul
Rio - O Ministério Público Federal (MPF) instaurou, nesta segunda-feira (29), um inquérito civil para apurar possível discriminação religiosa por parte da Prefeitura do Rio em razão das apresentações exclusivamente evangélicas no Palco Leme, na Zona Sul, durante o Réveillon.
O procurador da República, Jaime Mitropoulos, justificou que a apuração tem compromisso com a promoção da diversidade cultural, visando o enfrentamento à intolerância e ao racismo religioso. Mitropoulos destacou a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, bem como a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, da Unesco, como exemplos para instauração do processo.
Segundo o MPF, o escopo inicial do inquérito é ampliar o diálogo entre instituições e a sociedade, buscar a pacificação social mediante possível autocomposição e verificar o que precisa ser implantado, corrigido ou aprimorado para melhor concretização dos objetivos que garantam diversidade e equidade.
O órgão enviou um ofício à Prefeitura do Rio pedindo mais informações sobre os critérios adotados para a definição e a destinação dos recursos públicos para os eventos culturais realizados nas praias durante o Réveillon.
O prazo para resposta foi fixado em até 21 de janeiro, data em que também será realizada reunião, na sede do MPF, com representantes do poder público e de entidades da sociedade civil, com o objetivo de discutir políticas públicas para o enfrentamento da intolerância e do racismo religioso e cultural.
'Fomos excluídos'
O Babalawô Ivanir dos Santos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ativista dos direitos humanos e da liberdade religiosa, contestou a escolha de shows exclusivos para os evangélicos. Segundo ele, as religiões de matriz africana, que são base para diferentes costumes do Réveillon, foram esquecidas neste ano.
"Esta grande festa, como ela é hoje conhecida, teve início com os religiosos de matriz africana indo para a praia referenciar Iemanjá, os orixás, os caboclos e os pretos velhos. Lamentavelmente, essa presença não está hoje tão firme nessa festa. Mais uma vez, pelo segundo ano, a Prefeitura do Rio está patrocinando um palco gospel. Nada contra, mas é muito chato nós sabermos que mais uma vez fomos excluídos. As tradições religiosas e culturais que construíram essa festa não têm recebido a mesma atenção", disse em postagem nas redes sociais.
Santos pediu que haja tratamento igual para todos. "O problema não é o palco. A questão é que, mais uma vez, o poder público promove uma fé específica e inviabiliza as demais manifestações religiosas. O que está em debate não é um evento. É o direito à representação, ao reconhecimento cultural e à igualdade religiosa no espaço público. Queremos ser tratados com equidade e que a prefeitura respeite a diversidade", destacou.
O pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, usou as suas redes sociais para rebater o babalawô. De acordo com o religioso, Ivanir foi preconceituoso com os evangélicos.
"Você está reclamando de um palco gospel na virada do ano na praia de Copacabana. Vou refrescar sua memória: toda a orla, não só de Copacabana, mas de todas as praias, são tomadas por oferendas de cultos de matriz africana. Nos palcos principais, cantores vinculados a essas religiões tem o protagonismo. Você está mostrando o seu preconceito religioso. Quer aparecer? Pendura uma jaca ou melancia no pescoço! Um ano abençoado para todos em nome de Jesus, independente da sua religião", escreveu.
Discriminação
Nesta terça-feira (30), o prefeito Eduardo Paes (PSD) destacou que estão realizando uma discriminação com a música gospel. Segundo ele, a virada do ano em Copacabana, na Zona Sul, será para todos os públicos.
"Na minha percepção, está havendo uma enorme discriminação com o gênero musical que acabou de ser considerado patrimônio cultural pelo presidente Lula. Quase 25% dos cariocas têm o gênero gospel como predileto. O pessoal que gosta de música gospel tem uma vibração diferente. Venham para Copacabana. Tem o palco samba e tem bastante axé ali. Tem figuras ecléticas que valem para todos os gostos no palco principal. Tem o palco gospel respeitando o povo cristão. Tem todo mundo junto, como um cristão vendo uma pessoa fazendo oferenda para Iemanjá. É isso o Rio de Janeiro que a gente quer. Todo mundo misturado, sem preconceito", comentou.
O palco Leme, motivo da instauração do inquérito pelo MPF, celebra o fim de 2025 com shows dos artistas da música gospel, como o DJ Marcelo Araújo e os cantores Midiam Lima, Samuel Messias, Thalles Roberto, além do grupo de pagode evangélico Marcados.
O palco principal, em frente ao Copacabana Palace, vai receber shows de Gilberto Gil e Ney Matogrosso, João Gomes e Iza, Belo e Alcione, DJs Alok e Cady, e a bateria da Beija-Flor.
Já na altura da Rua República do Peru, a Palco Samba recebe shows de Roberta Sá, Mart'nália, Diogo Nogueira e o Bloco da Preta, comandado por Feyjão, além da bateria da escola de samba Grande Rio.




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