Fiéis entregaram flores no batistério público no Jardim do MéierFred Vidal / Agência O Dia

Rio - Grupos religiosos se reuniram, nesta sexta-feira (2), para uma manifestação na Praça Jardim do Méier, na Zona Norte, onde a Prefeitura do Rio inaugurou o primeiro batistério público do município. O espaço, utilizado para batismo por imersão como forma de simbolizar a nova vida em Cristo, conta com uma bíblia cenográfica e uma cascata d’água. Lideranças da Umbanda e Candomblé listaram a construção como uma das ações que privilegiam um único segmento religioso e criticaram o uso da verba pública utilizada para a estrutura.
Durante o ato, os fiéis cantaram louvores, levantaram cartazes e entregaram flores nas águas do batistério. Pai Alex de Oxalá, coordenador do movimento Umbanda Rio, também citou que o grupo já havia alertado a respeito da montagem de um palco gospel no Réveillon de 2024 para 2025, mas a estrutura voltou à Praia de Copacabana nesta virada. O caso, inclusive, está sendo apurado pelo Ministério Público Federal (MPF) como uma possível discriminação por parte do Município. A liderança pedirá a retirada da bíblia para que o espaço seja aproveitado por outras religiões que praticam o lavar a cabeça e o batismo.

"A defesa do prefeito é de que a musicalidade gospel, a cultura gospel tinha espaço. A gente não tem nada contra a musicalidade de qualquer outra tradição religiosa, a gente só quer que todas tenham espaço. A questão são os valores envolvidos de uma monta absurda, que são direcionados especificamente a um tipo de tradição, um tipo de comunidade, visando esse tipo de eleitorado. Ou seja, não existe diversidade, equidade e respeito", lamentou o sacerdote.

"As igrejas evangélicas têm muito dinheiro, são muito bem estruturadas, ou seja, eles já têm esses recursos. O que deveria ser feito é direcionar esses recursos para aqueles que estão notoriamente desprotegidos e são as maiores vítimas de intolerância. As águas também são de todos e não só do segmento que teve o privilégio de ter o batistério exclusivamente para eles. Quero convidar também os nossos irmãos de matriz africana, que tem nas suas liturgias e práticas religiosas o lavar a cabeça e o batizar, que usem o batistério público. Vamos pedir que retirem a bíblia para que todos batizem seus filhos. Já que é público, tem que ser de acesso de todos", concluiu.

Alex de Oxalá ainda destacou a importância cultural das religiões de matriz africana para as festas de virada de ano no Rio e citou a história do sacerdote Tata Tancredo, apontado como o responsável pela idealização da celebração na Praia de Copacabana. Na última semana, o evento recebeu a premiação do Guinness Book como maior Réveillon do mundo.

"Temos uma cultura enorme, que inclusive fez com que a festa de Réveillon acontecesse. Tata Tancredo da Silva Pinto foi um grande sacerdote que, a partir dessa mobilização dos terreiros, começou a fazer a festa, do branco, das flores... Em nenhum momento fomos reconhecidos como criadores dessa festa. Teve uma premiação do Guinness e essa premiação deveria ser entregue aos descendentes de Tancredo, que começou essa tradição na década de 50", explicou.

Nas redes sociais, o prefeito Eduardo Paes pediu desculpas aos praticantes de religiões de matriz africana e anunciou a criação de uma estátua em homenagem a Tata Tancredo.

"Peço novamente desculpas sinceras se algum post meu ofendeu praticantes dessas religiões. Essa nunca foi — e nunca será — minha intenção. O gênero musical gospel teve mais um ano de sucesso nas areias do Leme, dentro de uma programação plural, diversa e democrática, que é a marca do Rio. Por fim, registro que a sugestão para a criação de uma estátua em homenagem a Tata Tancredo será atendida. Vou dialogar com lideranças religiosas para construir, juntos, a melhor forma de fazer essa homenagem tão importante para a cidade. Com isso vamos valorizar a ancestralidade africana reafirmando o compromisso da cidade com a liberdade religiosa e reconhecendo líderes que ajudaram a construir o Rio", publicou o prefeito.
Leonardo Mattos de Xangô é coordenador do Fórum dos Presentes de Iemanjá do Estado do Rio e integrante do Instituto Carta Magna da Umbanda. Durante o ato, ele criticou a falta de ações públicas em prol de minorias quantitativas religiosas.
"A Lei Orçamentária Anual da cidade acabou de ser votada e não tem nada para os povos de terreiro. São R$ 52 bilhões. Sem contar o Governo do Estado com R$ 90 bilhões e nada também para a gente. Mas tiveram R$ 7 milhões para patrocinar o show da virada de outro segmento religioso no Maracanã, fora o Réveillon com palco gospel. Fui gestor na Prefeitura do Rio durante cinco anos e criei 13 políticas públicas para o povo de terreiro que estão lá, em 'stand-by', guardadas, sem orçamento... Não é porque a gente tem 90% do país cristão que temos que dar 90% do orçamento da diversidade religiosa destinado a esse grupo", criticou.
"A gente tem que evitar a tirania da maioria e a gente tem que evitar o poder de veto da minoria. Não é porque você é a maioria que você precisa mandar em tudo, sequestrar os orçamentos e as políticas. Também não porque você é minoria que tem que vetar tudo que a maioria quer fazer. Tem que haver um equilíbrio", acrescentou.
Andressa Oliveira, integrante da coordenação estadual do Movimento Negro Evangélico, ressaltou que não havia qualquer demanda pela construção de um batistério público. Além disso, destacou que a própria praça tem outras necessidades mais urgentes, como banheiro e bebedouro.
"Como evangélica, eu estranhei muito. Ninguém nunca pediu um batistério para a prefeitura. E não há nenhum registro que tenha sido algo de algum vereador ou algum grupo evangélico. É muito estranho que o poder público tenha gasto quase 250 mil reais em algo que ninguém pediu. Na praça, não tem um bebedouro, não tem banheiro, mas foi gasto isso para construir um batistério. Se algum cidadão tiver passando mal por causa do calor e precisar entrar nessa água, é proibido. Então, ele serve para que? Para nada. Isso não foi uma demanda nossa", afirmou.
Pai Marcelo de Xangô, presidente nacional do Instituto Carta Magna da Umbanda, reforçou que a manifestação não foi contra a construção do batistério, mas sim uma crítica ao privilégio dado a segmentos religiosos por parte do Município.
"Eu acho que devem existir monumentos, mas não apenas de um segmento. A construção do batistério não é nem o foco da nossa proposição. Ele fere a partir do momento em que passa a privilegiar uma religião em detrimento de outra. A questão não é o palco ou o batistério, é questão dos privilégios", explicou.