Rio - Os bairros de Copacabana e do Leme, na Zona Sul do Rio, ainda têm pontos sem energia elétrica, na manhã desta segunda-feira (5). A região está sem fornecimento há cerca de 40 horas, depois de furtos de cabos na tarde do último sábado (3), que provocaram danos à rede elétrica. O episódio, segundo moradores, também afetou o abastecimento de água da área.
fotogaleria
De acordo com a Light, a falta de energia ocorreu por sobrecarga no sistema, após o furto de cabos da rede subterrânea. A concessionária chegou a informar nas redes sociais, no fim da noite de domingo (4), que o fornecimento havia sido totalmente restabelecido no Leme e Copacabana. Entretanto, moradores da região negaram a volta do abastecimento.
"Mentira, vários prédios ainda sem luz. No meu, só alguns apartamentos voltaram, o meu continua apagado, durou 30 minutos a luz ontem à noite", afirmou uma moradora. "Mentira, os sinais ainda estão sem energia. Onde estou, o funcionamento está no gerador", apontou outra. "Mentira. O Leme está quase todo desligado. Em alguns pontos, há duas fases funcionando", comentou mais um. "Parou 20 minutos depois!", destacou um comentário. "Continua sem luz aqui na divisa do Leme com Copa", relatou um morador. "Luz voltou em que parte do Leme? Porque onde eu moro não voltou", se queixou outro.
Ao DIA nesta segunda, a Light informou inicialmente que o fornecimento havia sido restabelecido nas regiões do Leme e de Copacabana. Entretanto, após relatos de moradores que ainda estão sem energia na manhã de hoje, a empresa apontou que ainda pode haver casos pontuais, "uma vez que as equipes seguem atuando no local". Ainda segundo a concessionária, agentes foram direcionadas para verificação e restabelecimento e geradores apoiam a conclusão dos trabalhos na rede elétrica.
A falta de energia também afetou o abastecimento de água nos bairro e, de acordo com a Águas do Rio, equipes estão acompanhando a retomada da operação do sistema de abastecimento. "Até que o fornecimento seja normalizado, a concessionária orienta os moradores a utilizarem a água armazenada em cisternas e caixas d’água de forma prioritária, somente em atividades essenciais", alertou a empresa.
Procurada, a Polícia Civil afirmou que,através da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) e de suas distritais, investiga a ação de grupos criminosos na região e diligências seguem em andamento para identificar e prender envolvidos em roubos e furtos de cabos no Rio.
"Desde setembro de 2024, os agentes realizaram mais de 430 fiscalizações em ferros-velhos, com cerca de 200 prisões de responsáveis pelos estabelecimentos nestas ações. Neste mesmo período, cerca de 300 toneladas de fios de cobre e materiais metálicos foram apreendidas pela especializada. Além disso, houve o pedido de bloqueio de aproximadamente R$240 milhões, consolidando a Operação Caminhos do Cobre como uma das maiores ofensivas contra a infraestrutura financeira do crime patrimonial no Estado", apontou a corporação.
Comerciantes e moradores relatam prejuízos
A esteticista Lisângela dos Santos, de 52 anos, conta que estava com o salão de beleza, na Avenida Prado Júnior, cheio por volta das 13h do último sábado, quando o estabelecimento começou a ter picos de luz, até que ficou totalmente sem energia. A profissional lembra que tinha a agenda cheia, com clientes até às 21h, mas sem previsão para o restabelecimento, ela precisou desmarcar todos os atendimentos.
"Tive um prejuízo bem grande. Meu esposo é micropigmentador e estava fazendo uma sobrancelha definitiva no momento. A cliente fez uma sobrancelha, a outra não tinha condições de finalizar, porque não tinha luz. A senhora teve que sair daqui sem fazer uma sobrancelha e retornar e a gente improvisar uma luz para ele poder terminar. A gente precisou desmarcar os clientes, porque a gente ficou sem luz, sem internet. A luz só voltou hoje de manhã e não temos certeza se pode cair de novo", desabafou Lisângela.
Dona de uma loja de roupas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Raquel Franco, 59, lembra que o quadro de luz do estabelecimento fez sons de estouro antes da energia ser interrompida e que chegou a acreditar que o estabelecimento pegaria fogo.
"Tinham clientes na loja comprando, nós ficamos com medo e desligamos a (chave) geral (do disjuntor). Fui lá fora e descobri que estava todo mundo sem luz, mas achei que fosse ser uma coisa que ia voltar logo. Ontem, voltei para a loja achando que tinham solucionado, mas nada de luz. É um prejuízo enorme, porque não conseguimos vender no sábado, nem domingo e já estamos com o comércio em queda. É um prejuízo muito grande ficar mais de 24 horas sem luz", lamentou a comerciante, que relatou que apesar de ter um gerador em frente à loja, o prédio onde fica o estabelecimento não foi atendido.
Morador da Rua Belfort Roxo, o aposentado Paulo Medeiros, de 77 anos, relata que a mulher dele, Nildete Medeiros, não conseguiu sair de casa durante o apagão e que a filha da casal precisou subir mais de dez lances de escada para levar comida para eles, já que o elevador do edifício onde moram não estava funcionando, pela falta de energia.
"A Light deixou a gente sem luz desde sábado, às 15h, e só voltou domingo às 22h. Nós somos idosos, minha filha teve que se deslocar da casa dela para levar comida para a gente, subir 14 andares a pé, com comida, para atender nossas necessidades. Ficamos sem celular, sem televisão, sem alimentação, elevador. Para pessoas idosas, é uma dificuldade".
A manicure Denair Arruda, 65, recebia visita no apartamento onde mora, na Rua Belfort Roxo, mas sem luz, precisou se despedir dos familiares mais cedo. "Eu estava com a casa cheia de filhos, netos, um calor 'danado' e ainda tinha um bebezinho de três meses. Eles iam ficar mais tempo, mas tiveram que ir embora ontem. A gente não dormiu direito, muito calor. Nunca faltou energia assim, mas eles roubam mesmo os cabos. A gente continua sem luz, o prédio está só com o gerador, o elevador não está funcionando", disse a moradora, que mora no quarto andar, mas tem dificuldades de subir e descer escadas, por problemas na coluna e joelho.
Autoridades cobram explicações
No domingo, o prefeito Eduardo Paes publicou em seu perfil que estava cobrando providências da Light e que determinou que as equipes da Prefeitura do Rio acompanhassem a situação até o restabelecimento da energia. A Guarda Municipal informou que intensificou a fiscalização na região e a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio) atua com agentes de trânsito para garantir a segurança viária, depois que semáforos dos bairros ficaram apagados.
A Defensoria Pública do Rio de Janeiro declarou ter intensificado a atuação diante de falhas graves na prestação de serviços públicos essenciais, que afetam moradores de diferentes regiões da cidade em meio a um período de calor extremo. O Núcleo de Defesa do Consumidor encaminhou ofício à Light solicitando esclarecimentos e providências urgentes para o restabelecimento do serviço.
O órgão pontua que a falta de energia "expôs moradores a riscos à segurança, perda de alimentos e medicamentos, além de intensificar o desconforto térmico durante a onda de calor" e ressaltou que, "mesmo diante da alegação de furto de cabos, a concessionária mantém responsabilidade objetiva e deve dispor de equipes de contingência para resposta célere".
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.