A dor, muitas vezes, pode até ser silenciosa, mas a confusão emocional que a saúde mental abalada pode fazer é de 'enlouquecer' qualquer um, tanto quem a sente como quem está em volta como familiares e amigos. Não à toa a Campanha Janeiro Branco de 2026 tem como tema 'Paz. Equilíbrio. Saúde Mental' com o objetivo de expressar o desejo da sociedade de viver com mais sentido, menos exaustão, menos estresse, sem depressão e com relações mais saudáveis.
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Nesse contexto, a identidade visual do Janeiro Branco 2026 adota o post-it como símbolo central, um objeto cotidiano, antes associado a prazos e cobranças, agora ressignificado como espaço de pausa, consciência e cuidado.
Para o psicólogo e idealizador da Campanha Janeiro Branco, Leonardo Abrahão, a escolha do tema e do post-it representam uma oportunidade estratégica e passa a ser consciência, convite e pacto pela saúde mental, Leonardo viu em janeiro, primeiro mês do ano, uma janela de oportunidade que funciona como uma folha em branco uma página aberta para que as pessoas possam reescrever suas histórias.
A mobilizadora oficial do Janeiro Branco no Rio de Janeiro, a psicóloga Adriana Barbosa, fala sobre as ações que estarão acontecendo na cidade como palestras, debates e a colocação de post-its. "No Rio, a cada passo sob o sol, um sorriso pela saúde mental! Endorfina e alto-astral para cuidar do nosso bem-estar.A energia da cidade, o benefício físico do sol e da endorfina, é o objetivo principal da campanha, para o cuidado da mente", afirma. Para a psicanalista Graça Duarte, ainda há esperança. "Em tempos de violência, a mente precisa acreditar que existe um caminho de empatia, cuidado e diálogo, que nos conduz ao bem-estar".
A psiquiatra e psicóloga Lidiane Silva diz que o Janeiro Branco é uma campanha fundamental para a promoção da saúde mental, pois convida a sociedade a refletir sobre o cuidado emocional de forma preventiva, e não apenas quando o sofrimento já se tornou intenso. "Na psiquiatria, sabemos que transtornos mentais, em grande parte, se desenvolvem de maneira progressiva e silenciosa, e iniciativas como essa ajudam a romper o estigma, incentivar o autoconhecimento e estimular a busca por ajuda profissional".
Para a psicóloga Alice Araujo, o Janeiro Branco é um convite para olharmos para a saúde mental de forma preventiva e responsável. "Emoções, pensamentos e comportamentos estão profundamente conectados e quando não são reconhecidos e cuidados, podem gerar sofrimento emocional, dificuldades nos relacionamentos e prejuízos no dia a dia", diz a especialista.
Recomeços e frustrações
O médico especialista em saúde mental Iago Fernandes compartilha do pensamento de Abrahão e de Lidiane acha que o Janeiro Branco ajuda a trazer esse tipo de discussão para o centro do debate público. "Janeiro simboliza recomeços, mas também pode escancarar frustrações, cobranças internas e ansiedade. Falar sobre saúde mental nesse período ajuda as pessoas a se organizarem emocionalmente para o ano que está começando", afirma.
Iago reforça que muitas vezes quem está em sofrimento não percebe a gravidade do quadro."A pessoa tende a achar que é só uma fase ou que está exagerando. Por isso, o olhar de quem convive é essencial. Quando alguém próximo percebe mudanças de comportamento, o incentivo à busca por ajuda profissional pode ser decisivo", explica. Ele lembra que o tratamento pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico e, em alguns casos, uso de medicação.
Famosos também sofrem
Se pessoas comuns passam por esses problemas de saúde mental, o que dirá os famosos que lidam com críticas o tempo inteiro, principalmente em tempos de internet. O cantor, ator e ex-BBB Fiuk é um exemplo. No início deste ano postou um vídeo sobre depressão e traumas de infância nas redes sociais remetendo, inclusive, ao contato com o pai, o cantor Fabio Jr. Fãs passaram a interpretar o conteúdo como um possível pedido de ajuda, tema que ganhou ainda mais visibilidade por surgir durante o Janeiro Branco.
Para a psiquiatra Jessica Martani, é preciso cautela ao interpretar manifestações artísticas. "As formas de comunicação mudaram e hoje uma das principais formas de expressão da contemporaneidade é pelas redes sociais. No caso dele, que é artista, a música é uma linguagem legítima de expressão emocional. Não dá para inferir se isso é um pedido de ajuda, mas certamente é uma forma de expressar tristezas e pensamentos", explica.
O vídeo também trouxe à tona a relação entre infância e saúde mental na vida adulta. De acordo com a psiquiatra, essa fase é determinante para a formação da personalidade. "Do ponto de vista científico, a infância é o período em que mais ocorrem as chamadas podas neurais, quando o cérebro está em constante transformação. Experiências traumáticas como abandono emocional, negligência, violência ou ambientes instáveis podem deixar o sistema de estresse hiperativado", afirma.
O episódio contribui ainda para ampliar a compreensão sobre os sinais da depressão, que nem sempre são óbvios. "Muitas pessoas acreditam que o principal sinal da depressão é a tristeza ou a vontade de chorar, mas o mais importante é a perda de prazer nas atividades que antes eram prazerosas", destaca Dra. Jessica. Alterações de sono, apetite, lentificação do pensamento e dos movimentos também podem indicar o transtorno.
Para Lidiane Silva, as redes sociais intensificam a exposição à comparação constante, à validação externa, às críticas e aos julgamentos, muitas vezes de forma agressiva e imediata. Isso pode potencializar quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e sensação de inadequação, especialmente em pessoas que já apresentam alguma vulnerabilidade emocional.
"No caso de figuras públicas, como artistas, esse impacto tende a ser ainda maior, pois há uma cobrança contínua por desempenho, aparência e posicionamento. Ao mesmo tempo, o desabafo público pode ser um pedido de ajuda simbólico e uma tentativa de aliviar a sobrecarga emocional", finaliza.
Trabalho precisa ser saudável e prazeroso
Além das questões pessoais, o trabalho é de suma importância para que haja uma saúde mental equilibrada. Afinal, a maioria da população passa cerca de um terço do seu dia trabalhando, o que significa que felicidade no trabalho é um fator extremamente importante para assegurar a qualidade de vida de um indivíduo e como se refletirá em sua família, amigos, sociedade.
De acordo com Angela Caputo, cientista da Felicidade e Educadora Emocional, Ceo do Instituto Felicidade Existe, a grande pergunta do momento é - O que os líderes podem fazer para cuidar da saúde mental dos seus liderados. Afinal, o Brasil está entre os cinco países mais adoecidos emocionalmente, principalmente quando a questão é trabalho.
Mas o que é necessário para ser um líder positivo? É preciso, primeiramente, que ele se cuide, se conheça, esteja emocionalmente bem saudável, inteiro, afinal, ele é o capitão do barco e só assim poderá se dedicar a aplicar os preceitos da Psicologia Positiva, a Ciência da Felicidade, um movimento científico criado pelo psicólogo Martin Seligman em 1990 e que ganhou destaque por propor uma nova forma de olhar para o bem-estar e a felicidade, buscando investigar e cultivar a vida mais plena e feliz, valorizando nossa melhor versão.
Características de um líder positivo, segundo Angela Caputo
• promover segurança psicológica; • facilitar ambientes mais felizes • identificar e se dedicar a reduzir o sofrimento que por ventura o trabalho possa causar; • reconhecer o trabalho de seu liderado; • conferir autonomia e clareza de papéis; • estimular relacionamentos saudáveis entre suas equipes; • exercer uma comunicação honesta e direta; • ter atitudes empáticas; • compreender que cada indivíduo deve ser tratado como único
Profissionais emitem opinião
Um Líder Positivo vai sempre basear suas ações no bem-estar emocional de seus liderados, estimulando as emoções positivas e a satisfação no trabalho, gerando engajamento, trazendo, com suas próprias atitudes como exemplo, um maior senso de propósito e pertencimento. Veja o que falam outros profissionais que lidam com a saúde mental na vida e no trabalho e sobre o Janeiro Branco
Dr. Nelio Tombini - Psiquiatra e Psicoterapeuta - Autor dos livros: 'A arte de ser infeliz-desarmando armadilhas emocionais' e 'Não deixe a vida te maltratar'. Ambos versam sobre saúde mental e gestão emocional.
"Infelizmente, a psiquiatria é uma das especialidades mais rejeitadas da Medicina, pois ainda existe um forte preconceito da sociedade, e também dos pacientes, com as doenças mentais. Mesmo a pessoa sofrendo em decorrência de um transtorno mental esconde dos outros seu mal-estar, com receio de se sentir diminuída diante da sociedade. Este fenômeno não acontece com as doenças ditas físicas. Quem tem pressão alta, chega no trabalho e divide com os colegas e recebe conselhos e solidariedade, Basicamente as doenças mentais têm duas origens. Por problemas químicos cerebrais e genéticos, como: transtorno bipolar, transtornos obsessivos, hiperatividade com déficit de atenção, esquizofrenia etc. Estas doenças precisam ser tratadas com medicações. O segundo grupo derivada de traumas existenciais, perdas, lutos, que podem ocorrer no desenvolvimento da vida. Quando ocorrem na infância deixam mais sequelas. Estes sintomas também podem ser tratados com medicações, mas as psicoterapias são fundamentais para o paciente entender a origem inconscientes destes sofrimentos e escapar destas armadilhas que carrega em sua mente sem perceber. Quem tiver mais intimidade com sua vida emocional, sofrerá menos e terá relações mais harmoniosas."
Cíntia Pedrazzoli, Psicóloga e Consultora de Saúde Mental Corporativa
"Há anos observamos um crescimento expressivo dos problemas de saúde mental no Brasil e no mundo. Com a atualização da Norma Regulamentadora 01, do Ministério do Trabalho e Emprego, iniciamos um novo ciclo, no qual as empresas passam a ser efetivamente fiscalizadas quanto à gestão da saúde mental em seus ambientes de trabalho. A NR-01, que estabelece diretrizes para a segurança e saúde no trabalho, passa a exigir a identificação, avaliação, adoção de medidas e o monitoramento dos riscos psicossociais, relacionados à organização do trabalho, às relações interpessoais e às condições laborais, capazes de afetar a saúde mental, emocional e social das pessoas e, consequentemente, os resultados das empresas. Na prática, isso significa ir além do discurso e estruturar ações concretas para prevenir o adoecimento mental e promover ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis. Colaboradores, lideranças e empresários precisam estar atentos e assumir um papel ativo na construção de uma cultura que promova saúde, e não adoecimento."
Dr. Diogo Abrantes Andrade – Psiquiatra
"Janeiro Branco é sobre aprender a ler o próprio funcionamento mental. Todo mundo sofre em algum momento, e sofrimento não é sinônimo de doença. O problema começa quando sinais de adoecimento surgem — insônia, irritabilidade, queda de rendimento ou isolamento — e são ignorados, escondidos ou tratados com soluções improvisadas. Nesse momento, evitar a busca por ajuda costuma agravar o quadro. A automedicação pode atrasar o cuidado e trazer efeitos colaterais sérios. Procurar acompanhamento não é sinal de fraqueza e muito menos de loucura, mas de coragem e determinação em ficar bem. Cuidar da mente não é um ato pontual nem uma promessa de felicidade; é uma prática contínua que, em muitos momentos, exige suporte profissional."
Veruska Galvão – Psicóloga Organizacional
"O adoecimento emocional no trabalho tem causas majoritariamente organizacionais e está diretamente ligado à forma como a liderança conduz pessoas, metas e relações. Pressão excessiva, medo, falta de escuta, incoerência entre discurso e prática e metas desumanizadas ampliam os riscos de adoecimento. Os sinais aparecem no silêncio das equipes, na queda de engajamento, no aumento do turnover e nos afastamentos por saúde mental. O problema é que grande parte das lideranças não foi preparada para lidar com esse contexto emocional e relacional cada vez mais complexo. Por isso, preparar líderes para desenvolver escuta ativa, segurança psicológica, clareza de papéis e gestão saudável de metas deixou de ser opcional e se tornou uma estratégia essencial para proteger pessoas, resultados e a sustentabilidade dos negócios”.
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