Pais e atletas denunciaram o caso na 34ªDP (Bangu)Érica Martin/Agência O DIA

Rio - Mais de 40 atletas, a maioria deles menor de idade, saíram da comunidade do Catiri, em Bangu, na Zona Oeste, na quarta-feira (7), com a promessa de participar do campeonato Copa Cidade Verde, no Rio Grande do Sul, mas tiveram os sonhos interrompidos ao chegarem em São Paulo. Ao DIA, familiares relataram que o dirigente Fabrício Feijó fugiu com todo dinheiro arrecadado e que seria destinado a transporte, alimentação e até hospedagem, deixando os meninos sem ter como seguir viagem. Segundo a denúncia, o valor é de aproximadamente R$ 50 mil.

Os jogadores são da Sociedade Esportiva de Búzios. O clube, no entanto, publicou uma nota nas redes sociais informando que não teve qualquer participação ou responsabilidade direta na organização, na logística, na arrecadação de valores ou na execução da viagem.

Ainda de acordo com relatos, a parada na cidade paulista não estava programada e todos foram surpreendidos com a notícia de um amistoso, já que pagaram apenas para seguir até o Sul.

Segundo a empresária Pamella Mesquita, de 36 anos, mãe do goleiro Iuri Mesquita, 14, os valores pagos pelos atletas variavam de R$ 800 a R$ 1.500. Ao todo, seriam duas partidas programadas, uma para o Sub-14 e outra para o Sub-17, o que causou grande expectativa para os participantes.
"A gente não sabia desse jogo em São Paulo, mas ficamos feliz. Eles jogaram em São Paulo, o time sub-17 ganhou e o sub-14 empatou. Inclusive, um dos técnicos lá de São Paulo falou do meu filho, para ele ficar em São Paulo e poder jogar lá. Os meninos ficaram todos felizes, porque estavam vendo que realmente era uma oportunidade para eles. Falaram que já tinha até time aguardando para, quando passasse esse campeonato, chamá-los para jogar profissionalmente", contou.
Logo depois da partida, porém, o dirigente foi embora e não deu mais notícias. O grupo só conseguiu retornar ao Rio na manhã desta sexta-feira (9).
"Depois que eles acabaram de jogar, chegou o tal do Fabrício, que era o diretor do time. Pegou as coisas dele no ônibus e foi embora. Ele não pagou o ônibus e eles não tinham como continuar a viagem para Porto Alegre. Esse cara tinha fugido com mais de R$ 50 mil, não pagou o campeonato dos meninos e eles não tinham como ir. Eles ficariam dois dias jogando e hospedados em hotel", explicou.
Pamella relatou ainda que toda história provoca uma grande frustração, pois os meninos lutaram muito para conseguir pagar a participação.
"Muitos meninos não tinham nem dinheiro, os pais faziam rifas. Meu filho foi um deles. Fez uma rifa para ajudar a pagar os custos. E a conclusão foi o desespero, porque eles ficaram simplesmente largados em São Paulo, com estranhos e pessoal da comissão técnica, e ninguém sabia de nada. Nisso, ficou aquele desespero de como eles iriam voltar", acrescentou.
Segundo ela, o ônibus em que o grupo conseguiu voltar para casa apresentou diversos problemas no caminho. "Eles arrumaram um ônibus para voltar, mas quebrou. Eles ficaram horas parados na pista, esperando um mecânico. Eles sairam de São Paulo por volta das 23h e as crianças já estavam sem água. Tiveram que juntar pra comprar lanche, fizeram uma vaquinha. Quando eles chegaram, eu trouxe logo meu filho para casa, porque ele estava totalmente transtornado", disse.
Pamella reforçou que, desde o fim do jogo em São Paulo, passou momentos de angústia, preocupada com o retorno de Iuri.
"Eu fiquei desesperada, passei a noite inteira sem dormir. Sou dona de um salão de beleza e precisei abrir, porque a agenda das meninas que trabalham comigo estava cheia. Eu não tinha como ir até São Paulo e fiquei desesperada, sabendo que eles voltaram de madrugada em um ônibus que já tinha quebrado antes. A estrada entre São Paulo e o Rio é perigosa, e a gente ficou aqui sem saber o que fazer, com medo de receber uma má notícia", afirmou.
A maior preocupação da mãe foi com o lado psicológico das crianças. “Dinheiro a gente recupera. Meu filho apostou tudo nisso, vendeu rifa, a gente trabalhou e se esforçou muito. Tivemos que comprar uma luva profissional de R$ 400, além do valor da viagem pago pelo pai dele. No total, gastamos quase R$ 2 mil ou mais. Também compramos comida, remédios e até colchão inflável, porque eles ficariam alojados por cerca de 20 dias", finalizou.
Jogador lamenta prejuízo

Um dos atletas, o jogador Marcos Abrão, 19 anos, disse que foi enganado pelo dirigente, que prometeu até mesmo uma vaga em um clube do Espírito Santo.

"Pela minha idade eu já achava que não poderia ir, mas ele falou que no campeonato o regulamento permitia. Eu estaria indo só para gravar meu CD, que eu já estaria num clube. Ele me mostrou mensagens, prints, então parecia muito real, por isso eu me joguei de cabeça né. Minha dívida foi alta pra caramba, R$ 4.500. Ele falava muito comigo todo dia, falou com meu pai, conversou com a minha família. Ele prometia muito, parecia um cara muito gente boa, não dava pra desconfiar, ele pagou academia, fez tudo pra mim", disse.

O atleta afirmou  que Fabrício alegou que não tinha o restante do pagamento do transporte para seguir viagem, mas todos os jogadores já tinham realizado o pagamento.

"Querendo ou não, era um campeonato grande, tem muito talento que o nosso time, estávamos muito fortes. O Emerson (treinador) montou um time muito bom, e a gente estava na expectativa porque o time estava entrosado e bem. Querendo ou não é um sonho jogado fora", lamentou.
Comissão técnica não sabia do golpe
A assessora Sharlene Almeida, 44 anos, é mãe de Matheus Almeida, 19, estagiário de Educação Física da comissão técnica, e madrasta de um dos atletas de 15 anos, que estavam no ônibus.

"A minha preocupação maior era colher provas, era falar com a empresa de ônibus para conseguir mecânico, para conseguir levantar os dados dos envolvidos, nome, telefone... E eles verem rostos familiares para que pudessem se sentir acolhidos. Eram 40 e poucas crianças, que nós deixamos na quarta-feira, às 3h, e ontem (quinta) não tinha uma figura que fosse segura para eles", afirmou.

Sharlene foi à 34ªDP (Bangu) na manhã desta sexta-feira (9) para registrar uma ocorrência contra o dirigente e relatar os fatos. Ao DIA, ela explicou que chegou a encontrar com os meninos no caminho, enquanto eles voltavam para o Rio.

"Quando descobri que as crianças estavam lá em São Paulo, sem água, sem alimento, desesperados, abandonados, a gente entrou em pânico. Foi aí que eu falei com algumas pessoas e fomos atrás deles. Só que a gente conseguiu encontrar ele no meio do caminho, porque nesse meio tempo teve (o socorro) mecânico", explicou.

A assessora disse ainda que a empresa de ônibus contratada havia se recusado a deixá-los na delegacia, mas que conseguiu apoio policial na Avenida Brasil e que o dono também prestou depoimento.

"O dirigente que sumiu com o dinheiro era o desonesto. E o suposto dono do clube diz que não é dono, mas mas a casa dele é toda pintada com o escudo. É a coisa mais bizarra do mundo", relatou.

O integrante da comissão técnica Emerson Reis, 22 anos, explicou que foi contratado por Fabrício para construir um time de jovens atletas há cerca de três meses para o campeonato no Rio Grande do Sul.

"Ele me contratou para montar um time, falou que gostou do meu currículo, cobrou uns R$ 1.500 de cada atleta. No dia da viagem, já teve alguns atrasos, estranhamos, mas tudo bem. Depois do jogo de São Paulo, eu soube que faltavam R$ 18 mil para para o ônibus para nos levar ao Rio Grande do Sul. Depois, eu consegui ainda com muita dificuldade fazer contato com ele e ele conseguiu devolver os RG's dos meninos através de uma outra pessoa", reforçou.

Emerson frisou que a equipe foi tão vítima quanto os atletas e que espera uma resposta do presidente do clube e que os adolescentes sejam ressarcidos.

Transporte teria custado R$ 30 mil

Clóvis Martins, 42 anos, também da comissão técnica, disse que, apesar de o time ter pago para seguir até o Sul, o transporte só teve os custos cobertos até São Paulo.

"O transporte custava R$ 30 mil, mas ele dizia para todo mundo que já estava pago. Ao chegar em São Paulo, o motorista passou para os responsáveis que ficaram, que ele só tinha pago R$ 12 mil, faltava um valor de R$ 18 mil. Ele foi inescrupuloso, ceifou um pouco do sonho de alguns. Alguns vão continuar, outros estão na dúvida, mas infelizmente não teremos como ir", lamentou.

O profissional explicou ainda que o dirigente cobrou valores diferentes para os jovens, com diversas promessas.

"Ele marcou um amistoso em São Paulo dizendo que seria contra o Palmeiras, mas, ao chegar ao local, o jogo aconteceu em uma comunidade. Após a partida, os meninos almoçaram e descobriram que, apesar de terem pago pela viagem ao Rio Grande do Sul, o ônibus estava quitado apenas até São Paulo. Ele cobrou valores aleatórios, como R$ 4.500, enquanto outros pagaram R$ 2.000 ou R$ 800, sem um valor fixo para todos. Ele disse que ia fazer a gravação para uns e encaminhar para clubes, essas coisas", disse.

Clóvis só fazia parte da equipe há uma semana e o filho dele também estava entre os atletas. "Meu filho pagou 800 reais, fez rifa, como outros meninos, cataram latinha, porque era um sonho deles. Tínhamos meninos que eram do sub-15 e sub-17, porém nós tínhamos também atletas de 13 anos", contou.

Denúncia de assédio

Na delegacia, um dos atletas, de 15 anos, denunciou ter sofrido assédio por parte do dirigente. No depoimento, o jovem disse que recebeu a proposta e que teria a vida gerenciada em troca de um relacionamento amoroso.
No documento, a vítima afirma que suspeito enviava áudios em formato de visualização única e ainda pedia fotos do atleta sem camisa. O atleta informou, no entanto, que não cedeu às investidas, mas que viajou junto com a equipe para o campeonato.
Procurada, a Polícia Civil ainda não respondeu sobre o andamento da investigação.

Confira a nota do clube na íntegra

"A Sociedade Esportiva Búzios vem a público prestar esclarecimentos acerca das informações que vêm sendo divulgadas envolvendo a viagem de atletas para participação em competição esportiva fora do estado do Rlo de Janeiro. O clube esclarece, de forma categórica, que não teve qualquer participação, ingerência ou responsabilidade direta na organização, logística, arrecadação de valores ou execução da referida viagem, tampouco na condução de recursos financeiros mencionados nas notícias veiculadas.

Ressaltamos que todos os lados estão sendo rigorosamente apurados, com total transparência, a fim de que eventuais responsabilidades sejam devidamente
identificadas. Assim que o Clube tomou ciência da situação, adotou imediatamente as providências administrativas cabíveis.

A Sociedade Esportiva Búzios informa, ainda, que não se omitirá diante dos acontecimentos e que adotará todas as medidas judiciais necessárias, tanto na esfera cível quanto na esfera criminal, para resguardar sua imagem Institucional, apurar responsabilidades individuais e buscar a responsabilização de quem quer que tenha agido de forma irregular ou ilícita.

O Clube reitera seu compromisso com a ética, a legalidade, o esporte responsável e, sobretudo, com o bem-estar e a segurança de seus atletas e respectivos familiares.

Novos esclarecimentos serão prestados assim que houver a consolidação das apurações em andamento."
A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Fabrício. O espaço está aberto para eventuais manifestações.