Priscila Menezes (com megafone) participou de ato no TJRJ com o pai de ThiagoFred Vidal / Agência O Dia

Rio - "Angustiante". Assim Priscila Menezes, mãe de Thiago Menezes Flausino, que morreu baleado por policiais durante uma operação na Cidade de Deus, em agosto de 2023, reagiu ao comentar o adiamento do júri popular dos réus, que aconteceria nesta terça-feira (27). Ela conta que se sentiu desrespeitada com a decisão: "Entendo que foi para desmobilizar a luta, mas vou continuar confiante que a justiça será feita."
O julgamento dos PMs Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria, acusados de homicídio e fraude processual, foi adiado devido a uma divergência sobre uma prova entre a acusação e a defesa. Segundo o Tribunal de Justiça do Estado do Rio (TJRJ), os advogados dos réus pediram o indeferimento da prova, um link juntado pelo assistente de acusação, alegando que não tiveram acesso ao mesmo.
"Trata-se de impugnação de prova juntada. O fato é que a defesa não teve acesso à totalidade da prova disponibilizada no dia 3 de dezembro de 2025. Os julgamentos no Tribunal do Júri têm como um dos seus princípios reitores, não a ampla, porém a plenitude de defesa, razão pela qual entendo que a simples ausência de acesso a uma parte que seja da prova inviabilizam o contraditório no âmbito do julgamento", disse a juíza Elizabeth Machado Louro na decisão do adiamento.
Apesar de aceitar a mudança de data, a magistrada não indeferiu a prova. "A defesa não deu notícia da negativa de acesso e acabou por esta prova não ter sido devidamente examinada pela defesa com vistas ao contraditório. O princípio da plenitude de defesa exige a garantia não apenas formal, mas material e efetiva de seu cumprimento, o que seria impossível na hipótese pelas razões expostas", completou a juíza.
Ao DIA, nesta quarta-feira (27), Priscila destacou que a decisão foi uma tentativa de desmobilizar a luta por justiça em relação ao caso do filho.
"O promotor explicou o motivo do adiamento. A defesa dos policiais disse que não tinha conhecimento dessa prova. Ele explicou que era só eles terem acesso a partir de uma tal data, mas não fizeram isso. No caso, foi uma estratégia mesmo para prolongar e adiar. Eu me senti desrespeitada. A gente fez uma mobilização para poder estar lá. Você fica esperando com a esperança de acontecer o júri, mas depois de horas é avisado que é adiado, com todas as testemunhas presentes. É uma angústia porque vamos ter que aguardar. Não temos o que fazer. Eu entendo que é para desmobilizar a luta", afirmou.
Segundo Priscila, o adiamento não mudou a expectativa para o resultado. A mãe de Thiago contou que segue confiante na condenação dos réus. O júri popular foi remarcado para o dia 10 de fevereiro.
"É angustiante, pois a gente poderia já estar com o resultado. Tem que esperar, não tem o que fazer. Vou continuar confiante que a justiça será feita. Vou trazer esperança para outras mães que não têm os seus casos resolvidos. Vou continuar com fé em Deus. Não estamos inventando o Thiago. Ele era um menino cheio de sonhos, gostava de ir para a escola, era um menino participativo. É o mínimo. Que dia 10 de fevereiro a gente saia com a sala do júri com resposta positiva. A gente estará novamente em busca do mínimo, que é a justiça pelo Thiago e pela covardia que fizeram com o meu filho", finalizou.
Familiares de Thiago também reclamaram da forma de acesso ao júri. De acordo com Priscila, seus parentes não conseguiram nem entrar na sala onde ocorreria a sessão.
"A família dos policiais teve prioridade de entrar na sala e os meus não puderam entrar porque já estava lotada. Nem o pai e a avó do Thiago conseguiram entrar. Soube por eles que as pessoas que trabalham no fórum desrespeitaram a minha família O preconceito e o desrespeito veio de dentro do fórum. Nós somos todos iguais, para tratamento igual, mas não foi isso que aconteceu. Por que a minha família não podia entrar? Eu me senti desrespeitada", contou.
O mesmo sentimento atingiu Diogo Flausino, pai do jovem. Na saída do fórum, na terça-feira (27), ele lamentou. "Organizamos tudo direitinho e somos os últimos a saber. A gente quer sinceridade no caso. Fomos tratados diferentes. As famílias dos policiais sempre são tratadas bem, mas com a gente é diferente. A gente quer que a justiça aconteça. Toda hora adiando", disse.
Questionado sobre as ponderações da família, o TJRJ ainda não respondeu. O espaço está aberto para manifestação.
Relembre o caso
Thiago morreu depois de ser baleado por policiais do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) durante uma operação, na madrugada do dia 7 de agosto de 2023, na Cidade de Deus, na Zona Sudoeste. Segundo o amigo do jovem, que estava junto com ele na moto, os dois circulavam pela comunidade com o veículo quando, em certo ponto, acabaram por perder o equilíbrio e cair. Ele narrou que, enquanto tentavam reerguer a motocicleta, foram surpreendidos com a aproximação de um carro descaracterizado e os ocupantes, que eram quatro PMs, saíram já atirando. Thiago foi atingido por três tiros.
Passam por júri popular os PMs Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria. Os dois respondem pelos crimes de homicídio e fraude processual. Eles estão presos desde maio de 2024. Em junho do ano passado, a Justiça do Rio soltou outros dois acusados: os agentes Silvio Gomes dos Santos e Roni Cordeiro de Lima.
De acordo com as declarações dos policiais em seus interrogatórios, na noite do caso, havia uma operação para coibir a realização de um baile funk irregular. Eles alegaram que estavam usando o automóvel do PM Roni Cordeiro, atendendo a pedido de seus superiores para que pudessem operar dois drones, a fim de monitorar a região e identificar a melhor estratégia para que as equipes pudessem acessar a região.
Os agentes disseram ainda que, com o fim da operação com os drones, foram até um posto de combustível, onde se juntariam aos demais policiais envolvidos na ação, à exceção apenas de Roni, que estava à paisana e voltaria para o batalhão em seu próprio carro.
Ainda segundo os depoimentos, enquanto aguardavam embarcados no veículo, a motocicleta das vítimas teria passado pelo posto. Eles alegaram terem visto Thiago portando uma arma. Os agentes afirmaram que resolveram seguir as vítimas e quando elas caíram com a motocicleta, decidiram abordá-las. Na sequência, Aslan teria, então, descido do banco de trás, atrás do motorista, e ido em direção aos jovens, no momento em que, segundo relato dos réus, teriam sido efetuados disparos contra a equipe.
De acordo com o interrogatório do PM Diego Leal, ele estava sentado no banco do carona e, ao ouvir os tiros, imediatamente saiu do carro e pôde ver Thiago atirando contra a equipe. O agente confirmou que disparou contra a vítima nesse momento.
Já o PM Aslan confirmou que foi o primeiro a desembarcar, relatando que deu ordem de parada para as vítimas, mas que, nesse momento, Thiago teria atirado contra ele, que revidou, efetuando dois disparos contra ele, embora não saiba dizer se foram esses os tiros que o atingiram.