Familiares de Thiago Flausino reclamaram sobre tratamento e adiamento do júriFred Vidal / Agência O Dia

Rio - O júri popular dos policiais militares Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria, acusados de matar o jovem Thiago Menezes Flausino, de 13 anos, em uma operação na Cidade de Deus, em agosto de 2023, foi adiado por divergência de uma prova entre a acusação e a defesa. O julgamento seria realizado na tarde desta terça-feira (27).
Os PMs respondem pelos crimes de homicídio e fraude processual. Eles estão presos desde maio de 2024. Segundo as investigações, os agentes atiraram em Thiago depois que o jovem caiu de moto quando ele e um amigo circulavam pela Cidade de Deus.
Priscilla Menezes, mãe de Thiago, se sentiu mal e precisou de atendimento médico no departamento de saúde do TJRJ.
O adiamento do júri causou revolta nos familiares do jovem. Segundo Diogo Flausino, pai de Thiago, eles foram os últimos a saber sobre a decisão.
"Organizamos tudo direitinho e somos os últimos a saber. A gente quer sinceridade no caso. Fomos tratados diferentes. As famílias dos policiais sempre são tratadas bem, mas com a gente é diferente. A gente quer que a justiça aconteça. Toda hora adiando", disse.
Ana Cláudia Araújo, tia de Thiago, afirmou que viu os familiares dos policiais deixando o Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), mas que a família da vítima não foi avisada do adiamento. Apesar disso, Ana afirmou que a luta em prol de justiça continuará.
"Nem nos informaram de maneira digna. Vimos os familiares dos policiais indo embora. Depois, veio uma pessoa debochando e rindo. Ela falou que não ia se dirigir à gente, apenas à imprensa. A gente ouviu que a audiência foi adiada. Isso é inadmissível, mas só nos fortalece. Estaremos aqui no próximo dia da audiência, mobilizados, pedindo por justiça por Thiago. Isso não vai fazer que a gente desista. Não vai fazer com que a gente volte nenhum passo atrás. Pelo contrário, vai fortalecer a nossa mobilização. Vamos estar aqui mais fortes. Se hoje tinha 30 pessoas, da próxima vez vai ter 50 ou 100. Vamos estar aqui e não vamos desistir de lutar por justiça. Ele era um adolescente e não merecia morrer do jeito que morreu. Nenhuma pessoa merece ter sua vida tirada dessa maneira e dessa forma", comentou.
Por meio de nota, o TJRJ informou que não houve acesso do público externo à plateia do II Tribunal do Júri na tarde do dia 27 de janeiro em razão da redesignação da data do julgamento para o dia 10 de fevereiro
"A redesignação foi definida pelo Juízo na presença de representantes da acusação e da defesa, e seus assistentes, das partes envolvidas. Informamos, ainda, que a senhora Priscila Menezes, por ser testemunha, esteve isolada e sem contato externo, tomando conhecimento da redesignação do júri após a conclusão e assinatura da ata pelas partes", informa a nota.
O júri foi remarcado para o dia 10 de fevereiro, às 9h.
"Trata-se de impugnação de prova juntada. O fato é que a defesa não teve acesso à totalidade da prova disponibilizada no dia 3 de dezembro de 2025. Os julgamentos no Tribunal do Júri têm como um dos seus princípios reitores, não a ampla, porém a plenitude de defesa, razão pela qual entendo que a simples ausência de acesso a uma parte que seja da prova inviabilizam o contraditório no âmbito do julgamento", disse a juíza Elizabeth Machado Louro na decisão do adiamento.
Apesar de aceitar a mudança de data, a magistrada não indeferiu a prova. "A defesa não deu notícia da negativa de acesso e acabou por esta prova não ter sido devidamente examinada pela defesa com vistas ao contraditório. O princípio da plenitude de defesa exige a garantia não apenas formal, mas material e efetiva de seu cumprimento, o que seria impossível na hipótese pelas razões expostas", completou a juíza.
Ato antes de julgamento
Familiares e amigos de Thiago realizaram um ato, nesta terça-feira (27), pedindo justiça e o fim da violência em comunidades. A manifestação ocorreu na frente do TJRJ, no Centro, onde iria ocorrer o julgamento dos PMs.
Priscila Menezes, mãe do jovem, pediu que os agentes sejam responsabilizados pelo crime. Para ela, o resultado julgamento pode, inclusive, ajudar outras famílias que viveram situações semelhantes.
"É um sofrimento para a família. Um júri não ameniza a minha dor, não vai trazer o meu filho de volta, mas a gente quer começar a responsabilizar esses policiais que fazem essas ações nas comunidades. O caso do Thiago eu escuto muito que é diferenciado, pois tinha câmeras e testemunhas. E se não tivesse? O meu filho seria um marginal agora? Tem muitas mães que não tem os seus casos resolvidos ou arquivados por falta de provas. Eu entendo que o caso do Thiago pode mudar isso. Trazer esperança para outras famílias que não tiveram respostas", disse.
Thiago morreu depois de ser baleado por policiais do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) durante uma operação, na madrugada do dia 7 de agosto de 2023, na Cidade de Deus, na Zona Sudoeste. Segundo o amigo do jovem, que estava junto com ele na moto, os dois circulavam pela comunidade com o veículo quando, em certo ponto, acabaram por perder o equilíbrio e cair. Ele narrou que, enquanto tentavam reerguer a motocicleta, foram surpreendidos com a aproximação de um carro descaracterizado e os ocupantes, que eram quatro PMs, saíram já atirando. Thiago foi atingido por três tiros.