Duda foi alvo de ataques em uma postagem no Instagram sobre sua vaga em Medicina na Uerj Reportagem/Instagram

Rio – A estudante Duda Odara, mulher negra e trans, usou as redes sociais para denunciar que tem sofrido ataques, inclusive de cunho transfóbico, nas mesmas mídias, depois de ter anunciado sua aprovação para o curso de Medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). A principal motivação das manifestações são o fato de a vaga ter sido conquistada via sistema de cotas.
“Vai ter trans preta não-binária filha de camelô nesse curso, sim”, publicou Duda, como ela também se apresenta, na rede social X, na segunda-feira (26).
Na sequência, a caloura repostou publicações de outras pessoas, algumas a defendendo, mas outras questionando seus méritos por ter conseguido a vaga via cota, mesmo não sendo oriunda do Ensino Médio público.
Um dos usuários que ataca a aprovação de Duda via cotas é o deputado Estadual Bruno Souza (PL-SC), que em um vídeo publicado no Facebook, se refere à estudante insistentemente pelo pronome “ele”, quando, na verdade, ela é uma mulher trans.
Também no X, Renan Santos, que se apresenta como fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidato à presidência da República, publicou um vídeo sobre a vaga conquistada por Duda com a seguinte legenda: “Vou acabar com todas as cotas”. Ele ainda insinua que quem passou no vestibular pelo sistema se torna um “profissional retardado”.
Já no Instagram, nos comentários de uma postagem de Duda sobre a “realização de um sonho”, muitos usuários proferiram outros ataques: "Tirando vaga de quem merecia", escreveu um; "Já sei com quem não procurar ajuda médica", debochou outro.
Uerj se pronuncia
A Uerj, por meio da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), divulgou uma nota de repúdio a “quaisquer atos de ódio, discriminação, racismo, transfobia e ataques às políticas de inclusão dirigidos a integrantes de sua comunidade acadêmica”.
A universidade afirmou que tomou conhecimento dos ataques a Duda nas redes e os classificou como “inaceitáveis”. O texto segue destacando que as investidas contra a caloura representam desconhecimento ou negação “das profundas desigualdades sociais, econômicas e educacionais que, historicamente, marcam a sociedade brasileira”.
Ainda de acordo com a nota da Uerj, as cotas “legítimas, legais e plenamente reconhecidas institucionalmente”, têm o objetivo de mitigar desigualdades estruturais e tornar mais justo o acesso ao ensino superior. A universidade salienta que o sistema não poder ser utilizado “como fundamento para questionamentos quanto à dignidade, à capacidade ou ao pertencimento acadêmico”.
Por fim, a Uerj presta solidariedade a Duda e assegura que prestará apoio psicossocial à estudante.