A aposentada Silvia Sousa não liga em ser chamada de senhoraArquivo pessoal

'Senhora, você, senhorita, madame, senhor,' entre outras tantas nomenclaturas que são medidas normalmente pela idade ou pelo estado civil. Mas afinal, faz diferença por qual pronome se é chamado ou isso está apenas na cabeça das pessoas?Por falar nisso, agora os 60+ não são mais idosos. Um novo termo, NOLT - (New Older Living Trend) - pessoas que seguem vivendo com propósito, curiosidade e vontade de evoluir - foi criado e vem invadido as redes sociais e serve também para movimentar a vida das pessoas e dos especialistas como geriatras e quem trabalha com recursos humanos.
'Reconheço que estou vivendo'
O termo senhora, usado por respeito ou para pessoas mais velhas, divide opiniões. A aposentada Denise Lima, de 60 anos, não liga nem um pouco de ser chamada assim.
"Não me incomoda nem um pouco ser chamada de senhora. Isso significa que eu estou vivendo, que estou indo além do previsto. As pessoas antigamente achavam que você ficava idosa e estava prestes a morrer e não é essa a situação. Quero viver. Me aposentei tem dois anos, vou para hidroginástica, passeio faço minhas viagens, faço o que quero em casa. Sou eu e meu marido e dois gatos em casa. Se eu quiser fazer comida, faço. Se for lanche também. Nada me prende. Pode me chamar de senhora, idosa, terceira idade. Eu me sinto muito bem.
E quanto a esse termo, a aposentada dá sua opinião: "É só para causar, para mudar o rótulo, fantasiar. É tudo a mesma coisa. Eu me reconheço que estou vivendo''.
A aposentada Silva Souza, de 63 anos, é da mesma opinião de Denise Lima. "Eu não me incomodo em ser chamada de senhora. Como meu médico falou tem sintomas que vão acontecer porque você está envelhecendo. Mas se você está envelhecendo é porque você está viva. Graças a Deus que eu já sou uma senhora e sou até avó. Antigamente 40 anos a pessoa já era idosa. Eu não me incomodo nem um pouco. Estou vivendo'".
'Destesto ser chamada assim'
Já a professora Natália Valéria, de não gosta do pronome senhora, a não ser em ocasiões especiais como processos burocráticos. "Informalmente o senhora sempre me incomodou. Acho que não é no pronome que está o respeito. Muita gente acha que é por causa da idade, muita gente que é por conta do status. Ou que fulano é menos do que ela. O senhora me incomoda profundamente porque ele afasta muito, a não ser que seja algo que você cultive em casa. Eu me sinto à vontade quando sou chamada pelo pronome você. Sempre falo 'senhora está no céu'. Isso é uma besteira'"
A também aposentada Georgia Fernandes que não tem nem 60 anos mas já é chamada de senhora não suporta o termo. "Eu detesto. Lembro que quando eu tinha uns 40, um rapaz de 18 mais ou menos me chamou de senhora e a minha resposta instantânea foi: "senhora é a sua avó. Estou com 58 anos mas não gosto mesmo. Prefiro até ser chamada de tia porque já fui professora'', diz ela.
Reflexão de como a sociedade encara o envelhecimento

O geriatra Sérgio Alves, do CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas Dr João Amorim, diz que o fato de muitas pessoas não gostarem do pronome é uma questão interessante que reflete muito sobre como a sociedade e as pessoas encaram o envelhecimento.
"A negativa em ser chamado de senhora ou senhor muitas vezes vem de uma percepção de que esses termos carregam um peso de idade avançada, de formalidade excessiva. Ninguém quer se sentir rotulado ou diminuído pela idade. Há um desejo natural de manter a vitalidade, a relevância e a individualidade, e ser tratado de forma mais informal, pelo nome, pode reforçar essa sensação de juventude e de pertencimento. É uma forma de resistir à ideia de que a idade define quem você é ou o seu valor, preferindo ser reconhecido pela pessoa que é, e não apenas pelo número de anos vividos".
De acordo com o profissional, envelhecer não é perder a vida, é mudar o jeito de viver. "O que faz diferença não é esperar o corpo voltar a ser o que era, e sim cuidar do que ainda dá para melhorar movimento, rotina, vínculos, propósito e saúde mental. Uma provocação: você vai deixar essa fase acontecer com você, ou vai construir essa fase com intenção?".
Otimismo e evolução

Em relação ao termo NOLT, Sérgio emite sua opinião. "Como profissional de saúde, vejo o NOLT com grande otimismo e como uma evolução muito bem-vinda. Essa nova forma de encarar o envelhecimento, com propósito, curiosidade e a busca contínua por evolução, é exatamente o que preconizamos para uma vida longa e saudável. Não se trata apenas de viver mais, mas de viver melhor, com qualidade e significado".
Ele acrescenta que manter a mente ativa, o corpo em movimento e o espírito engajado em novos aprendizados ou paixões, capaz de prevenir doenças, retardar o declínio cognitivo e promover um bem-estar geral que vai além da idade cronológica, é um convite para que cada um seja protagonista da sua própria jornada, independentemente dos anos vividos.
A expectativa de vida aumentou, mas muita gente não se preparou para essa fase da vida, tanto que centenas de pessoas têm problemas de saúde quando atingem uma certa idade. O médico afirma que essa é uma realidade muito comum e compreensível. Ele orienta a focar em estratégias que ajudem a manter a funcionalidade e a autonomia o máximo possível, mesmo com as limitações físicas.
"Isso inclui atividades físicas adaptadas, como caminhadas leves, hidroginástica ou fisioterapia, que fortalecem a musculatura e melhoram o equilíbrio, prevenindo quedas. Uma alimentação balanceada, rica em nutrientes, também é fundamental para dar energia e manter a saúde óssea. É crucial manter a mente ativa, com leituras, jogos ou conversas, e cultivar as relações sociais. O acompanhamento médico regular é indispensável para gerenciar condições crônicas e ajustar tratamentos, garantindo que o corpo receba o suporte necessário para acompanhar a vitalidade da mente".
Celebração das pequenas vitórias
O especialista também fala que quando as pessoas estão mais velhas tendem a ficar mais cansadas, prostradas algumas caem em depressão, mas é possível dar uma guinada para reverter o quadro.
"Para viver de forma satisfatória, mesmo com limitações, o segredo está em adaptar e encontrar novas fontes de prazer e propósito. Isso pode significar redescobrir hobbies que não exijam tanto esforço físico, como leitura, jardinagem em pequena escala, pintura ou música. Manter o contato com amigos e familiares é vital, pois o isolamento é um grande inimigo do bemestar. Se a tristeza persistir, é fundamental buscar ajuda profissional, um psicólogo ou psiquiatra, pois a depressão é uma doença tratável. Celebrar as pequenas vitórias diárias, em vez das perdas, faz uma diferença enorme na qualidade de vida".

Mais pessoas 'grisalhas' para trabalhar

Nomenclaturas também podem servir para dar uma bossa a mais ou até para se repensar certas questões, principalmente no que tange ao quesito 60+ no mercado de trabalho. Em entrevista ao jornal O DIA, o mestre em Gestão de Negócios pela FGV, especialista em desenvolvimento humano e CEO da Etalent, Jorge Matos, e a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro (ABRH-RJ), Renata Filardi, falam sobre o assunto.
O DIA: Como você interpreta a ideia de NOLT (New Older Living Trend) no contexto atual do mercado de trabalho brasileiro? Quais sinais reais dessa tendência você já observa nas organizações?
Jorge Matos: Independentemente do neologismo NOLT, o fato é que temos — e teremos cada dia mais — pessoas idosas no mundo. A expectativa e a qualidade de vida não param de crescer. O esforço físico no trabalho, por outro lado, só diminui, já que o trabalho pesado foi ou está sendo assumido pelos robôs. Logo, temos mais pessoas 'grisalhas' disponíveis para trabalhar. Isso é um fato.
No entanto, observo que a maioria ainda pensa como seus pais: querem se aposentar, não buscam capacitação e envelhecem profissionalmente mesmo antes de pararem de trabalhar. Quando questionadas, culpam a tudo e a todos, mas raramente assumem a própria responsabilidade. Estar saudável, mas despreparado, é o grande problema que vejo com clareza.
O conceito de lifelong learning (aprendizado contínuo) nunca foi tão importante. Essa busca pelo conhecimento deve ser acompanhada de ajustes comportamentais e melhorias práticas que levem o profissional a gerar resultados. O conhecimento pelo conhecimento, em si, não leva a lugar nenhum. O que observo nas organizações? Que elas continuam buscando — ainda um tanto perdidas — pessoas que gerem resultados. E, para o mercado, pouco importa se essas pessoas são ou não 'prateadas'.
Renata Filardi: O conceito de NOLT (New Older Living Trend) reflete uma mudança importante no modo como o envelhecimento é vivido e percebido no mercado de trabalho. Ele deixa de estar associado à inatividade e passa a representar uma fase de continuidade produtiva, aprendizado e reinvenção. No Brasil, isso se conecta diretamente ao aumento da longevidade e ao envelhecimento da população economicamente ativa.
Nas organizações, já é possível observar profissionais 60+ permanecendo em posições estratégicas por mais tempo, assumindo papéis de mentoria, migrando para novas funções ou construindo carreiras mais flexíveis. Também cresce a busca por requalificação, inclusive digital, mostrando que maturidade e aprendizado contínuo não são opostos.
O DIA: Quais seriam os principais desafios para que empresas deixem de ver a maturidade como barreira e passem a valorizá-la como diferencial competitivo?
Jorge Matos: Contra fatos não há argumentos. Vamos esquecer, por um momento, as diferenças de idade, sexo ou dados socioeconômicos e focar na execução. Coloque duas pessoas para realizar uma atividade: uma aprende rapidamente, age com celeridade e baixo custo; a outra demora a aprender, reclama e gera alto custo. Com qual delas qualquer empresa do mundo escolheria ficar? A resposta de como o mercado funciona é simples: gera resultados? Sim. Não gera? É um problema. Portanto, não é apenas a empresa que precisa passar a ver a maturidade como diferencial; a "geração prateada" é que precisa se mostrar competitiva.
Minha geração pode, sim, ser um diferencial. Tenho 64 anos e costumo dizer que sou 'pré-analógico'. Como diria Raul Seixas, eu vi tudo isso acontecer; sou um observador atento e, na minha área de atuação, me sinto plenamente preparado. Jamais digo não sei. Não pretendo me aposentar e estudo todos os dias de forma sinérgica, unindo as três dimensões: conhecimentos, comportamentos e práticas. Eu não peço nada à empresa; eu ofereço. Se o que eu ofereço for interessante, elas vão querer. Se for muito interessante, vão querer muito.
Renata Filardi: O principal desafio ainda é cultural. Muitos vieses associam idade a menor produtividade ou resistência à mudança, o que não se sustenta na prática. Além disso, as empresas precisam revisar modelos tradicionais de carreira, avaliação e desenvolvimento, que não consideram ciclos mais longos de contribuição profissional.
Transformar maturidade em diferencial competitivo exige investir em aprendizagem contínua, flexibilidade de jornada, saúde integral e modelos de trabalho que valorizem experiência, visão estratégica e capacidade de formação de talentos. É importante entender que alta performance não está relacionada à idade e sim ao potencial.
O DIA: Em termos de liderança, o que diferencia um gestor maduro (60+) de um gestor mais jovem? Há estereótipos que precisam ser desconstruídos?
Jorge Matos: Existe o risco de esse gestor ainda ser do tempo do 'manda quem pode, obedece quem tem juízo'.  Se for esse o caso, ele está profissionalmente morto. Por outro lado, se for um líder com autoconhecimento e liderança forte, ele se torna imbatível, pois possui experiências únicas que um jovem levará décadas para vivenciar. Fazendo uma analogia com o vinho: se ele for de uma 'safra ruim' pode estar azedo, amargurado, resistente, saudosista e ultrapassado. Mas, se for de uma 'boa safra', possuirá uma relevância incrível, visão sistêmica, equilíbrio emocional, uma vasta rede de conexões e capacidade de mediação. É alguém com maturidade e, seguramente, muita história e experiência para agregar.
Renata Filardi: Gestores maduros tendem a trazer maior visão sistêmica, equilíbrio emocional, capacidade de tomada de decisão em cenários complexos e forte atuação como mentores pois já passaram por diversos cenários. Já gestores mais jovens costumam se destacar pela agilidade, familiaridade com novas tecnologias e abertura à experimentação. Porém essas qualidades são observadas em todas as faixas etárias
O grande estereótipo a ser desconstruído é a ideia de que inovação está ligada apenas à juventude. Na prática, as organizações mais fortes são aquelas que promovem lideranças intergeracionais, combinando experiência, energia, repertório e novas formas de pensar.