Segundo a delegada Renata do Amaral, a Deam Digital é uma nova porta de entrada, e quanto mais canais tiver, maior a chance de proteger as vítimasÉrika Martin
No último dia 12 de março, a Polícia Civil do Rio de Janeiro inaugurou a Deam Digital, primeira delegacia especializada de atendimento à mulher totalmente on-line do estado. A unidade, coordenada pela delegada titular Renata do Amaral, pode atender a população nos 92 municípios. A delegacia vinha operando em caráter experimental desde o fim de dezembro de 2025 e surge como resposta à limitação estrutural do atendimento presencial. Nesse período de quase três meses de estreia já apresentou dados significativos de atendimento.
Atualmente, o estado conta com 15 Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams) físicas para atender uma população distribuída em 92 municípios. O dado evidencia um dos principais desafios no combate à violência de gênero: a dificuldade de acesso ao atendimento especializado, sobretudo em regiões do interior.
“A gente tem muitas Deams, mas quando analisa os números, percebe que são 15 unidades para 92 municípios. Ou seja, muitas cidades ficam sem esse atendimento específico”, explicou a delegada ao jornal O DIA.
A Deam Digital nasce com o objetivo de ampliar esse alcance, democratizando o acesso ao registro de ocorrências e permitindo que mulheres de qualquer localidade do estado possam buscar ajuda sem sair de casa.
Um dos principais diferenciais é a rapidez: o Registro de Ocorrência (RO) é gerado, em média, em até 15 minutos após o envio. Em mais 15 minutos, o caso pode ser analisado e encaminhado ao Poder Judiciário, especialmente quando há pedido de medida protetiva de urgência.
“Em cerca de 30 minutos, conseguimos fazer todo o atendimento inicial e enviar o pedido para a Justiça”, destacou a delegada.
A plataforma também permite o envio de provas como fotos, prints de conversas, áudios e vídeos, fortalecendo os registros e agilizando os encaminhamentos.
Para quem é a Deam Digital
A Deam Digital foi pensada para alcançar mulheres que enfrentam dificuldades reais para acessar uma delegacia.
É o caso de quem mora no interior ou em cidades pequenas e tem medo de que o agressor descubra a denúncia. Em localidades onde todos se conhecem, a ida a uma delegacia pode representar risco e exposição.
Também atende mulheres que dependem financeiramente do agressor e não podem ser vistas buscando ajuda, além de mães com filhos pequenos que não têm rede de apoio para deixar as crianças.
Há ainda mulheres com deficiência ou dificuldades de locomoção e aquelas que enfrentam jornadas exaustivas de trabalho e não conseguem ir até uma unidade policial.
Outro fator importante é a superlotação das Deams físicas. Muitas vezes, as vítimas precisam esperar horas para serem atendidas, o que pode gerar ainda mais desgaste emocional. O atendimento digital elimina essa barreira, oferecendo mais agilidade, discrição e acolhimento.
“A mulher que já está em situação de vulnerabilidade não precisa ainda fazer um esforço enorme para buscar ajuda. O Estado precisa chegar até ela”, ressaltou a delegada.
Quem pode registrar e limitações
A Deam Digital possui critérios específicos. Apenas a própria vítima pode registrar a ocorrência, não sendo permitido o envio por terceiros.
Além disso, crimes como feminicídio, estupro e ocorrências de menor potencial ofensivo não podem ser registrados pela plataforma, pois exigem atendimento presencial e procedimentos periciais imediatos.
Números do período experimental
Mesmo com pouca divulgação, os dados já demonstram a importância da iniciativa e a rapidez na resposta institucional. Em três meses de funcionamento experimental, foram registrados:
•Janeiro: 240 ocorrências
•Fevereiro: 391 ocorrências
•Março: 291 ocorrências
Medidas protetivas de urgência:
•78 deferidas (53,06%)
•43 indeferidas (29,25%)
•26 em análise (17,69%)
Cenário nacional e nova legislação
A criação da Deam Digital acontece em um contexto alarmante no país. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, em 2025, foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Entre essas vítimas, 62,6% eram mulheres negras, evidenciando a desigualdade estrutural e a maior vulnerabilidade socioeconômica enfrentada por essa parcela da população. A maior parte dos crimes ocorre dentro do próprio lar (66,3%) e, em 8 de cada 10 casos, o autor é parceiro ou ex-companheiro, reforçando o caráter doméstico da violência de gênero.
Diante desse cenário, medidas legislativas têm avançado para ampliar a proteção às mulheres. Entre elas está a chamada lei do homicídio vicário, que irá integrar a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006), a qual já contempla diversas formas de violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, contra mulheres.
O homicídio vicário tipifica situações em que o agressor atinge a mulher por meio de terceiros, como filhos, pais ou pessoas próximas, prática que antes era penalizada apenas de forma isolada, de acordo com o crime cometido contra o terceiro. Com a nova legislação, esses casos passam a ter penas mais severas, que podem variar de 20 a 40 anos de prisão, garantindo maior proteção não apenas à mulher, mas também a seus descendentes e ascendentes.
Redução da subnotificação
A Deam Digital também atua no combate à subnotificação. Muitas mulheres deixam de denunciar por medo, vergonha ou dificuldades práticas.
Segundo a delegada, o aumento dos registros indica que essas vítimas estão, finalmente, encontrando um caminho para denunciar. “São mulheres que antes não conseguiam acessar o sistema e agora têm essa possibilidade”, afirmou.
*Um novo modelo de atendimento*
A Deam Digital não substitui as unidades físicas, mas amplia o alcance do atendimento especializado no estado. A ferramenta representa um avanço no uso da tecnologia como aliada no enfrentamento à violência contra a mulher.
“É uma nova porta de entrada. Quanto mais canais a gente tiver, maior a chance de proteger essas vítimas”, concluiu a delegada.
Link para registro de ocorrência:
https://delegaciaonline.pcivil.rj.gov.br/deam-digital/aviso-importante
Reportagem da estagiária Aretha Dossares, com supervisão de Renata Onaindia

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