Após mais de cinco anos à frente da Secretaria de Estado de Turismo, Gustavo Tutuca retorna à Assembleia Legislativa. Em entrevista exclusiva ao O DIA, o deputado estadual faz um balanço do período no Executivo, aborda temas como ordenamento urbano, segurança pública, legislação penal e projeta os próximos passos do seu mandato.
O senhor assumiu a Secretaria de Turismo em um dos momentos mais difíceis da história, durante a pandemia. Qual foi a principal estratégia para reconstruir o setor?
Assumimos em um momento desafiador, durante a pandemia. O setor foi um dos mais impactados, com hotéis vazios, eventos cancelados e milhares de pessoas sem trabalho e sem renda. Nossa missão era reconstruir o turismo com planejamento, promoção, credibilidade, e muito cuidado.
A nossa primeira estratégia foi restabelecer a confiança. Trabalhamos junto ao trade, às prefeituras e aos órgãos de saúde para garantir protocolos e segurança para a retomada.
Paralelamente, estruturamos um plano forte de promoção, especialmente no mercado nacional, incentivando o turismo de proximidade. Foi nesse contexto que surgiram campanhas como o “O Rio Continua Lindo e Perto”, que ajudaram a reativar o fluxo de visitantes. A partir daí, fomos avançando com planejamento, integração e presença constante nos mercados.
O Rio de Janeiro vive um momento de recordes no turismo. O que explica esse novo ciclo de crescimento do setor no estado? E qual o papel do Aeroporto do Galeão nessa retomada?
Esse momento histórico do turismo do Rio de Janeiro é resultado de uma estratégia construída ao longo dos últimos anos, que começou lá em 2021, ainda na pandemia. Primeiro, houve uma decisão clara de tratar o turismo como política pública de desenvolvimento, com promoção estruturada, presença nos principais mercados, qualificação profissional, realização de eventos e apoio ao setor.
Segundo, mostramos ao Brasil e ao mundo que o Rio é muito mais do que a capital. É um estado diverso, com natureza, cultura, história, gastronomia e experiências únicas em todas as regiões.
E terceiro, investimos em conectividade. Nesse ponto, a retomada do Aeroporto Internacional RioGaleão foi fundamental. Saímos de cerca de 6,5 milhões de passageiros em 2023 para quase 18 milhões em 2025, reposicionando o aeroporto como um hub internacional.
E os resultados vêm aparecendo mês a mês. Só em janeiro e fevereiro deste ano, recebemos cerca de 600 mil turistas internacionais, superando São Paulo, que teve 557 mil, mesmo concentrando o principal aeroporto do país. Enquanto São Paulo cresceu 5,2%, o Rio avançou quase 20%. E isso em um cenário em que o Brasil, como um todo, registrou retração no período (- 4,3%). Quando você soma estratégia, organização e identidade, o resultado aparece. E o Rio voltou a ser protagonista no turismo internacional.
Um dos destaques da sua gestão foi a interiorização do turismo. Como isso impactou as cidades fora da capital?
A interiorização foi uma mudança de paradigma. Durante muito tempo, o turismo no Rio ficou concentrado na capital, mas a verdade é que o estado inteiro precisa se beneficiar do fluxo turístico. Muitas cidades do interior têm no turismo a sua principal atividade econômica. Por isso, temos trabalhado para integrar roteiros, promover regiões de forma complementar e mostrar ao visitante que a viagem ao Rio pode ir muito além dos pontos tradicionais.
Hoje, as 12 regiões turísticas do estado estão cada vez mais estruturadas e recebendo visitantes. Isso gera impacto direto na economia local, com mais ocupação em pousadas, aumento no movimento de bares e restaurantes, valorização do artesanato e fortalecimento da cultura local.
Tem muita gente que ainda acha que turismo está ligado apenas a lazer. Mas a verdade é que o turismo hoje impacta diretamente a vida das pessoas. Onde o cidadão comum sente esse impacto no dia a dia?
O turismo impacta diretamente mais de 50 setores da economia e é uma das atividades que mais gera emprego e renda. Quando um turista chega, ele movimenta uma cadeia enorme: hotelaria, alimentação, transporte, comércio, cultura, esporte, eventos.
Isso aparece no dia a dia das pessoas. São bares e restaurantes mais cheios, hotéis e pousadas com alta ocupação, o guia trabalhando, o artesão vendendo mais, o taxista e o motorista de aplicativo com mais corridas. É dinheiro novo entrando na economia local.
Muitas vezes, na correria do dia a dia, as pessoas não percebem que o turismo impacta diretamente a vida delas.
O que ainda precisa avançar para que o Rio de Janeiro se consolide de vez como um dos principais destinos turísticos do mundo?
O Rio é um dos destinos mais conhecidos do mundo e voltou a ser protagonista no cenário mundial. Mas consolidar isso exige avanço contínuo. O trabalho de promoção é fundamental, mas também precisamos evoluir em infraestrutura, qualificação profissional, ordenamento urbano e segurança pública.
Nesse meu retorno à Assembleia Legislativa, já protocolei um pedido de audiência pública para debater justamente a questão do ordenamento urbano, que é essencial para a experiência do turista e para a qualidade de vida da população.
Turismo não é responsabilidade exclusiva de um setor. É uma construção coletiva do Estado, dos municípios, da iniciativa privada e da sociedade civil. Quando o ambiente está organizado, o destino se fortalece naturalmente.
A base foi construída, o Rio voltou ao mapa, e agora o desafio é sustentar esse crescimento com qualidade e organização.
O senhor deixou recentemente a Secretaria de Turismo após mais de cinco anos. Qual é a sensação e o principal legado desse período?
A minha sensação é de missão cumprida, principalmente pelo momento em que assumimos a pasta, em meio à pandemia, onde o turismo praticamente não existia. Hoje, o Rio bate recorde atrás de recorde. Foram mais de 5,5 milhões de turistas internacionais nos últimos quatro anos, um recorde de 2,2 milhões em 2025 e uma meta de passar de 2,5 milhões em 2026.
Mais do que números, o legado está na integração com os municípios, no fortalecimento do interior e na consolidação do turismo como política pública de desenvolvimento econômico e social.
Agora que está de volta à Alerj, de que forma a experiência no Executivo muda sua atuação como deputado estadual?
No Executivo, você vive a execução das políticas públicas, entende as dificuldades, os limites e as soluções possíveis. Isso traz uma bagagem importante para o Legislativo. Volto para a Alerj com uma visão mais prática, ainda mais conectada com a realidade dos municípios e com mais capacidade de contribuir com projetos que realmente possam sair do papel.
A verdade é que eu vejo a vida pública de forma linear. Independentemente do cargo de secretário ou de deputado estadual, meu objetivo sempre foi e sempre será trabalhar para melhorar a vida das pessoas.
Como surgiu o termo “despachante dos municípios”, que já ouvi de alguns prefeitos e vereadores do interior do estado quando se referem ao senhor?
Acho que esse termo surgiu da relação de proximidade que sempre tive com as cidades. Seja na Alerj ou na Secretaria de Turismo, meu gabinete sempre esteve aberto para ouvir e encaminhar as demandas de cada município.
Prefeitos e vereadores precisam de representantes próximos ao Governo do Estado e à Assembleia Legislativa, que ajudem a abrir portas, articular investimentos e destravar projetos. Sempre fiz questão de estar presente, acompanhando de perto e buscando solução para os problemas reais de cada cidade. Se isso significa ser um “despachante dos municípios”, eu assumo com orgulho a função.
Segurança pública é hoje uma das maiores preocupações da população. Como o senhor vê esse desafio e de que forma pode contribuir como deputado?
Segurança é um dos maiores desafios do estado hoje. Ela impacta diretamente a vida dos moradores e também setores como o turismo, que dependem de um ambiente seguro para crescer.
Nos últimos anos, tivemos avanços importantes, com investimentos da ordem de R$16 bilhões do Governo do Estado nas forças de segurança, em tecnologia, equipamentos, infraestrutura e capacitação.
Mas não podemos debater a questão da segurança pública sem debater uma reformulação na nossa legislação penal. É fundamental que o Brasil avance nessa questão. A polícia do Rio de Janeiro prende, trabalha muito, mas infelizmente as leis fracas, antiquadas, protegem os criminosos. Não é razoável que o mesmo indivíduo seja preso 5, 10, 20 vezes e retorne rapidamente às ruas. Ninguém aguenta mais isso. Precisamos de leis mais firmes, que punam os criminosos e protejam a população.
Ao longo do nosso mandato, sempre tratamos esse tema com prioridade. Um exemplo é a Lei 9.245/21, de minha autoria, que determina o monitoramento eletrônico de agressores em casos de violência doméstica contra a mulher, ajudando a proteger vítimas e prevenir novos crimes. Hoje essa lei está em prática e, infelizmente, temos quase 500 homens, agressores, utilizando tornozeleira eletrônica no estado. É uma realidade triste, mas que está ajudando a tornar a proteção mais efetiva.
Falando em leis, quais você destacaria como mais importantes ao longo desses 4 mandatos consecutivos como deputado estadual?
Além dessa tornozeleira eletrônica que falamos, eu cito a Lei do Aço (8.960/20), que criou um regime diferenciado de tributação de ICMS para o setor metalmecânico, garantindo a competitividade do RJ frente a outros estados da federação, como SP e MG.
A Lei 8.958/20, que garantiu a presença obrigatória de fisioterapeutas 24 horas nas UTIs. Essa lei ajudou a salvar muitas vidas durante a pandemia. A Lei n.º 7195/2016, que Institui que a docência em Educação Física em escolas públicas e particulares seja exercida exclusivamente por professores de Educação Física licenciados em nível superior.
E por último, não é uma lei, mas é uma emenda parlamentar que foi muito importante para a saúde da região Sul Fluminense. Em 2017, eu destinei R$42 milhões ao Hospital Regional Doutora Zilda Arns, em Volta Redonda, que garantiram a abertura da unidade, que é referência até hoje e já salvou milhares de vidas.
Agora que está de volta à Alerj, quais são as prioridades do seu mandato e o que a população pode esperar do seu trabalho?
Estou de volta à Assembleia Legislativa com o foco de seguir trabalhando pelo desenvolvimento do estado, fortalecendo a economia, apoiando os municípios e atraindo investimentos para o interior e para a capital. Quero continuar defendendo o turismo como política pública estratégica, mas também ampliar minha atuação em áreas como saúde, infraestrutura, ordenamento urbano e segurança.