Arquitetura neoclássica do Cine Odeon encanta o públicoÉrica Martin / Agência O Dia

Rio - Único remanescente dos cinemas de rua na Cinelândia, no Centro do Rio, o Cine Odeon completa 100 anos nesta sexta-feira (3). O espaço mantém o projeto arquitetônico neoclássico desde 1926 e impressiona pela grandiosidade, fazendo com que o público resgate a memória de quando a região possuía diversos estabelecimentos desse tipo entre as décadas de 30 e 80.
Luiz Severiano Ribeiro Neto, terceira geração de uma família que administra cinemas desde 1917, conta que o Odeon faz com que ele reviva a época de grande movimentação na Cinelândia.
"Normalmente, não gosto de olhar para trás, mas no Odeon olho para trás. Eu trabalho na empresa há mais de 50 anos, sou da terceira geração, então eu vivi na época que a Cinelândia tinha seis, sete salas de cinema e lotava. Tinha pessoas que ficavam em pé para ver o filme. Estamos preservando a história que faz parte do grupo, é muito importante preservar aqui na Cinelândia, onde era o polo do cinema naquela época", destaca o CEO do Kinoplex, empresa responsável por administrar o histórico cinema nos dias atuais.
Atualmente, o Odeon funciona somente para eventos e não oferece sessões diárias. Entretanto, é a principal sede do Festival do Rio e de lançamentos de filmes na cidade. Em 2024, foi palco da première de gala do filme "Ainda estou aqui", de Walter Salles, na qual o público cantou "Parabéns" para a atriz Fernanda Montenegro, que completava 95 anos, em uma cena memorável. Grandes nomes do cinema internacional também passaram pelo palco, como Samuel L. Jackson, Tom Cruise e Bradley Cooper.
Cenas memoráveis de quem trabalhou no icônico cinema
Alicia Pessanha trabalhou por mais de 10 anos na bilheteria do Cine Odeon, além de ter assumido o posto de gerente entre 2012 e 2014. Ela relata que, no espaço onde assistiu um filme no cinema pela primeira vez, viveu cenas que carregará para sempre.
"São 650 lugares… Eu lembro que trabalhei na bilheteria durante o 'Tropa de Elite 2' e comentei com meu gerente que nunca mais vou esquecer dessa cena. A Praça Floriano completamente lotada. A última sessão era 20h, mas já esgotava ao meio-dia, todos os 650 lugares, e pessoas pedindo para sentar no chão. Foi uma coisa de louco, é um cinema muito diferenciado. Uma vez, um senhor pediu para conhecer o cinema por dentro com a esposa e a filha deficiente, para mostrar para filha onde conheceu a mãe dela. Eu sempre fiquei maravilhada com o Odeon. Foi onde vi o primeiro filme da minha vida, 'Lagoa Azul', e depois me vi trabalhando lá", relembra.
Ao longo do século XX, o Odeon recebeu o lançamento de clássicos, como "Cleópatra" (1934), de Cecil B. DeMille, e "Aconteceu naquela noite" (1934), de Frank Capra. Além disso, ajudou a lotar a Cinelândia com as primeiras sessões de "O Filho de Ali Babá" (1952), de Kurt Neumann; "O Exorcista" (1973), de William Friedkin, e "E.T. O Extraterrestre" (1982), de Steven Spielberg.
Cinema de rua que resiste às mudanças
A arquitetura neoclássica é um dos principais encantos. Além dos dois andares de assentos, o espaço conta com um enorme lustre no alto da sala envolto de uma abóbada pintada com detalhes dourados. Patrícia Cotta, head de marketing do Kinoplex, detalha que o público sempre se impressiona com a estrutura.
"O Odeon encanta gerações que cresceram nesse cinema. É um espaço muito grandioso, lindo, uma arquitetura de estilo neoclássica que nós preservamos. O lustre é de 1926, a gente preservou a arquitetura, a fachada, tudo isso para manter essa história da cultura do cinema viva. O lustre é de 1926, essa abóboda é de 1926. Quando vamos trocar as luzes do lustre, chamamos uma empresa para descê-lo, fazem toda a manutenção e, depois, a empresa puxa para cima novamente. Ele é muito pesado e tem um sistema de cabos que sobe e desce. Então, imagina como é para pintar o teto... É um cinema que precisamos ter muito cuidado na manutenção. Hoje, é o nosso único cinema de rua, então é muito importante para a gente", pontua.
Patrícia ainda ressalta que, ao longo dos 100 anos, o comportamento dos cinéfilos mudou e afetou o modelo de uso do Odeon. Nos anos 60, o Rio chegou a ter 200 cinemas de rua, mas esse número caiu drasticamente e, hoje em dia, são menos de 20.
"O Odeon faz parte da história do cinema no Brasil, é um cinema muito importante para a cultura. Quando ele inaugurou, em 1926, o modo de ir ao cinema era totalmente diferente. O ingresso custava 5 mil réis, os homens vinham de terno e as mulheres de vestido longo, chapéu. Era uma maneira de consumir cinema diferente, um outro formato. A característica dos cinemas mais importantes de hoje em dia não é o cinema de rua, mas sim o cinema de shopping. É onde as pessoas costumam ir, o próprio público ditou essa mudança. Então fomos adaptando o Odeon às mudanças que foram acontecendo no mundo, no país e na maneira de consumir cinema do público. Até que identificamos que o Odeon é um espaço perfeito para eventos, festivais, grandes acontecimentos… Ele não é um cinema como um outro cinema de shopping. O público não vê o Odeon dessa forma, mas sim como um espaço para evento", explica.
Evento com lançamento de filme celebrou centenário
Para celebrar o aniversário, o Cine Odeon ofereceu ingressos a R$ 1 para sessões dos filmes "Nuremberg", de James Vanderbilt, e "Velhos Bandidos", de Cláudio Torres, entre os dias 30 de março e 2 de abril. Na última segunda-feira (30), o espaço recebeu o lançamento de "Rio de Sangue", dirigido por Gustavo Bonafé. A atriz Alice Wegmann, que participa da obra e esteve no evento de pré-estreia, recordou bonitas memórias ao entrar no Odeon.
"Eu já vim muito ver filmes aqui, principalmente o Festival do Rio é onde mais tenho memórias. As salas ficam lotadas, não tem espaço de tanta gente, é muito gostoso ver esse cinema lotado. Eu pude presenciar isso algumas vezes na vida. Me lembro muito de uma sessão que teve com a Fernanda Montenegro, foi aniversário dela. São muitas memórias nesse espaço e, estar aqui lançando um filme no aniversário de 100 anos, é uma emoção muito grande. É um cinema que valoriza nossa cultura, olha para o nosso país e valoriza o que a gente tem de melhor", afirma.
A atriz Giovanna Antonelli, que contracenou com Alice em "Rio de Sangue", acrescenta: "Estar no Odeon, um lugar onde tantas gerações passaram, um lugar que atravessa o tempo, lugar que respira cinema… Estar aqui me faz lembrar o porquê eu comecei e ainda tem tanta história a ser contada. É um privilégio estar aqui hoje".