Depois de relacionamentos abusivos, Sarah de Carvalho prefere a solitudeArquivo pessoal

As novelas, as músicas, os filmes, algumas peças teatrais como Romeu & Julieta, entre outras e as histórias ou estórias sempre abordaram o amor romântico e têm letras como a de Tom Jobim que afirma categoricamente: ''É impossível ser feliz sozinho?" Será mesmo? É preciso encontrar a metade da laranja para se sentir inteiro ou já somos mesmo a laranja e o que vier para somar será ótimo?Em outra canção, Satisfeito, de Marisa Monte, a indagação:"Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho? Vivo tranquilo, a liberdade é quem me faz carinho". Pois é. E as pessoas, principalmente as mulheres, a quem sempre foi dado o fardo ou a obrigação de ser casada a ponto de falarem: ''vai ficar para titia'' ou ainda mais agressivo: vai encalhar, estão mudando esse pensamento. Afinal, casamento nunca foi e jamais será sinônimo de felicidade.
A boa notícia é que a maioria das pessoas, entre 40 e 50 anos, não está mais caindo nessa e começa a ver a importância da independência emocional até para encontrar pares e amigos que tenham mais a ver com elas. Este é o caso da assessora de imprensa Sarah Carvalho, de 40 anos. Ela se sente muito bem sozinha.
"Ao longo da minha vida, tive relacionamentos abusivos e sofri muito abuso psicológico e físico. Isso me fez procurar por uma ajuda psicológica. Com a terapia consegui identificar em mim os padrões de comportamento que eu estava reproduzindo da minha família. A busca pelo meu eu e por entender minhas dificuldades me fez enxergar que a solitude não é algo ruim. Hoje, me considero uma mulher que ainda acredita no amor. Mas, não no idealizado. E que entende que nesse momento de vida ficar "sozinha' é uma escolha consciente e muito sábia. É uma decisão de vida. Consertar o que está dentro para viver o que está fora. E eu entendo que a "solidão" não é ruim. Eu amo ir ao cinema, shows, passear, sozinha. Não que eu não tenha companhias, eu tenho. Mas, amo o meu espaço comigo mesma. Minha vida mudou quando percebi que amar estar sozinho, com si mesmo, é uma benção. Não um castigo", finaliza.
Um pouquinho mais velho, com 59 anos, Heitor Werneck, também prefere a solitude. "É muito perigoso se envolver com pessoas após os 50 anos. Elas te usam como fetiche, aproveitam ou exploram economicamente. Eu me sinto bem sozinho, gosto muito de mim. Já tive relacionamentos com dependência emocional, inclusive com um psicólogo. Ele usava técnicas para me manipular como autista. Não existia responsabilidade afetiva. Não existe responsabilidade afetiva com os autistas, principalmente os 50 + .Prefiro ficar sozinho",  desabafa.
Processo profundo de autoconhecimento
Para falar um pouco mais sobre independência emocional e o desenvolvimento da autonomia,  a psicóloga Claudia Melo concedeu entrevista para o jornal O DIA.

O DIA: O que a psicologia entende por independência emocional e por que ela pode se fortalecer entre os 40 e 50 anos?
Claudia Melo: A independência emocional não significa não precisar de ninguém. Significa conseguir sustentar quem se é sem depender o tempo inteiro da validação do outro para sentir valor pessoal. Entre os 40 e 50 anos, muitas pessoas começam a viver um processo mais profundo de autoconhecimento. Existe uma revisão de escolhas, prioridades e relações. É uma fase em que muita gente percebe que passou anos tentando corresponder expectativas sociais e começa a se perguntar o que realmente faz sentido para si.Pesquisas recentes publicadas na revista científica Personal Relationshi mostram que pessoas solteiras nessa fase da vida podem desenvolver mais autonomia emocional, autoconhecimento e sensação de liberdade emocional. Isso acontece porque aprendem, ao longo do tempo, a construir uma vida afetiva menos dependente da aprovação externa. Na visão de Carl Rogers (psicólogo psicólogo americano, considerado um dos fundadores da psicologia humanista e criador da Abordagem Centrada na Pessoa), o amadurecimento emocional acontece quando a pessoa consegue viver de forma mais congruente consigo mesma, mais próxima daquilo que realmente sente e é.
O DIA: Existe diferença entre estar sozinho por escolha e por circunstância? Como isso influencia o bem-estar?
Claudia Melo: Existe muita diferença. O sofrimento não está necessariamente em estar sozinho, mas no significado emocional que isso tem para cada pessoa. Quando a solteirice é uma escolha consciente, ela costuma vir acompanhada de liberdade, autonomia e paz interna. Já quando acontece a partir de perdas, rejeições ou frustrações não elaboradas, pode gerar sofrimento, sensação de inadequação e vazio emocional. A psicologia entende que o bem-estar não depende apenas do estado civil. Depende da qualidade da relação que a pessoa constrói consigo mesma e também dos vínculos que consegue manter ao longo da vida.
O DIA:Como diferenciar independência emocional de isolamento ou solidão?
Claudia Melo: A independência emocional aproxima a pessoa dela mesma. O isolamento afasta a pessoa do mundo. Uma pessoa emocionalmente saudável consegue estar bem na própria companhia, mas continua aberta às trocas afetivas, aos vínculos e ao encontro com o outro. Ela não precisa se fechar emocionalmente para se sentir forte.
A solidão dolorosa normalmente aparece quando existe desconexão afetiva, sensação de não pertencimento e dificuldade de compartilhar a própria vida de forma genuína. Existe uma diferença importante entre estar só e sentir-se sozinho. Há pessoas em relacionamentos profundamente solitárias e pessoas solteiras emocionalmente nutridas por amizades, família, projetos e propósito de vida. Inclusive, pesquisas sobre saúde emocional mostram que vínculos significativos e rede de apoio têm impacto direto na sensação de bem-estar e qualidade de vida.
O DIA: A pressão social para estar em um relacionamento ainda afeta pessoas nessa fase da vida?
Claudia Melo: Ainda afeta muito. Existe uma construção social antiga de que felicidade e realização passam obrigatoriamente por um relacionamento amoroso. Muitas pessoas solteiras após os 40 ainda enfrentam perguntas invasivas, cobranças e julgamentos silenciosos. Isso aparece principalmente na vida das mulheres, que durante muito tempo foram ensinadas a associar valor pessoal à ideia de casamento e família.
Ao mesmo tempo, estamos vivendo uma mudança cultural importante. Muitas pessoas já não aceitam permanecer em vínculos vazios apenas para atender expectativas sociais. Existe hoje uma busca maior por relações mais conscientes, saudáveis e verdadeiras.

O DIA: Quais sinais indicam que a pessoa está bem resolvida emocionalmente estando solteira?
Claudia Melo: Uma pessoa emocionalmente bem resolvida não transforma o relacionamento em necessidade de sobrevivência afetiva.
Ela consegue desfrutar da própria companhia sem viver em sofrimento constante. Mantém vínculos saudáveis, possui projetos pessoais, consegue estabelecer limites emocionais e não entra em relações apenas por medo da solidão.
Também existe uma diferença importante entre desejar um relacionamento e precisar dele para sentir valor pessoal. Quando existe independência emocional, o amor deixa de ser um lugar de carência e passa a ser um espaço de troca.

O DIA:Que estratégias podem ajudar a fortalecer a autonomia emocional e evitar sentimentos de solidão?
Claudia Melo: O primeiro passo é fortalecer a relação consigo mesmo. Muitas pessoas aprenderam a cuidar da vida inteira de todos ao redor, mas nunca desenvolveram intimidade com a própria história emocional. É importante cultivar amizades, fortalecer redes de apoio, construir interesses pessoais, desenvolver autonomia emocional e aprender a reconhecer as próprias necessidades afetivas sem vergonha.
A psicoterapia também pode ajudar muito nesse processo porque permite que a pessoa se escute com mais profundidade e construa uma relação mais verdadeira consigo mesma.  Carl Rogers dizia que, quando alguém se sente verdadeiramente aceito, começa a se aproximar daquilo que realmente é. E isso muda completamente a forma como essa pessoa vive os vínculos. Ela deixa de se relacionar por medo ou dependência e passa a se relacionar com mais autenticidade e liberdade.