Símbolo de fé e memória, Santuário Nossa Senhora d’Ajuda renasce após restauração Reginaldo Pimenta/Agência O Dia

Rio - Mais do que um templo religioso, o Santuário Nossa Senhora d’Ajuda é parte da memória afetiva e da identidade da Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio. Carinhosamente chamado pelos moradores de "a igreja mãe de todos os insulanos", o monumento histórico, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reabriu as portas na última sexta-feira (15), depois de cinco meses fechada.
Construído em 1710, o santuário é um dos patrimônios mais antigos do bairro. Após anos enfrentando graves problemas estruturais e de uma longa batalha para viabilizar recursos, o templo ressurge renovado, livre das ameaças que comprometiam sua preservação e pronto para voltar a acolher os fiéis.

A reabertura foi marcada por uma missa celebrada às 19h pelo Cardeal Arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, em um momento de profunda emoção para moradores que acompanharam, com esperança e perseverança, cada etapa da restauração.
Nos últimos anos, a deterioração da igreja preocupava a comunidade. A situação chegou à Justiça por meio de uma ação civil pública ajuizada em 2009, e, em 2018, uma decisão da 27ª Vara Federal determinou providências urgentes para garantir a restauração definitiva do templo. A tão aguardada ajuda financeira finalmente chegou, e as obras foram executadas durante a gestão do pároco Diogo Espagolla.

Entre as intervenções realizadas estão a recuperação interna do santuário, a modernização das instalações elétricas e a implantação de sistemas de combate a incêndio, uma medida simbólica para um templo que, em 1871, teve seu interior e telhado destruídos pelas chamas.
No anexo ao lado da igreja histórica, foi criado um pequeno museu e centro de exposição permanente batizado de Herança D'Ajuda. O espaço integra um projeto de resgate e preservação do patrimônio cultural, histórico, artístico e espiritual da comunidade paroquial e está aberto à visitação de todos os cidadãos.
Ao DIA, o pároco Diogo Espagolla afirmou que o sentimento é de dever cumprido com a conclusão das obras. "É um sentimento de grande alegria e de dever cívico cumprido. Trata-se de um testemunho e de um estímulo constante para todo o povo da Ilha do Governador e da cidade do Rio de Janeiro sobre a necessidade de valorizar sua rica história, reconhecer a experiência de fé que sempre contribuiu para a formação da civilização na Ilha e buscar permanentemente a construção de um espaço para a vivência da comunhão fraterna entre aqueles que se reconhecem como filhos espirituais de Deus. Como consequência, esse trabalho também fortalece a revitalização já percebida em toda a vida do bairro", disse.

Para a pedagoga e professora de Libras Milena Maria, de 50 anos, o Santuário Nossa Senhora d'Ajuda transcende o valor histórico e religioso. É parte da trajetória de inúmeras famílias da Ilha do Governador.

"Na minha própria família, minha mãe fez a Primeira Eucaristia e se casou neste Santuário. Eu também recebi meus sacramentos aqui e hoje sou catequista da paróquia. Meus filhos e meus sobrinhos foram batizados aqui. É o lugar onde cresci, construí amizades e vivi momentos muito importantes da minha vida", conta.

Milena define o templo como um espaço de alegria, esperança, fé, encontro e comunhão. "A reabertura devolve à comunidade um lugar que sempre foi referência espiritual, cultural e humana. Reacende em todos nós o sentimento de pertencimento, o cuidado com a nossa história e fortalece ainda mais a nossa devoção à Nossa Senhora da Ajuda."

Ela também relembra um episódio marcante em sua família. Há dois anos, sua sobrinha e afilhada, Ana Beatriz, foi gravemente ferida por um tiro de fuzil. Durante o período de internação, a comunidade se uniu em oração. "Toda a igreja rezou intensamente pela recuperação dela. Foram dias de muito clamor pela intercessão de Nossa Senhora da Ajuda. Pela graça de Deus, Ana Beatriz sobreviveu. Os próprios médicos disseram que foi um milagre. Tenho certeza de que Jesus ouviu as preces do povo."

A psicanalista e pedagoga Elaine Silva, de 48 anos, que vive desde o nascimento no bairro Magno Martins, resume o sentimento compartilhado por muitos moradores. "É onde a história da minha família se mistura com a história do bairro. É o lugar onde a gente chorou, sorriu, pediu ajuda e agradeceu. Ter o Santuário reaberto é devolver à comunidade um pedaço do seu coração. É ter novamente a certeza de que Nossa Senhora da Ajuda continua de portas abertas para acolher seus filhos."

Assim como Milena, Elaine tem uma forte ligação familiar com o local. "Há 48 anos minha vida acontece aqui. Minha avó me trouxe, minha mãe se casou, eu me casei, minhas irmãs também, e todos batizamos nossos filhos no Santuário. A reabertura não é apenas a de um templo, mas a valorização da nossa fé, da nossa história e do afeto que atravessa gerações."

Emocionada, ela resume em uma frase o sentimento dos insulanos: "A comunidade esperava por isso. A casa da Mãe está aberta de novo."

As obras começaram em janeiro deste ano, após articulação da Comissão de Patrimônio da Arquidiocese do Rio de Janeiro, dedicada à preservação da herança religiosa e cultural da cidade. A reforma foi executada no âmbito de um Termo de Fomento firmado entre o IPHAN e a Associação dos Amigos da Antiga Sé (SAMAS).

Três séculos de história e resistência

Localizado na Praça Calcutá, na Freguesia, o Santuário Nossa Senhora d'Ajuda começou a ser erguido em 1710 com o apoio de devotos portugueses e pescadores, primeiros habitantes da região.

Ao longo de mais de três séculos, o templo atravessou incêndios, saques durante a Revolta da Armada, sucessivas reconstruções e períodos de fechamento. Tombado pelo patrimônio histórico desde 1938, o santuário foi restaurado e reaberto pela primeira vez em 1990, após uma mobilização liderada pelo padre Celso Sehn.

Agora, mais uma vez recuperado, o Santuário Nossa Senhora d'Ajuda volta a cumprir sua missão de acolher gerações de fiéis e preservar a memória de um povo que encontra, naquele altar centenário, um refúgio de fé, esperança e pertencimento.